‘Coração da dança’: por que o festival de Joinville é um dos mais importantes do país

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Entenda os fatores que fazem do Festival de Dança de Joinville um dos mais relevantes para os profissionais do Brasil

Quem mora em Joinville, no Norte de Santa Catarina, sabe que a cidade muda sempre que começa uma edição do Festival de Dança. A quadra de esportes do Centreventos Cau Hansen dá lugar a uma gigantesca plateia, as praças e shoppings recebem apresentações e os bailarinos, que chegam de todos os lugares do Brasil e até do exterior, movimentam as ruas.

Joinville recebe o maior festival de dança do mundo – Foto: Nilson Bastian/Divulgação/NDJoinville recebe o maior festival de dança do mundo – Foto: Nilson Bastian/Divulgação/ND

O evento é tão grande que conquistou o título de maior festival de dança do mundo pelo Guinness Book, em 2005, já tendo, inclusive, dobrado o número de participantes que rendeu a ele a alcunha no livro dos recordes.

Mas o que significa, de fato, participar do Festival de Dança de Joinville para os bailarinos e por que ele é tão importante para a carreira nessa área no país?

Competição, formação e vários gêneros reunidos em um só lugar

Durante oito noites competitivas, bailarinos de vários lugares sobem ao palco em apresentações de Jazz, Balé Clássico de Repertório, Balé Neoclássico, Danças Urbanas, Sapateado, Danças Populares e Dança Contemporânea. E para Rui Moreira, um dos curadores do evento, este é um aspecto que torna o evento único.

“São poucos os festivais no mundo que têm essa característica de ter tantos gêneros reunidos em um período de tempo. Então, além da questão da competição, o festival se torna ponto de encontro, local de troca de metodologias, de informações sobre o ato de dançar”, destaca.

Festival de Dança de Joinville reúne diversos gêneros – Foto: Nilson Bastian/Divulgação/NDFestival de Dança de Joinville reúne diversos gêneros – Foto: Nilson Bastian/Divulgação/ND

Moreira explica que o festival é ainda mais importante para bailarinos em formação, já que possibilita o encontro com outros pares, acima ou abaixo do nível de cada um. “Isso gera um parâmetro para o desenvolvimento das pessoas e dentro de um espaço de desejo do bailarino, que é o palco”, diz.

Mas para chegar até o palco do Centreventos, ou “palcão” como o espaço foi carinhosamente apelidado, o caminho não é fácil. “Há um preparo que vai desde a organização do corpo em função das motricidades específicas de cada dança até um preparo psicológico, já que a pessoa será vista e essa é uma predisposição que nem todos têm”, conta Rui.

E ainda que corpo e mente estejam preparados, se apresentar para a plateia de 4 mil pessoas requer passar por uma seleção muito competitiva. “Chegam aqui em torno de 10 mil inscrições para que sejam selecionadas cerca de 200 a 300. Isso faz com que o sarrafo seja muito alto e que todos se esmerem nos mínimos detalhes”, complementa o curador.

Mas para além das competições, o Festival de Dança de Joinville também é palco para a formação de profissionais, com diversos cursos oferecidos durante o evento. Neste ano, marcado pela pandemia, foram cerca de 80 cursos, metade dos promovidos em outras edições.

Cursos são oportunidade de se aperfeiçoar ainda mais no festival – Foto: Maykon Lammerhirt/Divulgação/NDCursos são oportunidade de se aperfeiçoar ainda mais no festival – Foto: Maykon Lammerhirt/Divulgação/ND

“É uma dificuldade muito grande a circulação de espetáculos em um país de dimensão continental como o Brasil. E para Joinville vem pessoas de todas as regiões, trazendo informações sobre técnicas e culturas variadas que contribuem para o enriquecimento do artista”, salienta Rui.

Ele destaca, ainda, as atividades oferecidas para quem não necessariamente se profissionaliza nessa arte. “O festival entende que a dança é uma manifestação da alma, própria e de direito de qualquer ser humano, e promove ações para que qualquer pessoa que vier possa se envolver com a dança”.

