Sem palco, sem renda: como a pandemia impactou grupos do Festival de Dança de Joinville

Companhias tradicionais do maior festival de dança do mundo tiveram dificuldades para manter as atividades com a pandemia do coronavírus

A frase “A dança volta à vida” estampa painéis espalhados pelo Festival de Dança de Joinville. Afinal, após dois anos sem edição por causa da pandemia do coronavírus, o evento voltou em nova data e reascendeu a esperança dos bailarinos com saudade dos palcos.

“A dança volta à vida” é tema do festival após dois anos sem evento – Foto: Nilson Bastian“A dança volta à vida” é tema do festival após dois anos sem evento – Foto: Nilson Bastian

Mas, apesar da expectativa positiva pelo que vem pela frente, com a volta dos espetáculos, o retorno do festival e de outros eventos não cura todas as dificuldades deixadas pelas restrições impostas desde março de 2020.

São impactos emocionais, financeiros e estruturais que ainda trazem desafios a grupos e bailarinos de várias partes do país.

Sem espaço para ensaiar, grupo mineiro não pôde participar

Quem acompanha o festival, deve se lembrar das coreografias da Cia Jovem de Paraopeba que, em 2019, trouxe ao palco a apresentação “Efeito cascata”, sobre o sofrimento dos atingidos pelo rompimento da barragem de Brumadinho, que fica na região onde vive o grupo, em Minas Gerais.

Cia Jovem de Paraopeba na apresentação de “Efeito cascata” – Foto: Nilson BastianCia Jovem de Paraopeba na apresentação de “Efeito cascata” – Foto: Nilson Bastian

Campeões com o conjunto sênior em Dança Contemporânea por três vezes, os bailarinos não participaram do festival neste ano, mesmo tendo vaga garantida por terem vencido na última edição. O motivo: ficaram sem espaço para ensaiar por causa da pandemia.

“O local de ensaio é uma escola pública, então, automaticamente, a gente só conseguiu voltar quando as instituições de ensino voltaram. Não tinha lugar para trabalhar e isso foi determinante”, explica Alan Keller, coreógrafo do grupo mineiro.

A companhia tem 28 bailarinos e muitos não trabalham exclusivamente com dança. “Tem bailarino que é pedreiro, que ajuda em projetos sociais nos bairros, que é enfermeira e trabalha na linha de frente da Covid, que é doméstica…”, conta Alan. E mesmo entre os que atuam com a dança, muitos tiveram que procurar outros caminhos durante o período.

“Perderam alunos, perderam estrutura e tiveram que buscar outras profissões, o que é uma pena porque a arte perde”, lamenta o coreógrafo. Para além dos problemas estruturais, todos tiveram que lidar com o abalo emocional de estar longe dos palcos.

Grupo de Minas Gerais não pôde se apresentar nesta edição do festival – Foto: Nilson BastianGrupo de Minas Gerais não pôde se apresentar nesta edição do festival – Foto: Nilson Bastian

“Há um impacto emocional que a pandemia causou para todos os artistas, que perderam o seu sol, que é o palco, o lugar onde prosperam”. Não participar do festival também causa perdas às relações interpessoais que se criam em um evento como esse.

“Para artistas que estão no interior, aqui é um ponto de encontro, de troca. Não é só o palco, perde-se a possibilidade de estar em outro ambiente que não só aquele no qual estamos há dois anos enclausurados. Eles perderam muitas coisas”, salienta Alan.

E se isso já seria impactante para qualquer pessoa, é ainda mais para um grupo conhecido pela sensibilidade que leva ao palco. “Não conheço outros artistas tão sensíveis quanto eles, que têm mais vontade de abordar com o público essas questões sociais”, destaca o coreógrafo.

Os bailarinos têm aulas online todos os dias, embora ainda lidem com as dificuldades da distância e da tecnologia. No festival, são representados pelo Coletivo Mina, formado por integrantes da Cia Jovem de Paraopeba, que se apresenta na Feira da Sapatilha.

“De alguma forma, estão felizes por estarem representados, mas a gente espera ter a companhia aqui no ano que vem”, destaca Alan.

Renda imprevisível impacta grupo mineiro de danças urbanas

Também em Minas Gerais, mas na capital Belo Horizonte, o grupo Cultura do Guetto, que também se destacou no Festival de Dança de Joinville nas últimas edições, teve dificuldades em manter a sede, que é alugada, no período mais crítico da pandemia do coronavírus.

Grupo de danças urbanas teve dificuldades durante período mais crítico da pandemia – Foto: Maykon LammerhirtGrupo de danças urbanas teve dificuldades durante período mais crítico da pandemia – Foto: Maykon Lammerhirt

Gladstone Navarro, fundador e coreógrafo do grupo de danças urbanas, explica que o aluguel e as despesas básicas do grupo sempre eram pagas por meio do dinheiro arrecadado em pedágios nos semáforos da cidade, além de um rateio entre os integrantes do grupo.

“Quando chegou a pandemia, não tinha mais como fazer pedágio no semáforo e isso complicou demais porque era essa a nossa renda principal, já que a galera também não tinha muita grana. Quase tivemos que entregar o espaço, que ficou meses com o aluguel atrasado”, fala.

A solução foi recorrer a uma campanha de financiamento pela internet, em que pessoas de diversos locais puderam ajudar o grupo. Com isso, foi possível pagar os aluguéis e não houve mais a necessidade de dividir as contas entre os integrantes.

