Eles estão nos bastidores: conheça quem faz o Festival de Dança de Joinville

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Diversos profissionais se dedicam para que os bailarinos possam mostrar seu talento e encantar o público no maior festival de dança do mundo

Da plateia, o público assiste atento as apresentações de bailarinos de todo o Brasil, e até do exterior, no palco do Festival de Dança de Joinville. Mas enquanto os grupos mostram o seu talento e o resultado de meses de preparação, nos bastidores, uma grande equipe trabalha para que tudo isso se torne possível e o espetáculo seja garantido.

Cerca de 80 pessoas trabalham na organização, além dos profissionais terceirizados – Foto: Carlos Jr/NDCerca de 80 pessoas trabalham na organização, além dos profissionais terceirizados – Foto: Carlos Jr/ND

Na edição deste ano, que segue até 16 de outubro, cerca de 80 pessoas atuam na organização, isso sem contar com as equipes de limpeza e de segurança, que são terceirizadas.

Algumas experimentam a sensação de estar nos bastidores do maior festival de dança do mundo pela primeira vez, enquanto outras conhecem essa experiência há anos e acompanham as transformações a cada edição.

Flavinho: referência em iluminação e carisma

No time dos veteranos do festival, está o iluminador Flavio Andrade, de 50 anos. Flavinho, como é conhecido nos bastidores, fez sua primeira participação no evento em 2009 e passou por diversos setores desde então, até chegar à coordenação da equipe de iluminação, em 2018.

Flavinho coordena a iluminação nos palcos do Festival de Dança de Joinville – Foto: Carlos Jr/NDFlavinho coordena a iluminação nos palcos do Festival de Dança de Joinville – Foto: Carlos Jr/ND

Ele é o responsável por cuidar da iluminação do palco do Centreventos Cau Hansen, do Teatro Juarez Machado e também dos Palcos Abertos, num trabalho que envolve uma grande equipe. Apesar de coordenar, ele não gosta da alcunha de chefe. “É uma equipe só, não tem chefe. O pessoal vem pra mim porque eu resolvo os pepinos”, ri.

No trabalho de iluminação, Flavinho e a equipe recebem todos os grupos para entender qual é o tipo de luz que eles desejam para a coreografia, em uma tarefa que exige integração.

“Tem que haver entrosamento com o cenário e a sonoplastia para fazer tudo acontecer. Não posso tomar conta só do meu e não cuidar do resto”, fala.

Na conversa entre a equipe e os grupos é que se define a iluminação da coreografia e se faz a gravação, um tipo de manual cena a cena que orienta quando cada efeito deve entrar no palco.

Na noite competitiva, cada grupo tem sua gravação, que é acionada no sistema. “Se você aperta o botão errado e não é aquela coreografia, a casa caiu”, brinca Flavinho.

Para ele, a iluminação faz parte da linguagem e, por isso, varia conforme o gênero e a mensagem das coreografias. “Na dança contemporânea, trabalha-se com a sombra e a contraluz, não precisa iluminar o rosto sempre. Já nas danças populares, sim, porque têm figurino: então não se coloca cor na frente”, explica.

A cor, aliás, também é fundamental para complementar o cenário. “Uma coreografia do Nordeste, falando de Luiz Gonzaga, por exemplo, tem muito âmbar. O flamenco vem com vermelho, já o balé é muito claro”, diz.

Apesar da importância da iluminação, Flavinho ressalta que ela não deve se sobressair à coreografia. “A iluminação não pode ultrapassar a linha do que está embaixo. Não se pode dizer ‘nossa, a luz estava bacana’, mas sim ‘a obra estava bacana’. É isso que a gente prioriza”, complementa.

É da mesa comandada por Flavinho e a equipe dele que toda a iluminação é projetada no palco – Foto: Carlos Jr/NDÉ da mesa comandada por Flavinho e a equipe dele que toda a iluminação é projetada no palco – Foto: Carlos Jr/ND

Para ele, trabalhar no festival é uma experiência gratificante. “É ter uma equipe incrível, gerar emprego, fazer o que gosta e deixar muita gente feliz. Quando acaba, que está todo mundo feliz e chorando, aquilo reflete em você e as pernas ficam bambas”.

Iluminador há mais de 30 anos, ele foi muito impactado pela pandemia do coronavírus, assim como outros artistas. No período sem eventos, montou uma barraca de comidas juninas, fez trabalhos com elétrica e contou com a ajuda de amigos. Por isso, voltar ao festival após dois anos sem edição é ainda mais especial.

“Nessa retomada aos poucos, em qualquer coisa que você vai fazer relacionada ao trabalho já se emociona, já chora. Na abertura, ainda bem que eu não estava operando”, brinca. Para ele, apesar de a recuperação do setor andar a passos lentos, a expectativa é de dias melhores.

As irmãs que pegam férias para trabalhar no festival

Se Flavinho é um dos veteranos do Festival de Dança de Joinville, o que dizer das irmãs Piola Tealdi? Entre edições na organização e como participantes, Adriana e Renata, de 55 e 48 anos, participam do evento pela 34ª vez neste ano e não escondem o amor por ele. “Não tem como ficar longe”.

