Coronavírus no Brasil acende alerta para preconceito contra asiáticos

Ainda que a origem do vírus não esteja confirmada, aumento de casos pode ajudar na disseminação de outro problema: a xenofobia

No Brasil há oito anos, o chinês Yiheng Rong, de 28 anos, faz questão de rebater comentários preconceituosos que envolvem sua origem.

Acompanhado dos tios e da esposa, Yiheng morou por dois anos em São Paulo até se estabelecer no centro de Florianópolis onde fica o comércio da família.

Yiheng Rong, de 28 anos, rebate comentários preconceituosos sobre sua origem – Foto: Bruna Stroisch/NDYiheng Rong, de 28 anos, rebate comentários preconceituosos sobre sua origem – Foto: Bruna Stroisch/ND

Sob o cenário do novo coronavírus, Yiheng diz que, de vez em quando, se depara com atitudes xenofóbicas que tratam com antipatia pessoas de outros países de origem. Além disso, o comerciante diz que logo corrige quem o chama de “China” ou “Xing Ling”.

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“Algumas pessoas dizem ‘aqui é o meu lugar, sou brasileiro’. E eu respondo: você é brasileiro? Eu não sou, mas somos todos humanos, trabalhamos e contribuímos para o país. Eu sou chinês, mas você tem que me respeitar. Não fizemos nada de maldade aqui”, conta o comerciante.

A pandemia

O ano de 2020 começou marcado pela rápida expansão do novo coronavírus. Com os primeiros casos registrados na cidade de Wuhan, na China, o Covid-19 se espalhou a partir de dezembro de 2019 e chegou ao Brasil. O país conta com 234 infectados, segundo o último balanço do Ministério da Saúde.

O mais recente boletim da Secretaria de Estado da Saúde, divulgado às 16h de segunda-feira (16), informa que Santa Catarina conta com sete casos confirmados da doença. Florianópolis tem três ocorrências.

Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Pulmonar de Wuhan – Foto: CGTN Photo/Reprodução/NDUnidade de Terapia Intensiva do Hospital Pulmonar de Wuhan – Foto: CGTN Photo/Reprodução/ND

Ainda não se sabe o que gerou o vírus, mas o aumento de casos pode ajudar na disseminação de outro problema: a xenofobia.

Casos de preconceito racial

No começo de março, um estudante de Cingapura foi agredido em um ataque racista no Reino Unido. Jonathan Mok, de 23 anos, relatou o caso em uma rede social.

“Eu sempre acreditei que o racismo fosse baseado na estupidez. Pessoas que pensam que um determinado grupo ‘racial’ ou ‘nacionalidade’ define um indivíduo devem ser tão ignorantes que são dignos de pena”, disse Mok.

Meme que circula pela internet diz que o coronavírus não irá durar porque “foi feito” na China – Foto: Reprodução/Redes Sociais/NDMeme que circula pela internet diz que o coronavírus não irá durar porque “foi feito” na China – Foto: Reprodução/Redes Sociais/ND

Em fevereiro, uma mulher norte-americana de ascendência asiática sofreu ataques racistas em um metrô na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos.

Em São Paulo, uma arquiteta de 37 anos, descendente de japoneses, denunciou ter sido vítima de xenofobia enquanto caminhava na rua com o filho, de apenas 1 ano, que estava em seu colo.

Pelas redes sociais, circulam “memes” que relacionam o novo coronavírus aos asiáticos. O descendente de japoneses Ricardo Hideke Nonaka, 36 anos, morador de Florianópolis, disse já ter se deparado com memes e comentários racistas na internet.

“Sofria bullying quando criança e me incomodava. Hoje, procuro não reagir e sou indiferente a essas piadinhas de mau gosto”, revela.

Ricardo Hideke Nonaka diz ter sofrido bullying por conta de sua origem japonesa, quando era criança – Foto: Bruna Stroisch/NDRicardo Hideke Nonaka diz ter sofrido bullying por conta de sua origem japonesa, quando era criança – Foto: Bruna Stroisch/ND

Chenta Tsai Tseng, um artista visual de Taiwan que mora na Europa, iniciou a campanha #IAmNotAVirus (Eu não sou um vírus) durante um desfile nas passarelas de Madrid, na Espanha. O objetivo é debater o preconceito que cerca a questão do coronavírus ao redor do mundo.

Origem do preconceito

Para o geógrafo Vladimir Milton Pomar, analista de relações internacionais especializado em China, as origens do preconceito racial asiático remontam às agressões militares ocidentais à Índia, China e outros países, quando foram transformados em colônias.

