Único clube negro de Joinville, Kênia completa 60 anos em setembro

Espaço foi criado para driblar o racismo em época em que negros não podiam frequentar o mesmo clube que os brancos

Imagine que você vai a uma festa e uma corda separa os dois lados da pista de dança. De um lado, só dançam brancos. Do outro, ficam os negros. Pode parecer algo inimaginável hoje, mas essa era uma divisão comum nos tradicionais clubes de Santa Catarina há menos de um século. Em alguns clubes brancos, os negros sequer podiam entrar. Em outros, só podiam beber, sem dançar. 

Sem espaços de lazer como esses, restou à população negra driblar o racismo criando seus próprios clubes. Foi nesse contexto que, em 1960, surgiu a Sociedade Kênia Clube, o primeiro clube negro de Joinville e um dos únicos sete ainda ativos em todo o Estado.

“O nome, eles pegaram lá do Quênia, o país da África, porque era onde tinha muita gente negra”, conta Adelmo Braz, integrante do clube nos primeiros anos de sua fundação.

“À época, existia uma divisão entre brancos e negros e se quiséssemos entrar em um salão de baile não havia problema: podíamos apenas beber cerveja, mas dançar nem pensar. A discriminação racial era muito forte e nós, negros, tínhamos apenas uma saída: ter uma sociedade onde pudéssemos beber e dançar igual a todo mundo”. O relato é de Luiz Paulo do Rosário, o Alegria, em entrevista disponível no Arquivo Histórico de Joinville.

Integrantes do clube prontos para o baile na década de 1960 – Foto: Divulgação/ND

Foi o grupo de amigos de Alegria que criou o Kênia Clube há 60 anos. “O clube surgiu de uma reunião de amigos que sempre iam jogar bola e que formaram um time de maioria negra, o qual batizaram de Kênia. A partir daí, começaram a conversar sobre como poderiam fazer essa recreação além do futebol porque queriam bailes, música, atrações”, explica Alessandra Bernardino, professora e pesquisadora da história do Kênia.

As domingueiras e os bailes eram as grandes celebrações do clube, que fica no bairro Floresta, zona Sul da cidade. Mas as atividades não paravam por aí: o local também realizava eventos para unir e empoderar seus integrantes, como aulas de alfabetização e oficinas de trabalhos manuais, tudo para “elevar o padrão social e intelectual da gente de raça negra”, como prevê um trecho de um dos primeiros estatutos do clube.

Sede do clube em 1968 – Foto: Arquivo Histórico de Joinville/ND

“Foi um tempo muito bom, muito gostoso”, relembra Adelmo, que recorda algumas curiosidades em relação aos costumes da época. “Durante a música da marca Guaraná, a mulher é que tirava o homem para dançar, mas muitos corriam para o banheiro porque não tinham dinheiro para pagar um refrigerante pra namoradinha”, conta aos risos. Segundo ele, o Kênia era o ponto de encontro dos jogadores do Caxias e do América na época.

Para Alessandra, o clube também tem um significado especial. Foi lá que seus pais se conheceram e que ela participou do seu baile de debutantes. “Para mim, a Sociedade Kênia Clube é minha referência étnica e cultural que permanece resistindo ao tempo dentro da maior cidade do Estado. É um território carregado de história, memória e de organização política e social que rompeu com os padrões de uma época, representa um marco histórico na construção de um novo paradigma da sociedade joinvilense”, destaca.

“A Sociedade Kênia Clube é minha referência étnica e cultural”, diz Alessandra Bernardino, professora e pesquisadora.

Berço da primeira escola de samba de Joinville

Oito anos após sua fundação, o Kênia Clube também serviu de berço para a criação da primeira escola de samba de Joinville, a Escola de Samba Amigos do Kênia.

“Eu tinha um grupinho de amigos que saía nos fins de semana e a gente começou a fazer nossos batuques. Um dia, estávamos todos reunidos e eu disse ‘vamos pra rua?’, ‘vamos’ e saímos desfilar na rua do Príncipe. Saímos lá do salão do Kênia já batucando”, relembra Adelmo, considerado o fundador da escola.

O desfile chamou atenção, tanto é que o diretor de turismo da época convidou Adelmo para tocar o Carnaval da cidade nos próximos anos. “Começou o Carnaval e a gente foi tocando, mas era mais curiosidade, eu não tinha noção das coisas de escola de samba”, diz Adelmo.

Na maioria das vezes, eles cantavam sambas tocados nas rádios, mas até hoje a memória do sambista preserva a letra de um dos únicos sambas-enredo originais que a escola teve:

A Escola de Samba Amigos do Kênia hoje se chama Príncipes do Samba, mas continua emocionado as pessoas na avenida, principalmente quem fez parte de sua fundação.

“Um momento marcante e emocionante foi quando a Príncipes do Samba foi desfilar e eu não estava, estava assistindo o desfile. Quando ela chegou na avenida eu não aguentei, era uma filha minha que estava ali desfilando, uma coisa que eu fiz”, recorda Adelmo.

Clubes negros são espaços de referência para a comunidade negra

“O motivo que leva à criação dos clubes negros é o racismo: a população negra não tinha outro lugar para exercer essa socialização”, destaca Jeruse Romão, professora e pesquisadora dos clubes negros em Santa Catarina. Segundo ela, o primeiro clube do Estado surgiu em 1901, em Laguna, e a criação desses espaços se estendeu até a década de 1980.

“O que esses clubes revelam é que a cultura catarinense também adotou o modelo de segregação racial em que os negros não poderiam frequentar os mesmos clubes. Eles não são criados porque os negros queriam fazer um clube de negros, mas porque eles não podiam estar no clube dos brancos”, ressalta a professora.

Apesar de o pensamento político da época ser diferente do de hoje, os clubes negros mostram que havia um pertencimento étnico-racial envolvido na formação desses espaços. Isso fica visível nos nomes dos clubes, como o do poeta negro Cruz e Sousa, do operário Sebastião Lucas, 13 de maio, e do próprio Kênia Clube, que remete ao país africano.

“Hoje, os clubes negros compõem um museu a céu aberto da história do negro em Santa Catarina. Eles registram a violência racial no Estado, assim como o movimento de resistência dos negros aqui, são um território cultural demarcado na cidade”, destaca Jeruse.

O desafio atual dos clubes negros é trazer a juventude para esses espaços. “O Kênia representa um papel fundamental para a juventude, principalmente para quem nasceu aqui na década de 1990. Durante todo esse período, o clube esteve fechado, o que proporcionou um certo distanciamento de parte da geração com o clube”, explica o publicitário Felipe Cardoso.

Apesar disso, segundo ele, o Kênia tem um papel fundamental para a construção e reafirmação da presença, da identidade e da beleza negra em Joinville.

“O Kênia é um marco físico e simbólico da presença e contribuição da população negra na cidade. É uma marca de resistência e a juventude precisa se apropriar deste espaço para ganhar forças e lutar contra o racismo que ainda persiste na cidade”, destaca.

Para homenagear, fotos, depoimentos e vídeos

Segundo o presidente do Kênia, Edson Sestrem, para comemorar os 60 anos, o clube está reunindo vídeos e fotos da história do espaço. “Como não podemos fazer nenhum evento dentro do clube por causa da pandemia, a gente decidiu comemorar o aniversário dessa forma, pedindo fotos, depoimentos e vídeos das pessoas que tiveram passagem por esses 60 anos do Kênia. Essa é a nossa pequena homenagem”, conta.

Os depoimentos, fotos e vídeos podem ser enviados para a página do Facebook do Kênia.

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