Mapas digitais mostram vulnerabilidade social ao coronavírus em Santa Catarina

Comunidades carentes se articulam com as lideranças locais para enfrentamento à pandemia e reclamam da ausência do Estado

É nas comunidades mais pobres que a tragédia do coronavírus tende a ocorrer. “Temos muitos negros, indígenas, caboclos e pessoas brancas empobrecidas nessas áreas. E como vimos em São Paulo, é desproporcional a quantidade de mortes entre Paraisópolis e o Morumbi. Não queremos perder nenhuma vida”, diz o padre Vilson Groh, que atua há quase 40 anos junto à população mais pobre no Maciço do Morro da Cruz, Centro de Florianópolis.

Mapa mostra municípios com populações mais vulneráveis ao coronavírus – Foto: Epagri/Divulgação/NDMapa mostra municípios com populações mais vulneráveis ao coronavírus – Foto: Epagri/Divulgação/ND

Pensando nisso, pesquisadores da Epagri, em parceria com a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e técnicos das Secretarias de Defesa Civil, Saúde e Desenvolvimento Econômico Sustentável do Estado de Santa Catarina criaram índices da vulnerabilidade ao novo coronavírus.

Eles levam em conta a renda, a idade e a densidade demográfica e criaram mapas digitais apontando os locais mais vulneráveis no Estado. Segundo o levantamento, os lugares mais problemáticos são aqueles em que 75% ou mais dos habitantes possui renda inferior a três salários mínimos.

Além disso, concentram 50% ou mais dos moradores com idade igual ou superior a 45 anos e têm alta densidade demográfica, ou seja, maior quantidade de pessoas por unidade de área.

Mapa da vulnerabilidade

“O mapa por setor censitário permite identificar, por bairros, onde está a população mais vulnerável em função da idade, da renda e da densidade demográfica. Já o mapa com os índices por município ajuda a identificar as cidades com mais pessoas em condição de vulnerabilidade”, explica o pesquisador da Epagri, Luiz Fernando de Novaes Vianna.

Os dados mostram que é justamente nesses locais que o número de casos está crescendo mais. “São lugares onde a população está mais ativa e exposta, vive mais aglomerada em prédios ou em comunidades mais carentes,
com casas menores e mais próximas umas das outras”, aponta Vianna.

Com efeito, é nas áreas de renda mais baixa que há maior necessidade de atendimento em saúde. “Os mapas estão sendo integrados com o sistema de inteligência do governo para orientar as ações necessárias, servindo de base na tomada de decisões”, diz o pesquisador.

A reportagem do nd+ tentou contato com a Secretaria de Estado da Saúde, por uma semana, mas não obteve retorno para saber quais ações estão sendo tomadas com as informações levantadas nos mapas de vulnerabilidade.

Vulnerabilidade na prática

Enquanto boa parte da sociedade tem acesso a uma enxurrada de informações sobre a Covid-19, comunidades carentes ficam à margem desse processo. Para elas, a falta de informação e de ações integradas entre várias instâncias do poder público ainda representa um gargalo para a prevenção contra o novo coronavírus.

A maioria das pessoas que vive nos bolsões de pobreza, não discute quarentena e uso de álcool gel. Quer saber o que vai fazer com a falta de fraldas geriátricas para seus idosos, de trabalho ou de comida.

Vivendo em casas pequenas e enfrentando o desemprego, muitos sequer sabem como fazer o isolamento, caso algum membro da família seja infectado pelo novo coronavírus.

O cenário é descrito pelo padre Vilson Groh. “Não há comunicação dos gestores públicos com as periferias. A impressão que tenho é que as falas são voltadas apenas para a classe média. Precisa haver uma ação concreta e integrada entre as secretarias de Assistência Social, Saúde e Infraestrutura para que se preserve a vida nesse locais”, aponta.

“O poder público poderia usar plataformas fáceis como o Whatsapp, já utilizado por moradores da comunidade, para se comunicar efetivamente com eles”, opina o sacerdote.

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Esse sentimento é compartilhado pela presidente da Associação Revolução dos Baldinhos, no bairro Monte Cristo – na parte continental da cidade, Cinthia Cruz.

“O isolamento é muito difícil porque as famílias vivem aglomeradas, até pela falta de infraestrutura e constituição das casas. Aqui, ninguém do poder público veio distribuir máscaras ou fazer ação de sensibilização das pessoas. Se viessem, talvez as pessoas se convencessem mais rápido de que o problema é sério”, analisa.

Distribuição de cestas, marmitas e máscaras

Segundo Groh, algumas cestas básicas são enviadas, mas não é um processo contínuo. “Felizmente, há uma rede de solidariedade interna muito grande dentro das comunidades. Somente o nosso instituto (IVG) já distribuiu 3 mil
cestas básicas para mais de mil famílias”, conta.

O líder comunitário lembra ainda que “junto à Rede Rua, grupos se reúnem para fornecer café e janta diariamente para quem vive nas ruas. Abrimos a cozinha comunitária da igreja do Monte Serrat e entregamos cerca de 400 marmitas todos os dias no Sambódromo”, em referência à Passarela Nego Quirido.

No Monte Cristo, a associação já atendeu mais de 1,2 mil famílias com cestas básicas e entregou mais de 500 máscaras. “Outras comunidades do Continente vêm nos procurar, devido a essa ausência do Estado, que não está aqui para fazer esse enfrentamento”, opina Cinthia.

Enquanto aguarda que a testagem chegue ao bairro, Cinthia orienta as pessoas sobre higiene, a necessidade de ficar e manter as crianças em casa e distribui material informativo junto com as cestas básicas.

“Há um desemprego crescente, aumentando a demanda por ajuda a mães solteiras que trabalhavam como domésticas ou faxineiras e foram dispensadas”, conta Cinthia. “O benefício do governo federal é uma saída, porém muitos tiveram problemas com o CPF e não conseguiram receber”.

O que diz a prefeitura

A Prefeitura de Florianópolis informou que o atendimento de cestas básicas é feito por meio do cadastro nos CRAS (Centros de Referência de Assistência Social) e NEIM (Núcleos de Educação Infantil Municipal). O cadastro pode ser feito por telefone, Facebook ou Whatsapp e os dados são cruzados com os do Cadastro Único, do governo federal, para não repetir benefícios.

Por critério de priorização são oferecidas cestas básicas para casos suspeitos ou confirmados de coronavírus, famílias com grupo de risco, com crianças que não recebem cartão-merenda (concedido pela prefeitura a famílias com crianças matriculadas na rede municipal) e com outras vulnerabilidades sociais.

Até o momento, foram entregues mais de 8 mil kits com alimentação e máscaras, totalizando 141 toneladas de alimentos doados por moradores, servidores municipais, Assistência Social e Defesa Civil Municipal, Exército, Marinha e empresas. Ainda segundo a prefeitura, 6.400 famílias em vulnerabilidade social já foram atendidas pela entrega do auxílio.

Banco Comunitário

Para ajudar a enfrentar a crise provocada pelo coronavírus, o ICOM (Instituto Comunitário Grande Florianópolis) criou o Banco Comunitário. A estratégia visa atender famílias em situação de vulnerabilidade na Grande Florianópolis com uma ajuda mensal de R$ 200, por três meses, para compra de alimentos, produtos de higiene e de limpeza.

A Associação Revolução dos Baldinhos é uma das participantes e está cadastrando 200 famílias para receber o benefício. “Ele é direcionado a quem não participa de nenhum programa do governo. Através de app pelo celular, a pessoa adquire o que precisa no comércio local”, explica Cinthia.

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