Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Vítima de violência doméstica e familiar transforma a dor em luta pela vida das mulheres

Ela quase virou mais um triste número do feminicídio, mas sobreviveu à tragédia e uniu-se a outras mulheres para fundar uma associação de apoio e orientação a vítimas de agressão de todo o Brasil

O rosto harmonioso de Ingra Ohana de Vargas, 29 anos, não demonstra a violência doméstica que sofreu em Concórdia, no Oeste catarinense, onde morava com o marido e os dois filhos, um de 10 e outra de sete anos.

Companheiro de uma década, ele a esfaqueou brutalmente em frente a um restaurante. Após 18 dias hospitalizada, sete deles em coma, três cirurgias (a primeira durou 10 horas), Ingra despertou com a intensa vontade de lutar pela vida, dela mesma e de outras mulheres.

Contadora formada pela UnC (Universidade do Contestado) e pós-graduada em planejamento tributário e controlaria pelo Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) Concórdia, agora, está baseada em São José, na Grande Florianópolis, de onde administra os negócios em ambas as regiões e também se dedica à Associação Somos Todas Ingras, surgida de um movimento espontâneo enquanto se recuperava, há um ano.

Ingra Ohana foi vítima de violência doméstica e tentativa de feminicídio, em 2020 – Foto: RMCom/Divulgação/NDIngra Ohana foi vítima de violência doméstica e tentativa de feminicídio, em 2020 – Foto: RMCom/Divulgação/ND

Quando começaste a te recuperar, qual foi o teu desejo imediato em relação ao episódio?

Meu desejo incontrolável era lutar pela vida, mas não só pela minha, por diversas mulheres que passam isso de forma oculta, escancarada, presas, isoladas, sem apoio, sem poder conversar com alguém que sente ou sentiu a mesma dor que elas na pele.

Até porque é muito difícil que as vítimas se exponham para ajudar outras, seja por vergonha, medo, preconceito. Então, sem eu saber, por ordens médicas, do lado de fora do hospital, uma multidão estava orando pela minha vida, tinha feito protestos, orações em grupos e levantou uma bandeira, onde dizia “Somos Todas Ingras”. Quando descobri tudo isso, meu coração não teve dúvida: será este nome, por todas as Ingras, Anas, Marias, mulheres.

O que ocorreu ao saíres do hospital?

As pessoas, automaticamente, me procuravam. Foi uma loucura, mas as idealizadoras do movimento foram minhas amigas. Hoje, todas elas fazem parte da Associação. Fizemos algumas reuniões e decidimos começar, mesmo pequenas e a passos lentos, a agir diante deste cenário.

Associação esclarece às mulheres o que é feminicídio – Foto: Reprodução/Redes sociais/Divulgação/NDAssociação esclarece às mulheres o que é feminicídio – Foto: Reprodução/Redes sociais/Divulgação/ND

Neste grupo, já havia relatos delas mesmas como vítimas de algum tipo de violência?

Sim. Por sinal, em um dos momentos, estávamos em nove mulheres, sendo que cinco já tinham passado por algum tipo de violência.

Quando foi oficializada a Associação, qual a sua abrangência e quais atividades desenvolve?

O ocorrido foi em fevereiro (2020) e, em março, iniciou a pandemia. O projeto é de eventos e palestras motivacionais, apoio entre mulheres, ajudar, entender, ouvi-las, encorajá-las, aplicar capacitação, treinamentos voltados à parte financeira. Possuímos advogada para orientações, palestras em escolas. A Associação foi constituída em agosto.

Quem pode recorrer à Somos Todas Ingras e de que forma?

Todos e todas que precisarem de nossa ajuda, seja para orientar, direcionar, pegar pela mão. A abrangência é global, não temos limites geográficos em se tratando de violência doméstica, infelizmente. Os atendimentos em sua grande parte são on-line até este momento, desde que começamos: Instagram, Facebook, e-mail somostodasingras@hotmail.com e WhatsApp (49) 99999-1349.

Somos Todas Ingras conscientiza sobre o direito das mulheres à proteção – Foto: Reprodução/Redes sociais/Divulgação/NDSomos Todas Ingras conscientiza sobre o direito das mulheres à proteção – Foto: Reprodução/Redes sociais/Divulgação/ND

De onde são as pessoas que procuram a Associação e quais os motivos mais frequentes do contato?

