Maior caso de abuso sexual do Brasil expõe violência que sempre existiu

Repercussão de denúncias encorajou vítimas e resultou em mais de 500 registros contra João de Deus; estatística revela que crianças são as principais vítimas de violências que ocorrem dentro de casa

Maria* tinha 17 anos, em 1998, quando saiu do interior de Goiás, onde morava em uma fazenda, para cursar o ensino médio na capital Goiânia. Ela foi acolhida na casa de um amigo, onde ajudava como cozinheira. Um dia, o pai do amigo pediu para que ela acompanhasse o rapaz durante seu tratamento espiritual que ocorreria esporadicamente pelos próximos três meses no centro espírita Casa Dom Inácio de Loyola, fundado em 1976 em Abadiânia, no mesmo Estado. É que o garoto havia sofrido uma pancada na cabeça e os tratamentos convencionais não teriam dado resultado.

João de Deus na Casa Dom Inácio Loyola, em Abadiânia - Marcelo Camargo/Agência Brasil
João de Deus na Casa Dom Inácio Loyola, em Abadiânia – Marcelo Camargo/Agência Brasil

Embora a casa já fosse famosa naquela época, inclusive internacionalmente, por conta dos tratamentos espirituais oferecidos a mais de três mil pessoas todas as semanas pelo médium João Teixeira de Faria, mais conhecido como João de Deus, Maria nada sabia sobre a crença e tão pouco sobre a tal casa de cura que também vende produtos prescritos por ele. Mas a adolescente cumpriu com a promessa e passou a acompanhar o amigo nos dias de tratamento.

A sala onde ocorria o atendimento era uma espécie de galpão onde as pessoa formavam uma fila e recebiam cirurgias espirituais e curas do médium que incorpora diversas entidades, sendo a de Dom Inácio a mais famosa. Como João de Deus conhecia o pai do garoto, chamou os dois para uma conversa individual logo no primeiro dia. Na ocasião, aproveitou para especular quem era a jovem. Naquela data, nada fora do comum aconteceu.

Passados os três meses, João de Deus escolheu Maria para um atendimento individual, apesar de ela não estar em tratamento. Os escolhidos eram considerados privilegiados. “Achei que ele queria passar algum recado para o pai do meu amigo”. Ao entrarem na sala, João fechou a porta, entrelaçou os braços no corpo da jovem pelas costas e a segurou com força. Disse que ela estava com uma doença na região do abdôme, onde tocou com as mãos, e que ela precisava ser curada. Para isso, teria que abrir a calça dela para que “a energia pudesse circular”.

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Em choque

Foi aí que os abusos aconteceram. Maria ficou em choque. Sem entender o que estava acontecendo tentou se desvencilhar dos braços do médium. A luta durou cerca de dois minutos – o suficiente para deixá-la com ferimentos e com traumas que carregaria para o resto da vida. João a soltou, Maria levantou as calças o mais rápido que pode e saiu sem olhar para trás. “Eu não podia fazer um escândalo porque tinha muita gente ali adorando aquele homem, se eu fizesse isso me chamariam de louca e mandariam me internar”.

O episódio que até duas semanas atrás nunca havia sido revelado a ninguém, a atormentou por longos 20 anos  – hoje ela tem 37 anos. Por pelo menos um ano só conseguiu dormir com a luz acesa, teve pesadelos, insônia e sentiu medo. Naquela altura, ela já sabia que João de Deus era um homem poderoso em Goiás.

A jovem do interior só se deu conta de que foi vítima de um crime após mudar-se para São Paulo e iniciar o curso de direito. “Logo depois eu acabei descobrindo uma doença e fiquei confusa pelo o que ele disse, foi ignorância tanto religiosa quanto de conhecimento. Quando percebi que não era nada daquilo, já fazia tanto tempo que acabei não denunciando, até porque ele era muito influente e eu tinha medo”, contou. 

Em 7 de dezembro, as primeiras denúncias de abusos sexuais cometidos pelo médium a partir da década de 1980 até este ano começaram a ser revelados no programa Conversa com Bial da Rede Globo. Até a última semana, uma força-tarefa montada pelo Ministério Público de Goiás que contou com apoio de órgãos de outros estados, registrou mais de 500 denúncias de abusos e estupros. Vítimas de outros seis países também denunciaram.