Por fim, o curador ressalta o papel do festival como ação transformadora para a educação e a arte no país. “A cada ano, o evento busca se renovar para fortalecer esse espaço da dança que não é só para o artista, mas para a comunidade, pelo prisma da educação, do consumo de cultura e arte. Ações como essa dão a possibilidade de acesso, ainda que ele seja desejado e construído por cada um”, completa.

“O coração da dança vem para o Sul”

Muita gente pode não conhecer a pequena Paraopeba, cidade de cerca de 25 mil habitantes que fica em Minas Gerais. Mas, para quem acompanha o festival, esse nome é familiar. É de lá que vem a Cia Jovem de Paraopeba, tricampeã do evento na categoria conjunto sênior em Dança Contemporânea.

O grupo é formado por profissionais da dança, mas também por pessoas que se dividem entre outras atividades. Entre os bailarinos paraopebenses, há pedreiro, doméstica e enfermeira, por exemplo, e todos ganham espaço para mostrar a sua arte no palco de Joinville.

Cia Jovem de Paraopeba na apresentação de “Efeito cascata”, sobre a tragédia de Brumadinho – Foto: Nilson Bastian/Divulgação/NDCia Jovem de Paraopeba na apresentação de “Efeito cascata”, sobre a tragédia de Brumadinho – Foto: Nilson Bastian/Divulgação/ND

“Quem ia saber da Cia de Paraopeba se não fosse o festival?”, questiona Alan Keller, coreógrafo do grupo. “É uma cidade pequena, não tem teatro e, de repente, eles sobem num palco desse, é outra realidade. É uma grande vitrine. Se hoje eu e a companhia temos algum reconhecimento, tudo isso aconteceu pela visibilidade que o festival nos traz”, conta.

Para ele, a diversidade promovida pelo festival incentiva grupos e bailarinos a se aperfeiçoarem cada vez mais. “Ele estimula as pessoas a estudarem mais um ano por juntar essa pluralidade artística em um único lugar. É a possibilidade de ser visto, fazer interlocuções além da internet, é uma mola propulsora”, ressalta Alan.

O coreógrafo ainda destaca a abertura de espaço para outras modalidades de dança. Nas últimas edições, o festival teve competição de K-Pop e promoveu atividades em outros estilos, como o Vogue. “O espaço está se abrindo para outros tipos de dança e isso é super válido. É um lugar que pulsa vida, a gente vê todos esses corpos em movimento”, fala.

Alan resume a importância do festival para o Brasil: “o coração da dança vem para o Sul, é como se no mapa do Brasil o coração fosse para os pés. É o lugar onde tudo se encontra, que bombeia gente para todos os outros lugares do mundo”.

“Maior vitrine da dança no país”

Quem concorda com Alan é o também mineiro Gladstone Navarro, fundador e coreógrafo do Cultura do Guetto, grupo de Danças Urbanas de Belo Horizonte. Para ele, que já teve diversas apresentações premiadas no festival e foi eleito o melhor coreógrafo em 2018, o evento é uma vitrine.

Cultura do Guetto na apresentação de Estímulo Mostra de Dança – Foto: Nilson Bastian/Divulgação/NDCultura do Guetto na apresentação de Estímulo Mostra de Dança – Foto: Nilson Bastian/Divulgação/ND

“É a maior vitrine do nosso país em questão de dança. Ele cria outros caminhos de trabalho, que é o que a gente mais precisa”, fala. Para ele, estar e vencer no festival é estimular os bailarinos do grupo, já que muitos se dividem entre outros trabalhos e ainda não são remunerados com a dança.

Além disso, é ter reconhecimento, o que, neste ano, veio com a apresentação do espetáculo Exit na Estímulo Mostra de Dança, que valoriza companhias vencedoras e com contínua participação no festival.  “É realizador chegar aqui e contar uma história, levar um trabalho em que as pessoas lembram mais do trabalho do que qualquer outra coisa”, destaca Gladstone.

