Em Santa Catarina, ainda é preciso lutar contra a invisibilidade do negro

Racismo é estrutural e está presente em todas as regiões do Brasil, mas cada cidade tem suas peculiaridades; desafio diário é manter-se vivo

Falar sobre as dificuldades do negro no Brasil é quase uma redundância. Com uma sociedade fundada sobre um falso conceito de democracia racial, o racismo é estrutural e está presente em todas regiões do país.

Violência policial que acabou em morte de homem negro gerou protestos dentro e fora dos EUA – Foto: Josh Hild/Unsplash/DivulgaçãoViolência policial que acabou em morte de homem negro gerou protestos dentro e fora dos EUA – Foto: Josh Hild/Unsplash/Divulgação

Entretanto, cada estado ou cidade tem peculiaridades. Em Santa Catarina, onde 80% da população de 7,1 milhões de pessoas (estimativa do IBGE em 2019) se declara branca, 16,5% pardos e 3% se reconhecem como negros, a luta é por visibilidade. Em todo o país, pretos e pardos somam juntos 50,7% da população (segundo o censo de 2010), ultrapassando o percentual de brancos (47,7%).

Para Alexandra Alencar, temos oportunidade de refletir sobre racismo e tentar extingui-lo das relações – Foto: Arquivo pessoal/DivulgaçãoPara Alexandra Alencar, temos oportunidade de refletir sobre racismo e tentar extingui-lo das relações – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

“Temos que dizer que existimos, porque muitos pensam que não há negros no Sul e em Santa Catarina. Ao contrário do Nordeste, aqui é recente a presença negra em campanhas publicitárias. Tem gente que vem para Florianópolis e diz que não vê os negros, mas se for ao Monte Cristo, verá”, afirma a a doutora em Antropologia Social e pós-doutoranda em Ciências Humanas na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Alexandra Alencar.

Já a empreendedora do Coletivo Di Jeje – organização privada que desenvolve projetos de educação feminista e antirracista em Florianópolis, Jaqueline Conceição, destaca que não há diferença na vida cotidiana do negro em Santa Catarina em relação a outros lugares do Brasil.

“O país todo é racista. O que difere é o fato de residir na Lagoa ou no Monte Cristo”, aponta. Isso porque as comunidades periféricas costumam ser racialmente marcadas, com baixa oferta de políticas públicas, policiamento ostensivo e onde o corpo negro está associado ao crime. “Meus filhos nunca foram parados por policiais, mas a situação é diferente para uma mãe que mora no morro”, afirma Jaqueline, pedagoga e residente no Sul da Ilha de Santa Catarina.

Lugares marcados

Jaqueline Conceição, do Coletivo Di Jeje, se dedica à formação feminista e antirracista – Foto: Arquivo pessoal/DivulgaçãoJaqueline Conceição, do Coletivo Di Jeje, se dedica à formação feminista e antirracista – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Para essa professora paulista radicada em Florianópolis desde 2017, o acesso é questionado dependendo de onde o negro circula. “Sempre sou parada na entrada do prédio onde funciona a minha empresa, no bairro Trindade, mesmo portando cartão de acesso. E isso se repete em São Paulo, no Rio ou em Salvador porque é estrutural: se um negro estiver em um local considerado de brancos – como aeroportos, universidades, shoppings em bairros nobres – o acesso dele será questionado”, diz Jaqueline.

“A saída é desnaturalizar o que está posto, se indagar o por quê das ausências dos negros em determinados espaços. Acho que os movimentos de combate e enfrentamento que vimos nas últimas semanas mostram a importância de superar o racismo, é uma batida na porta”, acrescenta.

Violência e protestos

Após três eventos recentes de violência contra negros, o racismo voltou a entrar na pauta brasileira e internacional.

Nos Estados Unidos, a morte do estadunidense George Floyd (46), asfixiado por um policial em Minneapolis em 25 de maio, trouxe à tona mais uma vez o uso desmedido da força policial contra cidadãos negros. O episódio levou a uma onda de protestos violentos em centenas de cidades norte-americanas e atos na África, Ásia, Europa e até no Brasil.

Por aqui, os casos do adolescente João Pedro Mattos (14), morto no dia 18 de maio durante operação policial no morro do Salgueiro, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro; e do pequeno Miguel Otávio Santana da Silva (5), que caiu do nono andar de um prédio no último dia 2, após ser deixado sozinho em um elevador, no Recife, também reacenderam o debate e provocaram manifestações.

