Autor das capas da série também produz “My Little Pony – Uma Nova Geração”

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De Dublin, na Irlanda, curitibano e jornalista Pablo Mayer empresta seu talento e traços certeiros para o exercício de futurismo em que se transformou o projeto em comemoração aos 15 anos do ND

Curitibano, nascido em 1986, Pablo Mayer tem o jornalismo no DNA. Designer de produção, diretor de arte, artista conceitual e ilustrador, vive desde 2010 em Dublin, na Irlanda, onde trabalha para a Boulder Media/Hasbro como chefe de desenvolvimento visual.

Ao assinar a criação das 15 capas do projeto “15 + 15”, Pablo Mayer estabelece uma conexão entre temporalidades distintas – o presente e o próprio passado-, aproxima dois países, o Brasil e a Irlanda, e amarra a trajetória profissional iniciada numa produtora de vídeo e depois no jornalismo diário.

De sua casa em Dublin, Pablo Mayer relembra os principais momentos da carreira, revela projetos. incluindo a produção infantil dos pequenos pôneis para a Netflix e topa o desafio de criar 15 capas para a série especial do ND – Foto: Foto Divulgação/NDDe sua casa em Dublin, Pablo Mayer relembra os principais momentos da carreira, revela projetos. incluindo a produção infantil dos pequenos pôneis para a Netflix e topa o desafio de criar 15 capas para a série especial do ND – Foto: Foto Divulgação/ND

Ele atuou também nos primórdios do jornal “Notícias do Dia”, em Joinville. Tudo configura um momento especial em que aguarda, cheio de expectativas, o lançamento do filme “My Little Pony – Uma Nova Geração”, previsto para 24 de setembro, pela Netflix, em que atua como designer de produção.

“O convite do ND foi feito na hora certa. Como finalizei o filme e estou entre projetos, achei que seria interessante. Especialmente pela ligação com o jornal e por, depois de muitos anos trabalhando exclusivamente em animação, fazer algo editorial”, diz o artista, cujos pais sempre atuaram em redações de jornais, a mãe como diagramadora, o pai, chargista e ilustrador.

Na infância e adolescência, uma experiência nômade. “Nasci em Curitiba, mas logo fomos para Londrina (um ano de idade), depois Piracicaba (2-5 anos), Joinville (meus pais trabalharam em ‘A Notícia’ – 5-9 anos), depois Piracicaba (10), Curitiba (11), Londrina (11-15), Curitiba (16-17), Londrina (17) e com 18 anos, eu fui para Joinville.”

Mayer carrega no DNA, por influências familiares, as sutilezas das lidas jornalísticas e a experiência da desterritorialização, um modo meio nômade de viver, algo benéfico para a adaptação quando decide viver fora do Brasil. Cedo, molda seus interesses pela arte, especialmente histórias em quadrinhos.

Mayer, um cidadão do mundo, revela o fascínio que tem pelas cidades – Foto: Divulgação/NDMayer, um cidadão do mundo, revela o fascínio que tem pelas cidades – Foto: Divulgação/ND

“Gostava de desenhar e me expressar através dos desenhos, meus cadernos de escola eram rabiscados. Mas ainda não projetava fazer disso a profissão. Jogava futebol, estudava e ainda não buscava o caminho a seguir. Cresci com influências variadas, quadrinhos, pintores, cinema, esporte…”

O Instagram e o site do artista evidenciam o olhar curioso de um jovem e como suas descobertas se projetam na profissão, como se dá o contágio de inúmeras leituras pelo universo da criação em amplo espectro.

Difícil rotular uma produção que não se limita a um único tema, porém no conjunto revela um arguto observador sobre o que habita o mundo – as questões são amplas, do lendário ao futurista, do lúdico a uma sutil crítica social. A cidade aparece como uma personagem central, território, espaço/tempo, como referência das experiências humanas. Arranha-céus, casarios, ruas. A ambientação de interiores domésticos também chama atenção pelo detalhamento. Fora isso, impressiona o domínio da pintura e da aquarela, entre outros recursos, além da tecnologia da animação. Sua filmografia é expressiva, embora tenha apenas 35 anos.

Meyer revela alguns de seus trabalhos na área de animação – Foto: Divulgação/NDMeyer revela alguns de seus trabalhos na área de animação – Foto: Divulgação/ND

No mundo

Não é da noite para o dia que Mayer decide viver na Irlanda, em Dublin. Há três anos em “A Notícia”, antes conclui um ano e meio no “ND” e três na “Gazeta de Joinville”, sente-se cansado do dia a dia da redação. Ele e a namorada, hoje sua mulher, Carolina, decidem que é a hora de tentar algo novo e mudar de ares. A Irlanda parece um país aberto. Juntam o que tem e partem.

“A Irlanda foi realmente um achado, estávamos interessados em aprender inglês e estar na Europa com um link para outros países.” No começo, faz tirinhas e aos poucos passa a atuar como freelancer para a Editora Abril, “Folha de S. Paulo”, entre outros veículos brasileiros.

A primeira coisa que o impressiona em Dublin é o visual, algo que resulta em um constante enriquecimento de sua “livraria mental”. A arquitetura, os detalhes da rua, vegetação, as nuvens, o vestuário, “tudo um pouco diferente do Brasil. Foi um período em que melhorei muito meu trabalho. Em Joinville e Dublin, chove bastante. Então, a adaptação não foi tão difícil”.

Mayer não sabe se há uma palavra-chave para seu trabalho, porque está focado no desejo de melhorar como artista e resolver os desafios dos problemas visuais que estão na mesa. Quando passa a fazer majoritariamente ilustrações, se centra na busca de um “estilo”, algo que percebe depois está menos limitado aos temas e mais ao desenho. “Em geral, me interesso muito pelos detalhes das cidades, como as coisas são construídas”, um recurso adotado como um meio de enriquecer o desenho. “É algo que posso usar muito na animação, especialmente agora em produções 3D.”

“My Little Pony”, desenho da época da infância do designer, tem grande estreia programada para setembro: quase 30 anos depois, a nova geração dos desenhos animados atraindo crianças de todas as idades – Foto: Divulgação/ND“My Little Pony”, desenho da época da infância do designer, tem grande estreia programada para setembro: quase 30 anos depois, a nova geração dos desenhos animados atraindo crianças de todas as idades – Foto: Divulgação/ND

Conversa vapt-vupt

O ser humano é fundamentalmente desterritorializado. Você se sente de algum lugar? Qual é a sua aldeia?

Me sinto em casa na Irlanda, mas sou brasileiro.

O que é fundamental no seu trabalho? Estudar, não deixar o menino morrer, estar articulado internacionalmente?

Estar interessado no que estou fazendo. Que o trabalho tenha um significado maior do que apenas ele em si. A animação é um meio que me conquistou profundamente, porque nela se encontram praticamente todas as formas de arte em um só meio, o que é estimulante artística e intelectualmente. Na Irlanda, tenho a chance de trabalhar em grandes projetos que são vistos no mundo inteiro.

Quais são as suas influências?

Chamaria mais de “inspiração” do que influência, já que não sei se consigo achar uma ligação direta com meu trabalho. Cineastas, como Wes Anderson, os Irmãos Coen, Bong Boo-Jo, Andrey Zvyagintsev; pintores, como Sorolla, Monet, Picasso, Klimt, Basquiat; Kafka, Malcolm Gladwell, Stefan Zweig, Douglas Adams… A lista é gigante.

Saiba mais:

@p.r.mayer • Fotos e vídeos do Instagram

https://www.pablo-mayer.com/

*Néri Pedroso, jornalista, criadora do caderno Plural, do jornal Notícias do Dia