As irmãs Adriana e Renata participam do festival pela 34ª vez – Foto: Carlos Jr/NDAs irmãs Adriana e Renata participam do festival pela 34ª vez – Foto: Carlos Jr/ND

As duas são servidoras públicas municipais e sempre tiram férias do trabalho durante o festival, a fim de garantir presença. “Nós duas sempre pegamos férias no período, a chefia já sabe, a gente adora isso aqui”, conta Adriana.

Ela trabalha como coordenadora de portaria, controlando a entrada de todo o público que assiste às apresentações da Mostra Competitiva e dos espetáculos no Teatro Juarez Machado. “Todo o público que entra para assistir passa pela minha equipe”, fala.

Já Renata é responsável pelas equipes de atendimento ao participante, credenciamento, balcão de informações e pelo contêiner lixo zero, iniciativa de coleta seletiva do evento. “Trabalhei na parte da organização desde julho e, agora, coordeno essas equipes, mas estamos envolvidas com todas”, explica.

Diante de tanta história com o festival, a ansiedade não poderia ficar de fora com a volta do evento. “É uma ansiedade tanto da equipe quanto dos bailarinos. A expectativa aumentou muito porque o festival está ressurgindo como uma nova esperança. Estamos muito ansiosos e torcendo para que dê certo”, destaca Renata.

Nova edição acontece após dois anos sem o evento por causa da pandemia – Foto: Carlos Jr/NDNova edição acontece após dois anos sem o evento por causa da pandemia – Foto: Carlos Jr/ND

Com 34 participações, as irmãs presenciaram diversas transformações. No início, por exemplo, as apresentações ocorriam no Ginásio Ivan Rodrigues, muito antes da construção do Centreventos Cau Hansen.

A dupla participou, inclusive, da única edição que teve dois palcos oficiais: um no Ivan Rodrigues e outro no ginásio Abel Schulz.

Agora, com a pandemia, novas mudanças chegaram. “Tem outras formas de tecnologia para ampliar a dança, como as apresentações online”, conta Renata.

A irmã complementa: “apesar de o público na arena ser reduzido, é muito maior. É algo que, provavelmente, vai continuar mesmo após diminuírem as restrições”, diz Adriana.

Para elas, uma coisa é certa: “só não muda o amor que as pessoas têm pelo festival. Aqui é único, é mágico”. Aliás, outra coisa também não deve mudar: a data das férias da dupla.

Dos palcos para os bastidores: o bailarino atrás das coxias

Enquanto as irmãs marcam mais um festival para a conta, há quem esteja vivenciando a primeira vez nos bastidores do evento. É o caso de Josué Almeida, de 21 anos: bailarino, ele, agora, experimenta a sensação de estar do outro lado das coxias.

Bailarino, Josué acompanha os grupos do outro lado das coxias – Foto: Carlos Jr/NDBailarino, Josué acompanha os grupos do outro lado das coxias – Foto: Carlos Jr/ND

“É tudo muito diferente de quando eu sou dançarino, que é só entrar e sair. Agora, é coordenar isso tudo, uma visão diferente”, destaca. Josué organiza os ensaios para a Mostra Competitiva no palco, aos quais cada grupo tem direito a uma única vez antes da apresentação.

Como bailarino, ele reconhece a relevância desse momento para cada profissional: “a importância é gigantesca. Ensaiar numa sala é totalmente diferente do palco, a marcação é diferente, o tamanho é maior. Além disso, você já vai sentindo a pressão ao ver o tamanho da plateia”, ri.

Nos bastidores, ele recebe os integrantes de cada grupo, que precisam passar pela biometria, onde são identificados. Depois,  seguem para as salas de ensaio, para as coxias e, enfim, para o palco, onde ensaiam por um tempo limitado, de acordo com a minutagem das coreografias.

Entre as tarefas de Josué, está identificar os integrantes de cada grupo para os ensaios – Foto: Carlos Jr/NDEntre as tarefas de Josué, está identificar os integrantes de cada grupo para os ensaios – Foto: Carlos Jr/ND

Administrar tantas pessoas não é tarefa fácil, segundo Josué. “É um desafio muito grande. Existem contratempos, bailarinos que se atrasam, que precisam ser remanejados, é uma correria e tudo é cronometrado, um trabalho enorme”, destaca.

Mas se o trabalho é grande, a recompensa também é. “Você consegue ter contato com bailarinos de todo o país, entende o que rola no backstage e que você não tinha ideia”, fala.

O conhecimento, aliás, é muito bem-vindo para ele, que participa de um coletivo artístico e pretende transformá-lo em uma companhia de dança.

Dos iniciantes aos veteranos, não faltam pessoas nos bastidores para garantir um bom evento aos bailarinos, às equipes e a todo o público que prestigia cada edição.

Os Flavinhos, Adrianas, Renatas e Josués se multiplicam para formar e transformar um festival que é uma das marcas da cidade, mas também das histórias pessoais de cada um.