Órfãos do feminicídio: a dor das crianças que ficam e uma homenagem a Josiane Sebastiana Batista

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Mãe de três crianças, a moradora de Biguaçu foi uma das 41 mulheres que teve a vida ceifada em Santa Catarina em 2018. Mais de um ano depois, a família ainda luta para conviver com a dor, os traumas e a saudade.

REPORTAGEM: Caroline Borges
EDIÇÃO: Beatriz Carrasco e Schirlei Alves
IMAGENS: Anderson Coelho

Na casa de muro rosa na pequena servidão em Biguaçu, na Grande Florianópolis, três crianças fazem barulho do lado de fora. Sujas de areia, falam alto, pulam, dançam e brincam numa manhã quente e abafada de verão. Lá de dentro, Maria Neves, de 59 anos, observa pela janela as travessuras dos netos. Ela pensa na filha, morta há um ano e cinco meses. “Ninguém esquece a mãe”, diz a senhora em voz baixa, com os olhos umedecidos. As palavras saem quase como o silêncio.

Maria Neves e os netos, órfãos de Josiane – Foto: Anderson Coelho/ND

As crianças são órfãs de Josiane Sebastiana Batista. Assassinada pelo ex-companheiro aos 26 anos, ela é mais uma vítima do feminicídio em Santa Catarina. Josiane tinha apenas um sonho: ser a melhor mãe do mundo.

O desejo foi ceifado na noite de 21 de setembro de 2018, quando Márcio Luiz dos Santos, hoje com 41 anos, desferiu oito facadas no peito dela. Um dos filhos do casal, de apenas 8 anos, presenciou o último suspiro de vida da mãe.

Neste Dia Internacional da Mulher, a lembrança de Josiane é prova de que a luta por igualdade ainda esbarra no simples direito à vida.

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Josiane tentou fugir

Dois meses antes do crime, Maria conta que a filha decidiu fugir do pai das crianças. Cansada das agressões e de ver os filhos presenciando brigas, ela se mudou para a casa da mãe, com vontade de recomeçar. Para a avó, o sofrimento de todos terminaria ali.

“Ela veio com o pequeno no colo, mochila nas costas e carregando os outros dois na mão”, relembra Maria, que hoje revive a maternidade com os netos. Após a morte de Josiane e a prisão de Márcio, ela assumiu a guarda dos dois meninos, de 10 e 6 anos, e da menina, de 8. “Eu sou mãe, pai, avó. Eu sou tudo”. 

Lembrado neste domingo (8), o Dia Internacional da Mulher não será comemorado na casa de Maria.

O mesmo vazio também estará entre as famílias das 41 mulheres assassinadas em 2018, das 59 mortas em 2019, e das sete executadas neste ano. Os números são apenas de Santa Catarina.

Os órfãos de Josiane: traumas e saudade – Foto: Anderson Coelho/ND

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“Essa é a minha mãe. Ela morreu”

Sobrecarregada, Maria se divide nas tarefas da casa e no cuidado das crianças. É ela quem ajuda nos deveres, leva e busca da escola, brinca e educa. E entre tantos afazeres, a avó se tornou também confidente dos netos. Segundo ela, são comuns as perguntas e comentários sobre a falta da mãe. 

Durante a visita da reportagem do nd+ à casa em que Maria mora com o esposa e as três crianças, a filha do meio de Josiane fez questão de mostrar uma foto da mãe ainda menina.

“Essa é a minha mãe. Ela morreu”, disse a garota ao estender a fotografia.

Ao lado da casa, o mar chega. É ali, na beira da praia, ou dentro de um pequeno barco é que os três órfãos de Josiane passam boa parte dos dias – Foto: Anderson Coelho/ND

Na escola e para os amigos, os três contam o que aconteceu. Apesar de, num primeiro olhar, demostrarem naturalidade, a saudade é logo revelada em forma de lágrimas.

“Eles são loucos pela mãe. Tem vezes que eu vejo um chorando de saudade e outro perguntando por ela. É normal,” conta a avó.

Em toda a família, duas semelhanças são marcantes: os olhos e a tranquilidade. Entre as crianças, o mais velho é quem mais se parece com a mãe – e quem mais sofre com a perda, segundo Maria.

Além do remédio para ansiedade que toma uma vez ao dia, o menino recebe acompanhamento psicossocial pelo SUS para lidar com o trauma. No dia da morte, ele foi acordado com os gritos dentro de casa e chegou a se ferir. Uma das facadas desferidas pelo pai atingiu a mão do menino, que dormia na sala.

Márcio Luiz dos Santos matou a ex-companheira e feriu um dos filhos do casal – Foto: Reprodução/Redes Sociais/ND

Marcas para toda a vida

Para Cristiane Hammes, psicóloga do Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) de Biguaçu, as cicatrizes da violência doméstica deixam marcas além da pele e podem ser carregadas pelas vítimas durante toda a vida.

A funcionária que acolhe crianças que passaram por algum tipo de violação de direito afirma que as consequências do trauma são gigantescas. 

Na sala de aula, as vítimas podem ter o desenvolvimento prejudicado. No convívio social, elas são mais propensas a desenvolver depressão e ansiedade. A psicóloga comenta, ainda, que criar relações e vínculos também se torna um problema. 

