Artista plástico Sílvio Pléticos comemora 90 anos de vida e arte

Artista que nasceu na Itália e mora em Florianópolis desde a década de 1960 abre a casa e o coração para falar das influências da vida e arte

“Ser humano começo e fim”. Escreveu Silvio Pléticos em uma de suas obras em acrílico. Ele próprio, porém, não se define com essa mensagem. Pléticos é começo e recomeço. Prestes a completar 90 anos em 1º de maio, o artista plástico é linear na análise de sua trajetória: “A vida é uma linha. Nessa linha só se sobe, desce, para e continua. Essa linha é a linha do espírito. Ela nunca muda, o que vale sob esse aspecto, a própria história o confirma”.

Rosane Lima/ND

Silvio Pléticos nasceu em Pula, na Itália, em 1924

90 é número que não o surpreende, pois está convicto que chegará aos 100. “Se o homem quer, vive!”, acredita. E diz que chegaria fácil aos 150 se não fosse um acidente doméstico sofrido há cinco meses quando um bloco de cimento caiu sobre ele. O impacto afetou o pulmão e agora ele respira com certa dificuldade. Nada que o afaste do trabalho nas obras de técnica mista, método de pintura criado por ele, por volta dos anos 1980, depois de problemas de saúde causados pela tinta. Entre os quadros distribuídos pelas paredes, sofás e chão da casa/ateliê em Barreiros, São José, o artista submerge em mar de possibilidades artísticas onde peixes, homens e natureza lhe fazem companhia.

Pléticos está praticamente surdo e tira proveito disso para falar apenas o que lhe convém. Mas o que falta em audição, sobra na visão do artista cuja vida é dividida em fases. Na atual, enxergar o que está ao alcance dos olhos não importa tanto quanto ver o que ficou para trás. Através desse olhar, nostálgico e, por vezes, dolorido, ele fala sobre algumas partes de suas nove décadas. Não segue ordem cronológica ou se prende a determinado assunto. Não anuncia o final de uma história, apenas recomeça noutra e assim vão horas.

De carona nesse olhar é possível fazer uma viagem no tempo e nesse aspecto o período passado é lugar cada vez mais presente. “Faltam só 10 anos para completar um século. Vi todas as mudanças do mundo, mas o mundo nunca mudou tanto como agora”, reflete. Os empáticos olhos azuis só perdem o brilho quando as lembranças são amargas. E em se tratando da infância e adolescência, quase todas têm esse gosto. Desta parte da vida de Pléticos, poucos sabem. Conhecê-la é crucial para compreender melhor sua obra.

Guerra e pobreza

Pléticos nasceu em Pula, na Itália, onde hoje está a Croácia. Banhada pelo mar Adriático, a maior cidade da região da Ístria e um dos pontos turísticos mais procurados no verão europeu, teve um passado inglório, de guerra e pobreza. É desta parte que ele lembra. Filho de uma família numerosa, muito cedo perdeu os pais. Os irmãos foram distribuídos entre casas de famílias e orfanatos. Pléticos foi criado por freiras. “Se você soubesse o que é passar fome, entenderia melhor essa parte”, incita.

Num cenário de pouca comida e muitas bocas, Pléticos e seus colegas desesperados pela falta de alimento descobriram que comer papel preenchia o vazio existente no estômago. As freiras, astutas, logo desconfiaram e passaram a contar as folhas dos cadernos. “Se descobriam ainda nos davam uma surra. Elas eram histéricas”, descreve e complemente depois de um breve silêncio: “Hoje eu perdôo isso”. A partir da fome, sensação com a qual se encontraria mais tarde, no campo de batalha, descobriu sem saber o que seria mais tarde uma dos temas mais marcantes de seu trabalho.

 “Chamam-me de artista dos peixes”, confirma para em seguida contar com detalhes como essa história começou. Certo dia, num passeio pela praia de estômago vazio – num tempo em que a praia ainda não era local de banho – observou os peixes a nadar. Inventivo desde pequeno, Pléticos fez uma espécie e arco e flecha com os aros metálicos de um guarda-chuva. Na visita seguinte, com pontaria ainda deficitária, conseguiu seu primeiro pescado. “Eu sofria de muita fome, tive de chorar e gritar para a freira levar à cozinha do orfanato para ser preparado. Foi o melhor peixe que eu já comi”, relembra.  

Para aperfeiçoar sua nova ocupação de pescador, conta que criou outras engenhocas para poder mergulhar e agarrar os animais com as mãos, sua dedicação abandou a fome por algum tempo. O milagre da multiplicação dos peixes, no entanto, só aconteceria mais tarde e nas telas pintadas no Brasil. “O elemento mar é de extrema importância para mim. O mar era meu amigo, meu grande amigo”, define.

Segunda guerra

Quando a Alemanha nazista invadiu (oficialmente) a Polônia em 1936, Pléticos tinha 15 anos. Nessa época, a Itália já sofria com os efeitos do fascismo, liderado por Mussolini. Pula estava localizada em uma região marcada por diversos conflitos separatistas e étnicos, logo o garoto foi recrutado ao campo de batalha para defender o exército da Iugoslávia. Na batalha, o novo encontro com a fome. Desta vez, não pode correr para o mar. Distraía-se nos traços feitos em papel e encontrava alimento para alma.

As primeiras ilustrações, feitas a partir de fotos, garantiram-lhe a sobrevivência. “Não fosse a habilidade de desenhar frente a modelos, a capacidade de retratar com fidelidade as feições do líder iugoslavo Tito Broz, é bem possível que hoje não estivesse mais entre nós”, narrou o advogado, escritor e crítico de arte, Péricles Prades, no livro “A Pintura de Silvio Pléticos” (2010).

