Dor marcada na pele e no peito: Gabriella Custódio e o sonho interrompido por um disparo

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Gabriella Custódio Silva, de 20 anos, foi uma das três mulheres vítimas do feminicídio em Joinville em 2019 - foram 59 em todo o Estado. A morte da jovem trouxe consequências para a família, que aprende a lidar com a perda. Companheiro da vítima, Leonardo Natan Chaves Martins é acusado do crime - ele está detido no Presídio de Joinville e aguarda o julgamento, marcado para o fim do mês

REPORTAGEM: Luana Amorim
EDIÇÃO: Beatriz Carrasco e Schirlei Alves

Os olhos marejados e a tatuagem no antebraço trazem lembranças de um dia marcado na memória de Andreza Custódio Silva. As imagens daquela fatídica noite de 23 de julho de 2019 assombram. A jovem de 25 anos ainda tenta entender por que a irmã caçula foi assassinada.

Apegada a família, Gabriella era a filha caçula – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Aos 20 anos, Gabriella Custódio Silva era uma garota alegre, divertida, ambiciosa e cheia de sonhos.

“Ela vivia brincando, vivia fazendo ‘bobiça’. Às vezes, ela me mandava áudio cantando música, mas ela era super desafinada”, relembra Andreza sobre os momentos com a irmã. As mensagens ainda estão guardadas no celular.

Natural de Penha, Gabriella sempre foi apegada à família. Em 2005, eles se mudaram da cidade litorânea para Joinville, no Norte do Estado, município em que ela permaneceu até o último dia de vida.

Quando os pais da jovem tiveram que voltar a Penha, ela passou a dividir o apartamento com Andreza. Só saiu de lá no início do ano passado, quando foi morar com Leonardo Natan Chaves Martins – namorado e acusado de ser o autor do disparo que tirou a vida de Gabriella.

Neste Dia Internacional da Mulher, a lembrança de Gabriella é prova de que a luta por igualdade ainda esbarra no simples direito à vida.

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O começo do relacionamento e o isolamento

Gabriella e Leonardo se conheciam desde criança. Os dois moravam perto e frequentavam a mesma escola. Com o tempo, acabaram perdendo o contato. Certo dia, Gabriella foi buscar Andreza no trabalho e eles se reencontraram.

“Ela nunca ia, mas aquele dia foi. Estávamos na sinaleira quando o carro dele parou do lado da gente. Foi a partir daí que eles começaram a conversar”, conta a irmã.

Os dois logo engataram um relacionamento e, alguns meses depois, passaram a morar juntos. Andreza conta que durante todo o relacionamento buscou saber se o casal estava bem, principalmente por conta do afastamento da irmã após a mudança.

“Eu percebia que ela tinha medo dele. Às vezes eu perguntava o porquê, e ela só dizia que ele estava muito nervoso ou estressado. Além disso, a gente chegou a notar alguns pontos [de problemas no relacionamento], mas a gente acha que isso nunca vai acontecer na nossa casa”, relata.

A família dos dois chegou a se reunir em comemorações. A última vez que Andreza viu a irmã foi em uma festa junina na casa dos pais, em Penha. Ela lembra que Gabriella, que foi acompanhada de Leonardo e dos sogros, estava “muito magra”.

“Meus pais têm uma lanchonete com uma mesa de sinuca. Nesse dia, os pais e o Leonardo foram até lá para jogar e assistir um jogo que estava passando na televisão. Eu não fui, mas meu marido foi. Ele contou que achou estranha a maneira como a Gabi estava afastada, em uma mesa longe de todo mundo. No momento ele achou que não era nada, e só me contou isso depois que ela morreu”, relembra Andreza, tentando segurar as lágrimas.

Apaixonada por crianças, Gabriella queria ser professora

Gabriella sempre gostou de crianças, paixão que despertou nela o desejo de se tornar professora. A vontade acabou inspirando a própria mãe da jovem.

“Por conta dela, a minha mãe começou a cursar pedagogia. A Gabi tinha os sonhos dela. Sempre trabalhou fora, não gostava de depender da gente”, conta Andreza.

Essa independência de Gabriella foi um dos fatores que fizeram a família desconfiar do relacionamento. A jovem trabalhava e tinha planos de crescimento, mas comunicou que iria deixar o emprego. A irmã estranhou.

“Ela não tinha medo de trabalho. A Gabi tinha começado a fazer faculdade de logística para conseguir um cargo melhor, juntar dinheiro e depois cursar pedagogia. Então quando ela falou que ia parar de trabalhar porque estava cansada, a gente acho meio estranho. Mas o que íamos dizer?”, indaga.