Para o coreógrafo que já participou de inúmeras competições, o festival se sobressai por extrapolar a arte. “É o festival mais artístico que eu já conheci, falando de transcender a dança. Não é só ligar uns passos e apresentar, é um lugar diferenciado. E chegar aqui é muito difícil”.

“Um currículo para a vida”

Se para quem vem de fora o festival é essencial, como é a sensação para quem é de Joinville? Para a proprietária e coreógrafa da Companhia de Dança Liliana Vieira, que é da cidade, é ter a felicidade de estar no maior festival de dança do mundo no “quintal de casa”.

Companhia de Joinville conquistou primeiro lugar no conjunto sênior de Danças Populares Brasileiras – Foto: Maykon Lammerhirt/Divulgação/NDCompanhia de Joinville conquistou primeiro lugar no conjunto sênior de Danças Populares Brasileiras – Foto: Maykon Lammerhirt/Divulgação/ND

“Estamos na nossa casa, temos o acolhimento da nossa família, toda a estrutura é a nosso favor”, diz Liliana. O grupo conquistou o primeiro lugar na categoria conjunto sênior em Danças Populares Brasileiras neste ano e acumula pódios também em outras edições.

“Para quem é bailarino, seja para quem vive da dança, seja para quem gosta de dançar, mas não é profissional, o festival é esperado ansiosamente”, fala Liliana, que salienta o quão relevante é ser selecionado em um evento como esse. “É surreal, são muitos inscritos para poucas vagas, é como um vestibular de Medicina”, brinca.

Para ela, que participa do festival desde 1998, estar no festival promove aos bailarinos muito mais que o contato com a dança. “Além de uma grande vitrine, é um currículo para a vida. Você precisa de disciplina, comprometimento e superação, porque ora vence, ora perde”, ressalta.

“O ar que volta para os pulmões”

A vinda ao Festival de Dança de Joinville é tão importante que se entrelaça com a vida pessoal de cada participante. Tatiana Souza, que dá nome à Street Company Tatiana Souza, conta que descobriu a gravidez da filha durante uma edição do evento e, agora, a vê conquistando prêmios no festival.

“As pessoas de Joinville não têm noção de como abraçam o sonho de muitas pessoas. Eu descobri que estava grávida aqui, meu primeiro lugar veio através da minha filha, que é bicampeã como coreógrafa aos 17 anos. Joinville é parte da minha história”, conta.

Bailarinas do grupo paranaense Street Company Tatiana Souza no palco do Centreventos Cau Hansen – Foto: Maykon Lammerhirt/Divulgação/NDBailarinas do grupo paranaense Street Company Tatiana Souza no palco do Centreventos Cau Hansen – Foto: Maykon Lammerhirt/Divulgação/ND

A companhia fica no Paraná e recebe apenas meninas. Das 300 bailarinas, 60 vieram ao festival e o grupo conquistou o primeiro lugar no conjunto júnior de Danças Populares Internacionais e no duo júnior de Danças Urbanas. Além disso, recebeu indicações a melhor coreógrafo e grupo.

“Para as meninas, estar em Joinville é a realização de um sonho, é saber que a dança pode te levar a algum lugar. O festival tem esse carinho de abraçar os artistas e de, mesmo depois de tudo o que a gente viveu na pandemia, acreditar no sonho. É dividir um todo único”, diz Tatiana.

Para ela, participar do festival vai além da dança, ainda mais vivendo a experiência como mulher. “Estar aqui é uma bandeira, é mostrar que, como mulher, a gente pode chegar a qualquer lugar”. E a vinda ganha ainda mais força após o período mais crítico da pandemia.

“Foram muitos sonhos interrompidos. Estamos vivos, mas perdemos muitas pessoas. Estar aqui é mostrar para as meninas que a gente tem que estar firme. Voltar ao palco de Joinville é como o ar que volta para os pulmões”, fala Tatiana, emocionada.

Ao fim de mais um festival, a quadra do Centreventos volta a ser usada por jogadores de futsal e basquete e as praças e shoppings ficam um pouco mais vazios. O intervalo é necessário: é hora de colher os frutos de mais uma edição e começar os ensaios para o novo festival que vem aí.