Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Entrevista: Tatiana Lacerda Prazeres

Catarinense de Florianópolis, a professora e pesquisadora da Universidade de Economia e Negócios Internacionais de Pequim fala sobre a adaptação na China, relações comerciais com o país e coronavírus

Foto: Divulgação/ND

Natural de Florianópolis, onde fez boa parte de seus estudos em direito e relações internacionais na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), ela foi a pessoa mais jovem a ocupar a Secretaria de Comércio Exterior do Brasil, aos 31 anos, depois de ter trabalhado na OMC (Organização Mundial do Comércio), em Genebra. Atualmente, é pesquisadora e professora universitária em Pequim e assina uma coluna semanal na “Folha de S. Paulo”, onde escreve sobre a China e assuntos internacionais. “O compromisso de escrever semanalmente me faz ver a China com outros olhos, me força a estudar e conhecer mais. É uma pressão saudável”.

Quando foste para a China e com que finalidade?

Em janeiro de 2019. Assumi a posição de professora e pesquisadora na Universidade de Economia e Negócios Internacionais. Entre aulas e projetos de pesquisa, trabalho em tempo integral. A mudança de Genebra para Pequim foi motivada pelo trabalho do meu marido. Mas a China é um país fascinante, e sempre tive vontade de morar lá. Havia trabalhado num projeto em Xangai, em 2010, e senti que precisaria mais tempo na China para entender minimamente o país. É o lugar onde as coisas estão acontecendo.

Como foi a adaptação em um país tão distante e com cultura tão diferente da nossa?

Cheia de altos e baixos. As pessoas costumam brincar que a verdadeira muralha da China é o idioma. Sem ele, é necessário ter muita paciência e bom humor para realmente gostar da experiência. Por sorte, os chineses são muito compreensivos em relação às dificuldades dos estrangeiros.

Foto: Divulgação/ND

Já aprendeu algo do idioma mandarim?

Costumo brincar que faço aulas, mas não faço progresso. E é verdade. Tenho admiração profunda por quem consegue, já na vida adulta, aprender mandarim. O processo é fascinante porque abre uma janela para a cultura e para o modo de pensar dos chineses. Mas os resultados demoram. Brinco também que apenas meu filho, que tem dois anos, aprenderá a falar chinês. Um pouquinho do idioma será o grande presente que ele trará da experiência na China.

É grande a busca dos chineses por conhecimento em comércio mundial?

Os chineses se interessam muito por comércio internacional e por temas associados a governança global. Minha experiência de cinco anos na OMC, acompanhando negociações e disputas comerciais, é algo que interessa muito aos chineses. Com o aumento das tensões comerciais com os EUA, o interesse só aumentou.

A participação catarinense nas relações comerciais entre Brasil e China é expressiva?

A China é, de longe, a principal origem dos produtos importados pelo Estado de Santa Catarina, com 36% do total adquirido do exterior em 2019. A China também foi o principal destino das exportações de Santa Catarina em 2019, com 15,5% das nossas vendas, mas logo seguida pelos EUA, com 15%.

É difícil antecipar a dinâmica do comércio de Santa Catarina com a China em 2020, também em função da enorme instabilidade causada pelo coronavírus. De qualquer maneira, a desaceleração econômica na China certamente afeta de forma negativa a demanda no país.

Além disso, o acordo comercial entre China e EUA, fechado em janeiro deste ano, tende a prejudicar a exportação do agronegócio catarinense para a China, principalmente nos setores de carne de frango e suínos, porque os chineses se comprometeram aumentar as compras de itens como esses dos EUA.

Os chineses estão comprando mais carne de porco por causa da gripe suína que dizimou cerca de metade do rebanho do país no ano passado, mas o acordo com os americanos desviará o comércio a favor deles.

Foto: Divulgação/ND

Vieste de férias para Florianópolis no início do ano e permaneceste por conta do coronavírus?

Desde que saí de lá, em 12 de janeiro, a situação piorou rapidamente com o coronavírus. A universidade está fechada e não há data para a retomada das aulas. Sigo trabalhando com análises e pesquisas à distância. Meu marido teve que voltar para Pequim.

Chegaste a ver in loco a preocupação dos chineses? Que notícias tens recebido?

Quando saí de lá, não havia casos em Pequim. Desde que cheguei no Brasil, tenho contato com amigos e colegas que estão lá. A rotina se tornou muito difícil, com tantas restrições à locomoção, com serviços suspensos, escolas fechadas etc.

O esforço é brutal para conter a crise e a dose de sacrifício diário dos chineses é impressionante, algo subestimado até agora pelo resto do mundo. À medida que o vírus se espalha, as pessoas fora da China vão se dando conta das dificuldades pelas quais os chineses já passam há meses.

Há sinais de que a situação está melhorando. O presidente Xi Jinping visitou a cidade de Wuhan, epicentro da crise. Analistas diziam há semanas que esse seria um sinal importante de que o problema estava sendo contido. Acho que as pessoas na China estão mais otimistas, mas a vida segue complicada por lá.

Qual o maior impacto que a doença pode causar na economia chinesa e mundial?

O pior seria uma recessão econômica global.

Teus avós maternos descendiam de gregos, que são historicamente um povo desbravador, que se espalhou pelo mundo e hábil no comércio. Veio daí o interesse pelas relações internacionais?

Talvez. Desde pequena, ouvi muito sobre a Grécia. Ouvi (várias vezes!) sobre a história da chegada dos meus bisavós ao Brasil. Talvez isso tenha ajudado a despertar minha curiosidade por outros países, pelo mundo.

Foto: Divulgação/ND