Cultura do Guetto na Estímulo Mostra de Dança nesta edição do festival – Foto: Nilson BastianCultura do Guetto na Estímulo Mostra de Dança nesta edição do festival – Foto: Nilson Bastian

Os desafios, porém, continuam, já que os recursos obtidos com a campanha vêm diminuindo. Para dar conta das despesas, o Cultura do Guetto busca editais de incentivo à cultura, além de contar com o prêmio da Estímulo Mostra de Dança, na qual se apresentaram nesta edição do festival.

Ainda assim, as despesas são maiores: enquanto o prêmio pela mostra é de R$ 15 mil, os gastos para trazer o grupo a Joinville somam R$ 25 mil, R$ 17 mil só no transporte de ônibus da equipe e do cenário de Belo Horizonte a Joinville.

“A mostra vai segurar por mais uns quatro meses e é rezando para acontecer outra coisa porque é imprevisível. Hoje tem e amanhã posso não ter, e não tem mais o que fazer, a gente já fez de tudo”, diz o fundador. O grupo é vencedor de diversas categorias e Gladstone, inclusive, foi eleito o melhor coreógrafo na edição de 2018.

Aulas online e cautela na retomada dos festivais

Outra companhia tradicional que deixou de vir ao Festival de Dança de Joinville em 2021 foi a Petite Danse, do Rio de Janeiro. Neste caso, o motivo foi a nova data do evento, que costuma acontecer em julho, mas foi transferido para outubro por causa da pandemia.

“Nesse período, estamos preparando os espetáculos de fim de ano, seria muito confuso interromper os ensaios que já começam com bastante antecedência”, explica Nelma Darzi, diretora da escola. Além disso, o grupo viria ao festival de ônibus e a direção não quis fazer uma viagem tão longa neste momento.

Pandemia também trouxe impactos à escola Petite Danse, do Rio de Janeiro – Foto: Diego RedelPandemia também trouxe impactos à escola Petite Danse, do Rio de Janeiro – Foto: Diego Redel

A escola de formação profissional com quatro unidades no Rio de Janeiro recorreu à internet para manter o ensino quando as restrições começaram. “Imediatamente começamos com as aulas online e isso manteve a escola naquele primeiro momento”, conta Nelma.

O compromisso era conseguir manter a estrutura e evitar demissões, o que a Petite Danse conseguiu durante o período mais crítico. “Mantivemos os trabalhos online e, assim que pudemos, retornamos, mas evitamos festivais num primeiro momento”, explica a diretora.

Neste ano, o grupo conseguiu voltar aos eventos de dança, ainda que evitando viagens longas para se proteger. Para Nelma, estar nos palcos é essencial para os bailarinos e a próxima edição do Festival de Dança de Joinville está nos planos da companhia: “o aluno que estuda dança quer ir para o palco, dançar, se expressar”, destaca.

Da tela do computador para o principal palco do Brasil

Quem se encantou com a cultura amazonense na Noite de Abertura do festival nem imagina todo o trabalho “incomum” que o Corpo de Dança do Amazonas teve para chegar até ali. Afinal, a maioria da preparação aconteceu pela internet, com cada bailarino em sua casa.

Corpo de Dança do Amazonas se apresentou na Noite de Abertura do festival – Foto: Maykon LammerhirtCorpo de Dança do Amazonas se apresentou na Noite de Abertura do festival – Foto: Maykon Lammerhirt

Cleia Santos, que dança na companhia há quatro anos, admite que o início da preparação foi muito diferente do comum. “Foi estranho porque a dança é troca de experiência, é contato e, quando começou a pandemia, foi muito estranho falar por uma telinha em casa, com cada um separado”, conta.

Foi quase um ano inteiro de ensaios pela internet, até porque Manaus foi uma das cidades que mais sofreu com a pandemia. “Isso nunca tinha acontecido. Foi desafiador para a gente, enquanto grupo, se manter firme”, fala a bailarina. A companhia chegou a fazer algumas lives em teatros vazios, mas a sensação, nem de longe, foi a mesma da qual os integrantes estão habituados.

“A gente está acostumado a ter esse calor humano de estar em cena, de ter aplausos. Então, íamos para o teatro fazer uma live e não tinha nenhuma pessoa na plateia. Não ter esse contato com o público foi assustador”, fala Cleia.

Apesar das dificuldades, ela argumenta que o grupo esteve em uma condição muito melhor que tantos outros. “Fomos privilegiados porque somos bailarinos contratados e não ficamos desamparados, mas muitos artistas independentes sofreram com isso porque não tinham condições financeiras e acabaram fechado ou tiveram que dar um tempo”, ressalta.

Corpo de Dança do Amazonas trouxe as vivências do povo Tikuna ao palco – Foto: Nilson BastianCorpo de Dança do Amazonas trouxe as vivências do povo Tikuna ao palco – Foto: Nilson Bastian

Para ela, estar no festival após tudo o que aconteceu é uma chance de representar todos os que não puderam chegar ao palco do evento. “A gente poder estar vivo, dançando e expressando a nossa arte para um público que está disposto a recebê-la é gratificante demais”.

A dança de volta à vida não diminui as angústias e os impactos que atingiram os bailarinos durante os períodos mais críticos da pandemia. Ainda assim, é um fôlego a mais para persistir e trazer o contato e a troca das quais tantas pessoas têm sentido falta, ainda que separadas pelo pequeno espaço que distancia o palco da plateia.

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