O geógrafo destaca as diferenças culturais, as dificuldades de comunicação, as grandes distâncias entre os países ocidentais e orientais e o tempo necessário para percorrê-las, como algumas das origens desse preconceito.

Geógrafo Vladimir Milton Pomar estuda as relações entre Brasil e China há mais de 30 anos – Foto: Reprodução/Redes Sociais/NDGeógrafo Vladimir Milton Pomar estuda as relações entre Brasil e China há mais de 30 anos – Foto: Reprodução/Redes Sociais/ND

“A partir de 1950, o preconceito foi reforçado, também, pela diferença ideológica com a China, alimentada pela Guerra Fria e o bloqueio total que o país sofreu por 30 anos, entre 1949 e 1979, liderado pelos Estados Unidos”, explica Pomar.

Quanto ao Brasil, o preconceito racial teve origem na migração japonesa, chinesa e coreana, que foi, em sua maioria, de agricultores pobres e trabalhadores braçais.

“Com as diferenças culturais e linguísticas, migrantes asiáticos eram vistos como pessoas inferiores, que serviam para atividades antes destinadas aos negros ou às pessoas pobres de outros países”, conta o geógrafo.

Com o desenvolvimento da China, a partir de 1980, o preconceito no Brasil teria aumentado em dois extremos: por causa da onda de produtos baratos, a partir do final dos anos 1990, e por razões ideológicas relacionadas à Guerra Fria.

Reação ao preconceito

Pessoas de diferentes etnias lidam de formas diferentes com o preconceito racial. É o que considera a psicóloga Marina Radin, que atua como voluntária no Gairf (Grupo de Apoio a Imigrantes e Refugiados), em Florianópolis. Ela explica que os mecanismos de defesa que funcionam em uma cultura, por vezes, não funcionam em outra.

“Quando o migrante sai de sua cultura e se depara com outra, os mecanismos de defesa dele perdem força”, diz.

Nesse sentido, a psicóloga conta que os imigrantes latinos, em geral, costumam expressar suas emoções e sentimentos, diferente de outras etnias, como os asiáticos, por exemplo. As pessoas de origem asiática podem apresentar maior relutância em se expor, sobretudo, por conta da barreira linguística.

Artista chinês iniciou uma hashtag para lutar contra o preconceito e xenofobia contra os asiáticos, despertado pela pandemia de coronavírus – Foto: Reprodução/Redes Sociais/NDArtista chinês iniciou uma hashtag para lutar contra o preconceito e xenofobia contra os asiáticos, despertado pela pandemia de coronavírus – Foto: Reprodução/Redes Sociais/ND

“Os latinos expressam o que estão sentindo. Outras etnias costumam ser mais fechadas e rígidas na postura. Assim, o sofrimento que não aparece via fala, surge no corpo, com dores na barriga, nas costas e na cabeça”, relata a psicóloga.

Para o geógrafo Milton Pomar, se os asiáticos sofrem qualquer tipo de discriminação, por razões raciais, é considerado racismo. Se sofrem preconceito por razões econômicas, comerciais ou ideológicas, é preconceito.

“Se, além dessas razões, houver como ‘pano de fundo’ a origem racial, então esse preconceito passará a ser racial”, diz.

Segundo ele, o preconceito presente no Brasil, envolvendo os asiáticos, é racial e ideológico e gera discriminação de todo tipo.

“É verdade que é menos violento do que o preconceito sofrido pelos afrodescendentes, mas preconceito é sempre algo horrível. Ele transparece em piadas, comentários desagradáveis e juízos de valor totalmente desprovidos de fundamentos”, afirma.

Razões para ‘manter o respeito’

Vladimir Pomar diz que é cedo para saber as reais dimensões dos impactos do coronavírus nas relações entre China e Brasil. Os motivos seriam “inversamente proporcionais”: o comércio com o Brasil representa muito pouco (menos de 3%) para a China, e o comércio com a China representa muito (mais de 20%) para o Brasil.

Ele prevê, no entanto, que a China continuará sendo a maior exportadora, a segunda maior importadora e a segunda maior economia mundial pela paridade cambial, e a maior ou segunda maior investidora.

“Essas razões são mais que suficientes para ‘manter o respeito’ mundial pelos chineses e chinesas, e, por extensão, pelos demais povos asiáticos, quase todos também de países muito importantes em termos econômicos e comerciais, como o Japão, Índia, Coréia do Sul, Indonésia, Vietnã e Tailândia”, conclui.

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