Cultura do Guetto no palco: conheça o grupo destaque no Festival de Dança de Joinville

Grupo mineiro de danças urbanas se apresentou na Estímulo, mostra voltada a valorizar equipes premiadas e com contínua participação no festival

“É difícil, mas dá pra fazer. Vamos nos ajudando, vamos pensar juntos”. De cima de um dos palcos do Festival de Dança de Joinville, com as cadeiras ainda vazias na plateia, Gladstone Navarro fala com o seu público, naquele momento, formado por bailarinos apreensivos, que se preparam para mais um ensaio.

São os últimos ajustes para a apresentação do Grupo Cultura do Guetto, de Belo Horizonte (MG), na Estímulo Mostra de Dança, criada em 2014 para valorizar grupos com uma relação contínua de participação no evento e já premiados na Mostra Competitiva.

Gladstone (à esquerda) e seus bailarinos durante a Estímulo – Foto: Nilson BastianGladstone (à esquerda) e seus bailarinos durante a Estímulo – Foto: Nilson Bastian

Os bailarinos mineiros de danças urbanas deram check nos dois requisitos: nas edições de 2018 e de 2019 do festival, últimas antes do início da pandemia, levaram ao palco do Centreventos Cau Hansen coreografias em solo, duo e conjunto que se destacaram na competição.

Quem acompanha o festival, não precisa puxar muito na memória para lembrar de André ‘Calton’ dançando dentro de uma bola de ar, de Carlos Balarini e Júnior Chagas envoltos em uma caixa preta ou de Gina Luiza surgindo do teto para dançar sobre violência contra a mulher.

Gina Luiza em uma coreografia sobre a violência contra a mulher – Foto: Maykon LammerhirtGina Luiza em uma coreografia sobre a violência contra a mulher – Foto: Maykon Lammerhirt

Todas essas coreografias, além de outras tantas que já passaram pelo maior festival de dança do mundo, levam a assinatura de Gladstone. Não à toa, em 2018, ele foi eleito o melhor coreógrafo do festival, prêmio que, conforme você ainda lerá neste texto, ele trocaria facilmente.

Uma história que era pra ser curta, iniciada na zona Leste de BH

Se hoje o Cultura do Guetto tem 15 anos de história, isso não foi exatamente planejado, pelo menos não no início do grupo, em 2006. Gladstone conta que a ideia era apenas reunir dançarinos para uma competição da qual a companhia em que ele atuava não participaria.

“Estávamos eu e mais um amigo para montar, foi a primeira vez que eu ousei ser um coreógrafo. A primeira intenção foi participar desse concurso, tanto que a data de função do grupo é julho de 2006, quando vencemos, com oito pessoas. Era pra ser uma história muito curta”, fala.

Mas o grupo que nasceu para competir foi crescendo e se tornando cada vez mais competitivo. “O elenco foi se renovando ao longo do tempo, começamos a nos desenvolver e a sermos procurados por outros jovens. E aí iniciamos a caminhada”, conta o coreógrafo.

Gladstone foi escolhido o melhor coreógrafo do Festival de Dança de Joinville em 2018 – Foto: Nilson BastianGladstone foi escolhido o melhor coreógrafo do Festival de Dança de Joinville em 2018 – Foto: Nilson Bastian

Um ano depois de fundado, o CDG passou de oito para 15 dançarinos, número alto para a época, ainda mais para uma equipe de bairro. “Era muito regional e hoje não é mais. Se encontrar dois que moram no mesmo bairro é muito”.

Mas com o crescimento, também vieram os desafios: o primeiro deles foi conseguir manter o padrão das apresentações com as constantes trocas de elenco. “Todo ano tinha troca e puxava a qualidade pra baixo até ensinar tudo de novo”, lembra Gladstone.

A solução para o problema foi investir em uma das marcas do grupo até hoje: a formação. “Tivemos a ideia de abrir um grupo de formação e, depois, fazer uma audição interna. A gente achava que ia receber umas 15 pessoas. Quando a gente assusta tinha mais de 120 pessoas numa sala de aula, a gente pirou”, conta o coreógrafo, com o tradicional sotaque dos mineiros.