A abrangência maior é em Santa Catarina, mas já tive vítimas me pedindo auxílio de vários  lugares (Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul). Os motivos são o medo, a paralisia em optar por dizer “não mais”, por onde começam, o que podem fazer. Muitas até para contar e desabafar que também foram vítimas, mas se libertaram.

A mulher (ou a família) começa a perceber sinais de que convive com um agressor. A tendência é se agravar, podendo chegar a uma tragédia. Qual foi o momento em que deverias ter agido e deixaste passar?

Nossa! Hoje, de fora, vejo que foram vários sinais: ciúmes excessivos com violência patrimonial, ameaças, perseguições, ligações incessantes via vídeo. O basta foi a violência sexual. Ali, eu aguentei por quase um ano, contra a minha vontade. E, então, houve o despertar. Mas eu deveria ter agido desde o primeiro sinal de violência, mesmo não tendo sido eu naquele momento o alvo.

Os sinais de violência doméstica e familiar – Foto: Reprodução/Redes sociais/Divulgação/NDOs sinais de violência doméstica e familiar – Foto: Reprodução/Redes sociais/Divulgação/ND

Quais as orientações básicas para evitar ou interromper a violência doméstica?

Que procurem primeiro apoio de terceiros, para não ser pega desprevenida. Quando despertei, pedi minha separação sozinha, e ali foi a primeira tentativa, por asfixia e socos na cabeça. Mas, acima de tudo isso, vem a certeza daquilo que merecemos e do que aceitamos em nossas vidas. O meu despertar foi quando eu entendi que aquele não era o padrão de família e amor que eu desejava apresentar para meus filhos, como família normal. Cada uma terá seu motivo maior. Foquem nisto sem desviar os olhos.

Como a educação infantil, em casa e no colégio, poderia colaborar para que as crianças se tornassem adultos cientes de que as pessoas não pertencem às outras?

O trabalhar as emoções, deixar as crianças falarem, fazerem, demonstrarem, serem elas, conduzir algumas atitudes para que entendam os benefícios e malefícios que elas trazem e, principalmente, que saibam e sintam que são amadas, que elas têm onde se apoiar. Aquela criança que sempre foi obrigada a engolir os sentimentos, quando explodir, o resultado não será positivo. Elas crescem querendo ser atenção, serem amadas, e não aceitam a rejeição.

Respeito entre gêneros se ensina desde criança – Foto: Reprodução/Redes sociais/Divulgação/NDRespeito entre gêneros se ensina desde criança – Foto: Reprodução/Redes sociais/Divulgação/ND

Apesar da brutalidade, do choque e da fragilidade a que foste exposta, transmites segurança, determinação, desejo de ser feliz, e não te intimidaste em publicizar esta história. De onde vem esta força?

Na verdade, como sempre falo aos meus seguidores, a força vem de um DEUS que me pega pela mão todos os dias, lembrando que Ele me permitiu viver de novo. Faço terapias e acompanhamento para transtorno pós-traumático. Existem, sim, os dias cinzas, de lágrima, de dor, de medo, mas tento entender meus sentimentos, deixar que eles venham, e manter o equilíbrio. Muitas vezes, o corpo diz não, mas eu digo sempre: o GIGANTE que descobri existir em mim, me faz ser forte. A questão de não me intimidar não foi opção, me expuseram da pior forma. Se eu pudesse, jamais teria trazido isso à tona, principalmente por meus filhos.

Atuas profissionalmente em Concórdia e em Florianópolis. Por que trabalhar em duas cidades tão distantes uma da outra?

Possuo escritório no Oeste e na Capital. O motivo foi pelo fato de eu trabalhar com perícias contábeis também. Muitos dos cursos e treinamentos da área, acabavam sendo aqui, em Floripa. Então, quase que mensalmente eu vinha para capacitação. Comecei a ser nomeada em perícias aqui e fiz parcerias com alguns advogados. Em um destes cursos, conheci minha sócia que já morava aqui. Então, em algumas conversas, resolvemos empreender.

A tua vinda para cá foi também vontade de ficar um pouco distante de lá, onde tudo aconteceu?

Sim. Até mesmo pelo custo-benefício em relação a hospedagens e tudo mais. Mas o desejo de fato foi mudar um pouco a paisagem e as lembranças intensas que ainda tenho. Minha residência principal é aqui, mas não tenho planos de mudar minha rotina em relação ao fluxo de viagens, pois Concórdia é meu ponto forte. O único detalhe foi que nela ocorreu o pior dia da minha vida.

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