Mulher baleada no pescoço consegue auxílio do INSS em Joinville

Cirlene de Ramos, de 38 anos, voltava do trabalho quando foi atingida por um tiro disparado pelo ex-namorado em 2016; quatro anos depois, Justiça concedeu benefício à vítima

As marcas de um dia que tinha tudo para ser comum ainda estão presentes. Não só nas lembranças, mas também no corpo de Cirlene de Ramos, de 38 anos. Ela foi baleada no pescoço enquanto voltava do trabalho em 2016, em Joinville. O autor dos disparos: o ex-namorado.

Mulher foi baleada pelo ex-namorado enquanto voltava do trabalho – Foto: Divulgacão/JusCatarina/ND

A mulher, que prefere não mostrar o rosto, ainda lembra com detalhes os fatos que levaram aquele dia. Após terminar um relacionamento de 18 anos, ela começou um namoro com o agressor em dezembro de 2015.

“No começo, ele pareceu ser a pessoa certa, mas no decorrer dos meses foi se transformando em algo que não seria bom para mim”, relembra.

Após sete meses, Cirlene decidiu dar um ponto final na relação. Foi aí que as ameaças de morte por parte do, agora, ex-namorado começaram. “Ele sempre me ligava pedindo para voltar, dizendo que ia me matar, mas não acreditei”.

“Sentia que algo iria acontecer”

Depois de dois dias sem receber ameaças, Cirlene pensou em duas coisas: ou ele teria desistido ou estava armando alguma coisa. Ela conta, ainda, que no dia que ocorreu o crime começou a sentir uma dor no peito e comentou com uma colega que estava com a sensação “de que algo iria acontecer”.

O expediente acabou e, assim como fazia todos os dias, pegou o ônibus da empresa e seguiu para casa. Era meia-noite do dia 6 de agosto quando, ao descer do veículo, ela foi abordada pelo ex-namorado.

“Comigo estava uma colega de trabalho que gritou pra corrermos, mas ele [agressor] já me segurou com a arma na minha cabeça”, relembra.

O agressor atirou duas vezes, porém, a arma falhou. Nesse momento, Cirlene conseguiu empurrá-lo e saiu correndo. Alguns metros depois, o homem conseguiu alcançá-la e atirou acertando o pescoço dela.

Cirlene desmaiou na hora e acordou cinco minutos depois “com muita dor e perdendo muito sangue”. Após o disparo, o homem cometeu suicídio.

Sequelas acompanham a mulher até hoje  – Foto: Divulgação/ND

Sequelas a acompanham até hoje

Cirlene recebeu atendimento e foi levada ao hospital São José onde ficou internada por um dia. Depois, foi transferida para outro hospital onde permaneceu por mais dois dias até receber alta.

Foi aí que começou um duro processo de recuperação: ela perdeu o movimento dos braços e dependia da família para fazer tarefas básicas, como se alimentar e tomar banho. Ela só voltou a fazer as necessidades sozinhas após meses.

“Eu tenho que agradecer primeiro a Deus, depois a minha família e amigos. Eles foram fundamentais para minha recuperação. Eu fui muito amada sem ser julgada”, explica.

Entre as sequelas que acompanham Cirlene até hoje, estão edema na medula, alteração na sensibilidade, perda de força e dor crônica.

Decisão permitiu que vítima recebesse auxílio do INSS

Devido às lesões, Cirlene teve de ficar afastada do trabalho por mais de dois anos. Neste tempo, ela aproveitou para ocupar a mente, voltou a estudar e terminou o ensino médio.

Ela retornou ao trabalho em dezembro de 2019. Após alguns meses, o superior da empresa a informou que para, ter alguma promoção, teria de trabalhar com maquinário, o que, para ela, seria impossível.

“Foi aí que despertou algo em mim e comecei a pensar o que eu poderia fazer para ter uma melhor qualificação e conseguir uma oportunidade melhor. Então, me matriculei no curso de técnico em Administração”, conta.

Além disso, ela começou a fazer pesquisas para saber se tinha direito a algum tipo de auxílio e descobriu, por meio de um advogado previdenciário, que podia solicitar ao INSS uma contribuição de renda.

“A lei previdenciária tem um conceito mais amplo do que vem a ser um acidente de trabalho. Uma das hipóteses é o acidente de trajeto, que ocorre quando a pessoa está indo ou voltando do trabalho para casa”, explica o advogado Everton Luis de Aguiar.

No caso de Cirlene, segundo o advogado, a situação se encaixaria, já que os disparos ocorreram enquanto ela descia do ônibus da empresa. A tese foi apresentada e aceita pela 4º Vara da Fazenda Pública de Joinville, que autorizou o pagamento do benefício para a vítima.

“Em tese, o auxílio será para complementar a renda dela no mês, inclusive com décimo terceiro até a aposentadoria. Somente lá que o benefício é encerrado. Porém, ela também pode continuar trabalhando, com funções compatíveis às suas suas limitações”, explica Everton.

A sentença é do juiz Márcio Schiefler Fontes, titular da 4ª Vara da Fazenda Pública da comarca de Joinville.

“Ninguém é obrigada a viver uma vida de violência”

Casada e mãe de dois filhos, Cirlene explica que a renda ajudará, principalmente, em sua formação. Mesmo com as sequelas do crime, que a atingiu há quatro anos, ela diz que isso não a fez deixar de lutar e “agradecer a Deus a oportunidade de recomeçar”.

“Meu conselho para as mulheres é de que, se possível, procurem avaliar muito bem antes de deixar a pessoa entrar em suas vidas e se já está colocar um ponto final se a relação não estiver boa. Ninguém é obrigado a viver uma vida de violência”, finaliza.

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