Maria que não costuma assistir TV, viu por acaso uma reportagem sobre o episódio no dia seguinte, em 8 de dezembro. Ao ouvir o nome “João de Deus” na TV, ela reviveu pela memória a violência sofrida. “Naquele momento caiu meu mundo. Não consegui terminar de comer, a barriga gelou, as mãos começaram a suar e eu entrei em pânico”, relatou.

Ajuda a outras mulheres

Após digerir o que estava acontecendo e se dar conta que não tinha sido a única vítima, Maria sentiu-se encorajada a revelar o abuso sofrido pelo mesmo médium denunciado na televisão ao marido e à pessoas mais próximas. Ela também procurou a polícia, fez o registro e colaborou com a força-tarefa do MP. Embora falte um ano para prescrever a pena, que é de 20 anos a contar a partir do ano em que a vítima completa a maioridade, Maria acredita que o médium talvez nem pague pelo crime dela em específico, mas entende que está ajudando a evitar que outras mulheres sejam vítimas.

“O mal já está feito, não tem reparação. Não vou dizer que penso nisso o tempo todo, mas sei que nunca vou esquecer. Depois que contei para algumas pessoas, senti um peso a menos. Acredito que há duas questões que intimidam as vítimas nesse caso: uma é a ignorância com a questão da fé e a outra é o poder que aquele homem tem, tanto político quanto financeiro”, concluiu.

Preso preventivamente

Em 16 de dezembro, João de Deus foi preso preventivamente. Ele se apresentou às autoridades após ter sido considerado foragido da Justiça. Dois dias depois, a polícia aprendeu mais de R$ 400 mil e cinco armas de fogo em uma das casas dele em Abadiânia. O patrimônio inclui várias casas, fazendas, investimentos e um avião. Ao menos 15 denúncias já foram judicializadas no Tribunal de Justiça de Goiás. Em Santa Catarina, ao menos quatro mulheres denunciaram contra o médium.

O MP de Goiás revelou ainda que o médium teria retirado R$ 35 milhões de contas e aplicações financeiras após as primeiras denúncias virem à tona – fato que foi negado pela defesa dele representada pelo advogado Alberto Toron. A informação acelerou a decretação da prisão.

A defesa representada, que também nega as denúncias, impetrou habeas corpus no Supremo Tribunal Federal na última quinta-feira (19) para libertá-lo, mas teve o pedido negado. A denúncia mais recente, de uma vítima de 39 anos, cujo abuso teria ocorrido em outubro deste ano, já resultou em indiciamento por violação sexual mediante fraude.

*A vítima foi representada pelo nome fictício Maria, em referência à Maria da Penha que é símbolo da luta pelo fim da violência contra a mulher no Brasil. 

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Vozes corajosas 

As mais de 500 denúncias de abuso sexual contra o médium ‘João de Deus’ suscitaram indignação, revolta e choque nas pessoas. O ND foi às ruas para ouvir a opinião de mulheres sobre o caso. Muitas pessoas não quiseram sequer tocar no assunto, porém, das 25 mulheres que se dispuseram a falar, a maioria entendeu que as vítimas tiveram os seus motivos para não demorar a fazer a denúncia, seja por medo, coação, trauma ou até constrangimento.
Algumas entrevistadas deixaram claro que o tempo transcorrido entre a agressão e a denúncia não invalida o depoimento das vítimas. A grande maioria acredita que o agressor seja culpado e que deve ser julgado e punido pelo que fez.

As entrevistadas também revelaram terem ficado chocadas pelo fato de uma pessoa que se declara religiosa e a serviço de Deus tenha cometido tantos atos de agressão e por tanto tempo. Elas citaram a influência dele como uma pessoa de poder e a fragilidade das vítimas no momento em que foram abusadas sexualmente.

Apenas duas insistiram no fato de que deve haver investigação detalhada para apurar a veracidade dos casos. As demais consideram que o número de vítimas já mostra que é inegável que ele tenha cometido os abusos.

*Colaborou Andrea da Luz

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