Gabriella foi morta com um tiro no peito, em Joinville – Foto: Redes Sociais

A notícia

Andreza ainda lembra com detalhes a sequência de fatos que marcou o dia da morte da irmã. Ela tinha acabado de sair do trabalho e, como parte da rotina de todos os dias, tentou ligar para o celular de Gabriella. Ela não atendeu ao chamado.

“Foi a primeira vez [após ela não atender] que eu pensei que ela estivesse assistindo Netflix ou algo do tipo, então achei que estava tudo bem. Liguei para minha mãe, que também falou que não conseguia falar com ela. Mas eu a acalmei dizendo que não era nada. Até mandei mensagem para ela pedindo para que ligasse. Não imaginei que podia ter acontecido alguma coisa”, relata.

Depois do trabalho, Andreza foi com o marido até uma lanchonete perto de casa. Enquanto comia, o companheiro recebeu a ligação que mudaria a vida de toda a família.

“Meu pai ligou para o meu marido falando que era para nós irmos no Bethesda [hospital], porque o pai do Leonardo tinha mandado uma mensagem dizendo que ele tinha atirado nela. Eu achei que fosse algo na perna ou no braço, não um tiro que poderia matar ela”, relembra a irmã, já rendida às lágrimas.

Andreza afirma que a morte trouxe gatilhos irrecuperáveis para ela e a família – Foto: Luana Amorim/ND

Gabriella foi morta com um disparo que atingiu o peito, na casa dos pais de Leonardo. Em depoimento, o réu alega que mostrava a arma para a namorada, quando o objeto teria “disparado sozinho”.

Leonardo colocou Gabriella no porta-malas do carro e a levou até o hospital. Ao chegar, eixou a jovem em cima de uma maca e fugiu. Ela já estava morta quando chegou.

“Eu cheguei em casa para pegar o carro e ir para o hospital, quando a melhor amiga dela me ligou chorando, perguntando se era verdade que a Gabriella morreu. Foi nesse momento que eu soube o que aconteceu”, conta Andreza.

A cultura dos relacionamentos abusivos

Gabriella foi uma das três mulheres que morreram em Joinville no último ano vítimas de feminicídio. No recorte que abrange a região Norte, em 2019 o número sobe para 7, o que representa 12% do total de casos registrados em Santa Catarina – ao todo, foram 59 naquele ano.

Em Joinville, a Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, a Mulher e ao Idoso) realiza semanalmente um grupo de reflexão com mulheres vítimas de violência verbal e psicológica.

Coordenado pela psicóloga Cristina Maria Weiber, os encontros têm como objetivo orientar sobre os sinais de que algo está errado no relacionamento.

“Acontecem toda quarta e atende as mulheres que registraram algum tipo de boletim de ocorrência ou medida protetiva, e faz parte do programa PC por Elas. Nesse grupo, além de ser um espaço de acolhimento, também serve para que elas falem sobre as relações e entendam a dinâmica desses tipos de relacionamentos”, explica.

São vários os fatores que levam mulheres a permanecer em relacionamentos abusivos. Apesar da dependência financeira ser considerada um dos principais, Cristina conta que essa não é a realidade de grande parte das mulheres atendidas em Joinville.

“A questão cultural ainda é o principal motivo para elas permanecerem nesses relacionamentos. Vivemos numa sociedade onde a violência ainda é romantizada e as pessoas ainda enxergam no relacionamento uma garantia de segurança, com medo de ficar sozinha caso saia daquilo”, explica.

A psicóloga destaca também que uma das características do relacionamento abusivo é a manipulação do autor sobre a vítima. Esse comportamento costuma fazer com que a mulher se afaste dos amigos e da família.

“A violência começa de forma sutil e relativa. E, infelizmente, a mulher ainda atribui a algo que ela fez de errado e justifica a reação. O problema é quando a pessoa releva e essa violência pode vir de forma maior e mais grave. Então, nas reuniões, a gente busca mostrar isso para elas”, explica.

“Muitas vezes ela nem quer ver o marido processado. O que ela quer é uma proteção”

Familiarizada com situações de violência doméstica, a delegada da Dpcami de Joinville, Débora Mariani Jardim, conta que, apesar de não investigar os casos de feminicídio, costuma ter uma prévia da violência na vida das mulheres.

“A mulher chega [à delegacia], conta que teve um xingamento, uma violência psicológica e registra o boletim de ocorrência ou, se ela desejar, a medida protetiva. Porque é o que elas querem. Muitas vezes ela não quer ver o marido ou ex-marido processado. Mas ela quer uma proteção”, conta.

Em casos de medida protetiva, o pedido é encaminhado ao Judiciário, que decide se irá conceder ou não, de acordo com o depoimento. Depois, o suposto autor ou agressor é intimado. Caso ele descumpra a medida, a pessoa, então, passa a responder pelo crime de descumprimento de medida de urgência.

