“Hoje sou feliz”, diz primeira mulher trans reconhecida pela PM SC

Priscila Diana é sargento no Planalto Norte e, após anos na Justiça, conseguiu o direito de ser reconhecida como mulher pela corporação

“Hoje eu tenho paz, uma coisa que eu nunca soube o que é”. A fala de Priscila Diana demonstra todo o peso da conquista que ela acaba de ter: após cerca de dois anos na Justiça, a sargento do Planalto Norte será, enfim, reconhecida pela Polícia Militar de Santa Catarina como uma mulher trans. E o feito é ainda maior: Priscila é a primeira pessoa transgênero a ocupar um posto na corporação com 185 anos de história.

Priscila Diana é a primeira mulher trans da PM de Santa Catarina – Foto: Arquivo pessoal/NDPriscila Diana é a primeira mulher trans da PM de Santa Catarina – Foto: Arquivo pessoal/ND

Mas se hoje a mulher de 43 anos comemora, nem sempre foi assim. Embora tenha começado o processo de transição para o gênero feminino há dez anos, ainda criança ela já se reconhecia como uma pessoa trans, embora esse termo nem fosse reconhecido por ela na época. “Eu não sabia o que era uma pessoa trans, mas não me identificava como menino. Com o passar dos anos, já na fase adulta, eu descobri que havia procedimentos e cirurgias que poderiam ajudar a me sentir bem”, fala.

Porém, da infância até a decisão por iniciar o processo de transição, décadas se passaram. “Eu não sentia paz. Ia dormir e acordava sem paz”, destaca. Em 2011, há cerca de 13 anos na Polícia Militar, isso mudou. Priscila começou a hormonização por conta própria, correndo vários riscos em relação à saúde, mas deu o pontapé que precisava para se sentir melhor.

Depois de fazer as primeiras aplicações de hormônio em si mesma, descobriu um ambulatório em Curitiba que atendia pessoas transgênero física e psicologicamente. Com o apoio, o corpo de Priscila foi mudando e passou a ser inviável dividir alojamento e banheiros com os homens da corporação. “Isso foi complicando minha vivência na polícia e chegou uma hora em que me obriguei a abrir o jogo”, relembra.

Falta apenas a nova identidade funcional para a PM ser totalmente reconhecida como mulher trans na corporação – Foto: Arquivo pessoal/NDFalta apenas a nova identidade funcional para a PM ser totalmente reconhecida como mulher trans na corporação – Foto: Arquivo pessoal/ND

Entre os colegas e comandantes, a recepção foi positiva. Porém, o reconhecimento legal demorou a acontecer. Com todos os documentos já retificados com o seu novo nome, Priscila dependia apenas do reconhecimento da Polícia Militar para viver por completo a vida que sempre quis, mas isso não foi fácil.

Em 2019, ela fez um requerimento pedindo a alteração do nome também nos documentos da corporação. No entanto, o tempo passou e nem mesmo com uma decisão favorável da Justiça ela conseguiu que seu registro fosse alterado na Polícia Militar. Foi só na semana passada, dois anos após se assumir, que seus documentos foram modificados.

“Eu me sinto aliviada. Quando eu ia trabalhar, abria o sistema e o meu nome antigo estava ali. Era uma coisa que eu não conseguia me livrar. Quando eu abri e não estava mais saiu um peso de mim, me deu uma sensação indescritível, como se aquilo legitimasse a minha situação”, comemora. Agora, resta apenas fazer a nova identidade funcional, o que Priscila deve encaminhar já nesta terça (23).

“Quando o meu direito não é garantido, o direito dos outros também corre riscos”

Por não ter sido reconhecida até a semana passada, Priscila trabalha na área administrativa da PM. Porém, mesmo não tendo certeza se quer voltar para as ruas, onde sempre trabalhou, ela fica feliz em, pelo menos, poder escolher essa opção agora. “Não é a questão de voltar para as ruas, mas de ter essa possibilidade”, destaca.

Nem tudo, no entanto, é felicidade. Desde o processo de transição, várias pessoas se afastaram. “Não as culpo porque ainda é um tabu dentro da sociedade”, fala Priscila, que comemora o apoio dos pais em toda a jornada. “Eles me acolheram, não por entendimento, mas por amor. E isso é o que mais preocupa a gente, é onde a gente vai buscar colo”, ressalta.

Priscila reforça que a busca pela garantia de direitos não deve ser apenas da pessoa relacionada a ele, mas de todos. “Quando o meu direito não é reconhecido, o direito das outras pessoas também corre risco. Brigar pelos direitos deve ser um dever de qualquer cidadão”. 

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