A ideia deu tão certo que a formação continua sendo parte dos eixos do CDG, que incluem, ainda, o grupo competitivo e o grupo profissional, voltado a apresentações artísticas. Aliás, este último eixo teve início por uma inquietação dos dançarinos em 2014, após vários anos competindo.

“A gente já tinha oito anos envolto em competições, é muita coisa. Já estávamos com a cabeça mais aberta e começamos a ter a ideia de montar um grupo profissional. A primeira coisa não foi nem montar um trabalho de grande porte, mas desenvolver nossa corporeidade. Foi muito difícil, a gente achou que estava preparado, mas não estava”, fala Gladstone. E aquele não seria o último desafio.

Uma sede construída a várias mãos e com muito esforço

Desde o início do grupo, as atividades aconteciam em escolas públicas. Porém, em 2017, um corte da prefeitura no trabalho dos porteiros noturnos das escolas afetou diretamente os ensaios do CDG, já que muitos deles aconteciam à noite. Daí, surgiu a necessidade de contar com um espaço próprio.

“Outra decisão que eu achei que ia ser fácil e não foi ”, brinca Gladstone. O galpão de 550 m² é alugado e foi inteiramente reformado e adaptado pela própria equipe, em um período em que a dança deu lugar ao cimento, ao martelo e a outras ferramentas e materiais de construção.

“A gente ficou seis meses sem dançar, só trabalhando no espaço. Não tinha grana pra fazer, mas sempre fomos fortes, valentes e muito dedicados. A gente deve ter investido R$ 80 mil e 90% da mão de obra foi nossa. É incrível o que a gente construiu, um grupo de danças urbanas ter o espaço que a gente tem. Temos um sentimento diferente por ele”, conta.

O período sem ensaios, porém, impactou o grupo. “Nem todo mundo conseguiu segurar essa fase de ficar sem dançar e trabalhar por algo, então teve um desmonte, muita gente não acreditou que ia dar certo. Se éramos 50 naquela época, chegamos no final com 18, mas 18 pessoas guerreiras”, destaca o fundador.

Carlos Balarini e Cleber Chagas Junior: melhor duo sênior em 2019 – Foto: Nilson BastianCarlos Balarini e Cleber Chagas Junior: melhor duo sênior em 2019 – Foto: Nilson Bastian

Os impactos causados pela pandemia

Como diversos profissionais da cultura, os dançarinos do Cultura do Guetto também sentiram todos os impactos gerados pela pandemia do coronavírus. Até o início de 2020, o grupo pagava o aluguel e as contas básicas com a renda de pedágios nos semáforos da capital mineira e de um rateio entre a própria equipe, fontes prejudicadas pela pandemia.

“Quando chega a pandemia, não tinha mais como fazer pedágio no semáforo e isso complicou demais porque era essa a nossa renda principal, já que a galera também não tinha muita grana. Quase tivemos que entregar o espaço, que ficou meses com o aluguel atrasado”, fala Gladstone.

A solução foi abrir uma campanha de financiamento recorrente, que ajudou a segurar as pontas no momento mais crítico, apesar de as doações terem caído nos últimos meses. Hoje, o grupo investe em editais de incentivo à cultura e comemora não precisar mais fazer o rateio entre os participantes, embora a situação ainda seja de imprevisibilidade.

Ao se apresentar na Estímulo Mostra de Dança, por exemplo, o CDG recebeu R$ 15 mil, o que poderia aliviar as contas. Porém, o custo de trazer a apresentação a Joinville chegou a R$ 25 mil, R$ 17 mil só no transporte de ônibus da equipe e do cenário de Belo Horizonte para Santa Catarina.

“A Mostra vai conseguir segurar uns quatro meses e é rezando para acontecer outra coisa. Estamos inscrevendo projetos em leis de incentivo, que salvam um pouco mais. Está melhor porque ninguém está pagando mais do bolso, mas é imprevisível e o valor da campanha quase não ajuda mais. Não tem o que fazer, a gente já fez tudo”, explica Gladstone.

O sonho de transformar a dança em renda

Se não precisar que os bailarinos tirem dinheiro do bolso para participar do grupo já é algo a comemorar, qual significado teria conseguir pagar pelo trabalho de todos?