“Mas, nesses casos, ele precisa ter o conhecimento que tem essa medida. Muitas vezes é isso que dificulta, porque há situações que o suspeito não é encontrado para ser intimado. Então se ele não tem ciência e chega perto dela, não há o descumprimento”, explica a delegada.

E aquelas que não chegam?

Nos últimos anos, os órgãos de segurança registraram um aumento no número de mulheres que vão até as delegacias em busca de ajuda. Para a delegada, um dos motivos para o crescimento é a visibilidade que o assunto ganhou.

“A mulher muitas vezes não sabe ou tem medo. Então, você chegando e se aproximando, a delegacia estando ali, é muito mais fácil para ela procurar esse espaço de ajuda. Não é que o número aumentou. Aumentou a procura. Mas ainda falta muito. Existem muitos casos que não são noticiados, e geralmente é aí que acontece o feminicídio. Aquelas que denunciam, nós fazemos o acompanhamento. Mas e aquelas que não chegam?”, indaga Débora.

A psicóloga Cristina também aponta que os encontros realizados pela Dpcami ajudam as mulheres a perceber que não estão sozinhas.

“Nós percebemos no grupo que quando as mulheres falam coisas parecidas, elas percebem que aquilo não é só com elas. Isso ajuda ainda mais para que ela possa buscar ajuda e sair dessa situação. Que a culpa não é dela e que ela pode ser protegida”, finaliza Cristina.

Gabriella tinha o sonho de ver a irmã grávida – Foto: Arquivo pessoal/ND

Caso será julgado no próximo dia 24

Após manifestação do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), Leonardo foi denunciado por homicídio doloso duplamente qualificado: além de feminicídio, também foi enquadrado na qualificadora de surpresa.

O julgamento está marcado para o dia 24 de março, às 8h, no Fórum da Comarca de Joinville. No momento, ele está detido no Presídio Regional de Joinville.

Andreza espera que ele receba a pena máxima pelo crime.

“Porém, é doloroso demais saber que daqui dez anos ele vai sair da cadeia e vai ter a vida inteira pela frente. Espero que ele escolha ir para um caminho melhor. Mas, ao mesmo tempo, saber que ele vai conseguir criar uma nova família, que era tudo que minha irmã sonhava, é triste”.

Julgamento ocorre no fim de março – Foto: Jonathan Rocha/NDTV

Em nota (veja abaixo a nota da defesa na íntegra), a defesa de Leonardo informou que tem “boas expectativas para o julgamento, pois será neste dia que será demonstrado aos jurados que Gabriella faleceu por um acidente”.

Uma criança chega como presente

A vida da família mudou completamente com a morte de Gabriella. Andreza conta que não consegue mais fazer ações rotineiras, como comer na lanchonete preferida, por conta das lembranças.

“Agora eu moro lá perto [do hospital], no Rio Bonito. Toda vez que eu passo perto de Pirabeiraba, já começo a sentir uma palpitação. Meu marido não pode entrar dentro de Pirabeiraba porque eu não consigo. Não consigo ir no mercado que fui com ela quando teve a mudança, não consigo ir para São Francisco do Sul, porque machuca, é um gatilho pra mim”, explica com a voz embargada.

A Andreza conta também que a mãe fica “desesperada” quando ela demora a atender o celular, com receio de que algo também tenha ocorrido com a filha mais velha.

Na pele, a tatuagem que marca a saudade de Andreza pela irmã – Foto: Luana Amorim/ND

Após a morte da irmã, porém, um “presente” surgiu como uma forma de tentar aliviar a dor que virou parte da família.

“O sonho da Gabriella era ser mãe e ela sempre me incomodava pedindo por um sobrinho. Mas antes da morte, eu fui três vezes ao médico e não conseguia engravidar. Dois meses após a morte dela, eu descobri que estava grávida. Mas é muito difícil porque esse era o sonho dela, e ela não está aqui para viver”, conta.

Mesmo com a alegria de trazer uma nova vida ao mundo, a dor de Andreza continua presente.

“Meu filho vai nascer e o que eu vou dizer? Você tinha uma tia que te ama muito, que não sabia que você ia nascer, mas ela morreu porque um cara escroto achou que podia tirar ela da gente?”, indaga a jovem, novamente tentando conter o choro.

“Saudade é o amor que fica”, diz a tatuagem de Andreza.

Veja a nota da defesa de Leonardo na íntegra:

“A defesa de Leonardo Natan possui boas expectativas para o julgamento, pois será neste dia que será demonstrado aos jurados que Gabriella faleceu por um acidente. Não há no processo nenhuma prova que demonstre que ela foi vítima de feminicídio. O que ocorreu foi uma fatalidade que culminou numa tragédia e destroçou duas famílias. E isso está comprovado. A defesa repudia toda e qualquer forma de violência contra a mulher, salientando que na própria banca dos advogados uma mulher participará do julgamento.”

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