“O principal impacto que eu vejo, eu diria que é que, muitas vezes, a criança fica com um sentimento de não poder confiar nas pessoas, não se abrir, não conseguir construir laços. A vítima também pode desenvolver agressividade, já que vê isso em casa”, explica. 

Para minimizar os impactos da violência, Cristina sugere que as crianças devem ter acompanhamento com psicólogos. No Creas, além dos pequenos, os funcionários atendem toda a família.

“O objetivo é acolher as famílias e trabalhar as questões no sentido de violência e ressignificar as suas histórias, pois a violência pode repetir”, comenta.

Em Santa Catarina, são 103 unidades do Creas para atender famílias, pessoas que estão em situação de risco social ou que tiveram os direitos violados. Além de orientar e encaminhar os cidadãos para os serviços públicos que existem no município, o Creas também oferece informações, orientações jurídicas, apoio no acesso à documentação pessoal e estimula a mobilização comunitária.

A espera da volta para casa

Depois dos golpes na sala, Josiane correu para a cozinha e ali ficou. Foi naquele cômodo que a reportagem conversou com Maria. Quando ela começa a contar sobre o momento da morte da filha caçula, as lágrimas escorrem e é preciso uma pausa.

Quando a conversa é retomada, ela conta que passou meses sem conseguir ficar sozinha em casa. Era preciso companhia até para tomar banho e se alimentar.

“Eu lembro dela o tempo todo. No começo, não conseguia ficar aqui sozinha, aí eu ia para praia e ficava conversando com ela lá. Me ajudava”, conta.

O tempo passou e, aos poucos, a mãe e avó foi retomando a rotina. Mudou os móveis de lugar para abrigar os novos moradores. A sala dá hoje lugar ao quarto dos meninos, que encheram o lugar de brinquedos e alegria.

Com tempo, Maria tenta retomar a vida e ficar cada vez mais forte. Uma coisa, porém, ainda é difícil: driblar a sensação de que, um dia, a filha vai entrar pelo portão. “Faz um ano e cinco meses que ela morreu e eu espero ela voltar pra casa”.

Dona Maria guarda as fotos e documentos da filha – Foto: Anderson Coelho/ND

Agressões eram rotina 

Josiane sofria agressões desde o início do relacionamento com Márcio, relata Maria. “Foram anos apanhando e as crianças viam tudo”. Ela vinha para minha casa e ficava aqui uns dias, mas acabava voltando pra ele”, conta. 

Após os três primeiros anos de casamento com um histórico de ameaças, insultos, surras e vigilância constante, a jovem, então com 18 anos, fez o primeiro boletim de ocorrência contra o companheiro. Em 2011, depois de ser asfixiada, expulsa de casa e ameaçada, Josiane pediu ajuda.

Relato do BO:

  • “A comunicante disse que lhe causou lesão em seu corpo, após isto jogou a vítima em cima da cama e tentou asfixiá-la. Após esta agressão, o autor expulsou a comunicante às 00h30 junto com seu filho de um ano, e ameaçou a comunicante dizendo que se ela comunica-se à polícia iria morrer”.   

Dias depois, Márcio foi até a casa da mãe de Josiane e os dois reataram. 

Em agosto de 2017, um ano antes do crime, o casal se separou mais uma vez. Eles voltaram um mês depois, quando o companheiro prometeu que pararia de beber e mudaria. Naquele mesmo dia ela foi agredida novamente.

Esta última briga, a avó não soube pela filha, mas pela neta. “Ela era pequena, tinha uns 6 anos. A menina mesmo me contou. Ela disse que o pai pegou a cabeça da mãe e batia no chão, era chão de madeira e fazia um barulho, a guria acordou apavorada. A menina viu tudo”, conta Maria.

Depois de golpear a ex-mulher na noite de 21 de setembro de 2018, Márcio agrediu a sogra, o sogro e fugiu numa bicicleta. Quatro dias depois, ele foi até a delegacia e assumiu a autoria do crime.

Hoje, ele está detido no Presídio Regional de Biguaçu, onde aguarda a resposta do pedido de suspensão do júri popular. Ainda não há data para o julgamento.

75 novos processos por dia

Entre janeiro e agosto de 2019, as 111 comarcas de Santa Catarina registraram 18.391 ações de crimes relacionados à violência contra a mulher. O índice representa mais de 75 novos processos por dia, segundo a Cevid (Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar). 

De acordo com a coordenadora do projeto, desembargadora Salete Silva Sommariva, há um aumento nos índices dos processos. Isso ocorre, segundo ela, porque as vítimas têm mais acesso a informação.

“Isso pode ser resultado da informação acerca dos direitos das mulheres, da legislação que endureceu as penas e encorajou as vítimas a denunciarem seus agressores, e a procurar sair da situação de risco”.

Sonhos 

Apesar da dor inesquecível que Maria carrega, a casa barulhenta e a alegria das crianças faz com que a saudade diminua. Por lá, os sonhos também não morreram. O filho mais velho quer ser policial para “proteger as pessoas”.

Durante a visita da reportagem, os pequenos contaram que gostam de animais e desejam ganhar a vida montando cavalos. 

“Eles sonham, né”, diz a avó.

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