Religião e arte: grupo de dança de Florianópolis é selecionado para se apresentar no Vaticano

Dois Pontos Cia de DançaTeatro, de Florianópolis, conquistou patrocínio moral para apresentar a peça “1717” em Roma

Marco Santiago/ND

Alexandra Klen e Ricardo Tezner, mentores da peça “1717”, espetáculo que será apresentado em Roma em 2016

Foram necessários seis dias para que a bailarina Alexandra Klen, 48, conseguisse para a Dois Pontos Cia de DançaTeatro, de Florianópolis, na qual é uma das criadoras e integrante, o patrocínio do Conselho Pontifício da Cultura do Vaticano, em Roma, para a peça “1717”. O patrocínio, na realidade, é como uma chancela, de acordo Alexandra. “A partir do selo, recebemos o convite para nos apresentar no Collegio Pio Brasiliano, que todos os anos reúne a comunidade diplomática do Brasil em Roma e na Santa Sé. Esse local é onde os padres brasileiros ficam para estudar”, explica ela, ressaltando que o patrocínio não é financeiro, apenas moral.

A apresentação será no dia 12 de outubro deste ano. A data não é uma coincidência. Foi no mesmo dia, em 2015, que eles estrearam a peça em Florianópolis, inspirada na história de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, encontrada em 1717, no rio Paraíba do Sul, em São Paulo, e celebrada nesta data, feriado nacional.

A primeira apresentação aconteceu na Catedral Metropolitana, com o aval do arcebispo dom Wilson Tadeu Jönck. Foi ele também quem escreveu uma carta a ser entregue ao Vaticano pelas mãos de Alexandra com uma recomendação do grupo de dança. “A gente foi falar com o arcebispo pensando qual seria a reação dele em ter uma peça dentro de uma catedral, e ele falou “essa é uma expressão artística de algo que nos é muito valioso”, e isso foi muito bacana de ouvir”, lembra a bailarina.

A resposta do conselho veio no dia de Santa Catarina, 25 de novembro, confirmando a ida do grupo a Roma e autorizando o uso do selo de cultura. Porém, além da dificuldade que o grupo teve em encontrar um espaço para se apresentar anteriormente nos teatros da Capital, agora eles precisam de ajuda financeira para efetuar a viagem.

A Cia Dois Pontos, que comemorou um ano de existência na última segunda-feira, é a única do país a se apresentar na programação do conselho cultural em 2016, junto a grupos de Milão, Escócia e Polônia, por exemplo. “A peça passa por um viés religioso, mas é muito mais cultural, histórica, educativa, porque a nossa missão é inovar e educar através da arte. Quando escolhemos fazer sobre Nossa Senhora Aparecida, era muito mais por ser brasileira”, conta Ricardo Tezner, 27, sócio de Alexandra na companhia e bailarino reconhecido.

Em Roma, a peça ocorrerá no Collegio no dia em que a instituição comemora o dia da santa com diversas celebrações. 

Processo artístico

A criação da peça “1717” foi feita em dois processos: o primeiro com os dois bailarinos, Ricardo e Alexandra, estudando sobre a santa e usando o livro “Aparecida”, do jornalista Rodrigo Alvarez como base, o segundo, com uma viagem de Ricardo até Aparecida, onde fez uma imersão no santuário. “Fiquei estudando o movimento das pessoas, como elas fazem a peregrinação, a fé que movia aquela multidão”, acrescenta ele.

O espetáculo é dividido em quatro atos. O primeiro é “Anunciação”, onde os sete integrantes interpretam descoberta da imagem; depois vem “Peregrinação”, que conta a história da romaria, das homenagens a Nossa Senhora Aparecida no local; “Pedidos e Agradecimentos” é o terceiro e lembra a parte de uma sala no santuário, onde as pessoas vão agradecer com réplicas, placas e velas; e o quarto é “Destruição e coroação”. “Cronologicamente, Nossa Senhora recebeu a coração como Rainha do Brasil, e depois a imagem sofreu um atentado, mas nós temos liberdade poética de inverter os fatos”, informa Alexandra.

A história de Nossa Senhora Aparecida não é narrada, mas sim, subjetiva, com cenário, iluminação e músicas sacras nacionais e internacionais, sendo estas instrumentais, como as de Vivaldi. “Tem um estudo bem forte por trás da dança, até em movimentação, e isso acaba remetendo muito a história dela. É mais a questão dos atos que deixa alinhavado”, explica Ricardo.

A peça, que foi apresentada em Florianópolis apenas duas vezes, mas tem a pretensão de turnê nacional, também tem uma tradutora intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), que, de acordo com Alexandra, traz uma nuance de acessibilidade cultural. “Não é Libras simplesmente traduzida, é coreografada”, pontua.

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