Para Gladstone, esse é o objetivo. “É o meu sonho pagar eles para fazer o que fazem, é o sonho de todos eles trabalhar com a dança. É uma coisa que a gente fala toda hora: ‘quem dera trabalhar de segunda a sexta só com isso aqui’”, conta.

A maioria dos bailarinos do grupo não trabalha exclusivamente com dança e se divide entre a arte e os empregos. “Dá trabalho dividir o tempo, dança não é o que coloca comida dentro de casa. E é difícil fazer virar, é trabalho fazer isso”, destaca o coreógrafo.

As dificuldades de um sistema que prioriza o dinheiro são, aliás, a temática central do espetáculo Exit, apresentado pelo Cultura do Guetto na Estímulo. Em 45 minutos, 16 bailarinos sobem ao palco em uma demonstração de preparação, habilidade e talento para falar sobre as angústias promovidas por falsas sensações de liberdade na sociedade.

“Essa obra, por mais que tenha sido feita em 2016, é muito atual e sempre vai ser. É sobre achar que temos liberdade de escolha, que somos livres para fazer o que quisermos, da liberdade condicionada que a gente tem”, explica Gladstone.

As portas pelas quais os bailarinos surgem e desaparecem, por exemplo, simbolizam a rotina da qual é impossível escapar. “É a forma que se repete na nossa vida todo dia, de como as coisas e as pessoas nos silenciam, tiram a nossa voz, nos excluem”, complementa o coreógrafo.

Asortas simbolizam a rotina da qual não conseguimos sair em um cenário de falsa liberdade – Foto: Nilson BastianAsortas simbolizam a rotina da qual não conseguimos sair em um cenário de falsa liberdade – Foto: Nilson Bastian

Ele mesmo participa de alguns momentos da apresentação e até admite que prefere o palco. “Quando estou fora preciso estar dançando, mas é gostoso demais estar ali. Eu gosto do risco”. Da plateia, o público parece perceber a felicidade dele: “olha a cara de feliz do Glads”, diz uma amiga em uma das fileiras.

O coreógrafo que trocaria o seu prêmio

Quem está acostumado a assistir a apresentações de danças urbanas, talvez estranhe os movimentos não tão comuns apresentados nas coreografias do mineiro Gladstone. Ele mesmo conta que não fica apegado a uma estética tradicional e nem à necessidade de se afirmar em características do gênero.

“Eu não vou ficar me colocando em uma caixinha. As danças urbanas estão aí para contar histórias, são tão potentes quanto qualquer outra linguagem de dança. Eu quero extrapolar essa caixa, quero incomodar e questionar. Isso é resultado de todas as minhas experiências e vivências”, conta.

André Calton na bola de ar durante a Estímulo – Foto: Nilson BastianAndré Calton na bola de ar durante a Estímulo – Foto: Nilson Bastian

É por isso que quem vê uma apresentação coreografada por ele, ainda que não saiba a autoria, não demora a perceber de quem é o trabalho. Iniciado na dança na zona Leste de BH, vendo os irmãos e outros amigos dançando, ele não esconde o orgulho em ter chegado onde chegou.

“Eu fiquei muito emocionado quando escutei essa abertura da Mostra. Tive que falar ‘vamos voltar aqui, Gladstone’, se não não vamos conseguir dançar’. É um lugar diferenciado de se chegar, sou feliz em reconhecer o que eu fiz, o que eu faço e o que eu vou fazer”, fala.

Apesar do orgulho em ver as conquistas, ainda resta um objetivo. “Já vim cinco vezes para o festival, mas nunca consegui ganhar nada com meu grupão e isso dói. Se você perguntar ‘você trocaria o prêmio de melhor coreógrafo pelo prêmio de primeiro lugar para esse grupo?’, eu trocaria, porque a felicidade deles é maior que qualquer premiação”, diz.

Ganhar prêmio com o “grupão” é o objetivo – Foto: Maykon LammerhirtGanhar prêmio com o “grupão” é o objetivo – Foto: Maykon Lammerhirt

Após a apresentação na Mostra, com bailarinos extasiados e exaustos desmontando o cenário – afinal, não é de hoje que o grupo põe a mão na massa pelos próprios sonhos -, ele está satisfeito. “Hoje a gente não ganhou o primeiro lugar, mas a gente fez história”. Quem duvida que eles podem fazer ainda mais?

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