Jovens negros são sistematicamente mortos no Brasil – Foto: Markus Spiske/Unsplash/DivulgaçãoJovens negros são sistematicamente mortos no Brasil – Foto: Markus Spiske/Unsplash/Divulgação

Embora não sejam fatos isolados e tampouco raros, dessa vez a repercussão ultrapassou fronteiras. Tamanha amplitude não era vista desde os protestos pelos direitos civis dos negros na década de 1960, nos Estados Unidos.

Para a pesquisadora Alexandra Alencar, o tema ganha tal visibilidade porque as pessoas estão mais sensíveis com a pandemia, o isolamento e a proximidade da morte. “Estamos em casa e agora não há como se esconder do racismo, ele está escrachado nas redes sociais, e essa conjuntura da quarentena contribui para o desejo de se manifestar contra o que estamos vendo”, opina.

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Racismo estrutural

O racismo está posto e foi construído na sociedade brasileira durante e após a escravidão, que durou 358 anos. De mercadoria, propriedade dos brancos, os negros foram soltos sem nenhuma garantia de trabalho, ou de acesso à propriedade de terras ou à educação.

Além da imagem de subalternos, passaram a ser vistos como vadios, sujos, por perambular nas ruas sem trabalho. Tal construção ao longo de tanto tempo acabou “naturalizando” o lugar do negro no meio social, a despeito de suas lutas por direitos que levaram à criação do movimento negro brasileiro no começo do século 20.

Para mudar esse cenário, a mudança também é profunda. “O racismo faz parte da educação, foi estruturado ao longo do tempo. Por isso, além de mudar a percepção do branco sobre o racismo, também é necessário que os negros adquiram consciência sobre a concepção racial adquirida. A transformação deve ocorrer desde a educação infantil até o ensino superior”, afirma Jaqueline.

Morte do norte-americano George Floyd reacendeu debate sobre o preconceito racial – Foto: Koshu Kunii/Unsplash/DivulgaçãoMorte do norte-americano George Floyd reacendeu debate sobre o preconceito racial – Foto: Koshu Kunii/Unsplash/Divulgação

E a quarentena imposta pela pandemia de Covid-19 pode ser um ótimo momento para fazer essa reflexão. “A população branca deve reconhecer a estrutura racista e seu lugar de privilégios. O primeiro passo é tomar a consciência do racismo (que caminha junto com o capitalismo e o machismo) e se colocar à disposição para tentar criar espaços para a voz negra. Não precisamos mais que falem por nós”, pontua Alexandra.

EUA x Brasil

Comparar o racismo (e as reações a ele) nos Estados Unidos e no Brasil é como comparar bananas com laranjas. “Não é possível, pelo nosso contexto histórico. No Brasil, o racismo se sustenta no conceito da democracia racial que considera que todos somos iguais. Mas as oportunidades não são iguais, há os privilégios dos brancos e a violência sistemática contra a população negra, é um racismo velado. Nos EUA, a violação é mais explícita”, diz Alexandra.

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Além disso, estamos longe de ter os direitos civis consolidados como na América do Norte. “Aqui não temos garantias como nos EUA e na Europa. Não é tão simples ir para a rua marchar porque temos medo de morrer, a polícia vai na nossa casa, atira e mata. Temos outros marcadores de controle e racialidade”, afirma Jaqueline.

“Já nos EUA não há fogo cruzado com o Estado, os negros tiveram acesso à escola e os piores postos de trabalho são ocupados por latinos, especialmente mexicanos, enquanto aqui são os negros – maioria da população – que ocupa as mais baixas posições no mercado de trabalho”, completa.

Conquistas e desafios

Outro ponto é a luta do movimento negro brasileiro, iniciado por volta de 1910, com a formação dos clubes e associações recreativas da população negra, que já discutiam temas políticos.

“Tivemos grandes conquistas, com destaque para as políticas de ação afirmativa em universidades, no serviço público e até no legislativo, permitindo acesso a posições políticas. Estar nesses lugares não muda a conjuntura, mas faz uma microrrevolução, gerando questionamentos e empoderando outros negros”, aponta a antropóloga Alexandra.

O maior desafio, no entanto, continua sendo o da sobrevivência. “A solidariedade é muito importante porque ao mesmo tempo que saímos, gritamos, não queremos que nos matem”, finaliza.

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