Ao fim da guerra, em 1945, o então ilustrador oficial do exército fez, a pedido do comandante, sua primeira mostra. Passou a trabalhar como ajudante de pedreiro. O autodidata das artes foi também ferreiro e carpinteiro entre outras ocupações, e para conseguir comprar livros desfazia-se de obras. Até hoje, mantém suas telas como moeda de troca. Ingresso na Escola de Arte de Zagreb, capital da Croácia, onde ficou até 1954 e se especializou em pintura mural. Lecionou educação artística para crianças e nunca mais deixou de ser professor.

Conheceu sua mulher Liliana, casou-se e ao seu lado passou os últimos dois anos na Europa em um campo de refugiados. De lá, comunicava-se por cartas com o irmão que morava no Brasil. A intenção era partir para a Austrália, mas foi convencido do contrário. “Esqueça a Austrália. Venha para o Brasil, é subdesenvolvido, mas a vaca é gorda”, escreveu o irmão. E foi em território nacional que Pléticos pode viver a arte em sua plenitude. Em 1961 fez sua primeira exposição individual, em Ribeirão Preto. Em 1967 muda para Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e no ano seguinte chegou a Florianópolis.

Na capital catarinense reencontrou o mar e encontrou espaço para viver e trabalhar. Foi professor de desenho e pintura no Museu de Arte de Santa Catarina, onde em 1986 foi homenageado com uma retrospectiva. Em 2005, o crítico de arte catarinense, João Otávio Neves Filho, o Janga, sintetizou a influência do artista no Estado. “Atravessamos o século e este grande artista continua, a par de seu brilhante trabalho de criação, a orientar e estimular todos que lhe procuram. Sua influência irradia-se por todo Estado e em praticamente todas as regiões de Santa Catarina podemos detectar influências de sua obra ou de seus ensinamentos”.

Inclassificável obra

Definir a obra de Silvio Pléticos é tentar classificar o inclassificável. De carona no seu olhar artístico de se transita pelas vias movimentadas da história da arte. Ao visitar antigos e contemporâneos ele capturou técnicas, estilos e tendências e do extrato disso tudo. Poética, simples, apurada, cubista, de vanguarda. Nem todas, nem uma só.

Estudou as técnicas de Leonardo da Vinci, Rafael, Michelangelo, Delacroix, Van Gogh, Picasso, Cézanne, Paul Klee, e muitos outros, extraiu novos métodos e inspirações e continuou. Passou pelo renascimento, impressionismo, pré-impressionismo, fovismo, expressionismo, cubismo.

A respeito de seu trabalho, ao longo dos anos, muitos críticos de arte nacionais e estrangeiros opinaram.  Entre eles, o poeta catarinense Lindof Bell (1938-1998), que inaugurou a primeira galeria de arte de Santa Catarina. “Sua pintura é uma estrutura de resultados poéticos, quase metafísica algumas vezes, reconduz o espectador à reflexão, a indagações sobre o destino do homem e seus caminhos (descaminhos) de beleza, imaginação e força criativa”, descreveu no catálogo de uma exposição de 1980. Por conta dos interesses artísticos comuns, Pléticos foi convidado por Bell para ilustrar a terceira edição de “As Annamárias”, de 1993.

Sobre a evolução de sua arte diz: “A arte se espiritualizou, se desprendeu da matéria, da objetividade para ficar na expressão do indivíduo que a faz. O valor dela é o próprio homem que a faz. A imagem é física, mas as qualidades são etéreas, espirituais. Uma formação do gosto pela arte é necessária, as grandes nações já desenvolvem isso”, avalia.

As obras de Pléticos não recebem nome. São classificadas apenas pela técnica sobre as quais são feitas: acrílica ou mista. À mista, que consiste sobrepor a uma camada de cera, sobre uma grossa camada de tinta e desenhar com agulha as formas que se deseja, ele dedica suas atenções mais recentes. Depois de fazer grandes obras, em conceito e tamanho, prefere diminuir o tamanho da base e fazer quadros menores. Além do ateliê, as obras de Pléticos podem ser encontradas na Casa Açoriana Artes e Tramoias, em Santo Antônio de Lisboa, onde fez sua última exposição.

Honrarias

1984 – Cidadão Honorário da Cidade de Florianópolis (SC)
1994 – Medalha do Mérito Anita Garibaldi pelos relevantes serviços prestados ao Estado de Santa Catarina (SC)
2000 – Cidadão Honorário da Cidade de São José Santa Catarina pelos relevantes serviços prestados ao Município
2001 – Medalha ao Mérito Cruz e Souza pelos relevantes serviços prestados a cultura do Estado de Santa Catarina (SC)
2004 – Fundado em São Pedro de Alcântara em 19 de julho de 2004, o Instituto Sílvio Pleticos
2005 – Cidadão Honorário Alcantarense pelo apoio cultural prestado ao Município de São Pedro de Alcântara
2012 – Medalha ao Mérito por serviços prestados a cultura catarinense pela ACAP (Associação Catarinense de Artes Plásticas)
Membro da Academia de Letras e Artes de Florianópolis – Santa Catarina – Brasil
Ocupa a cadeira de número 15 cujo patrono é Ernesto Meyer Filho

Prêmios

1972 – Prêmio Salão Sesquicentenário da Independência Florianópolis Santa Catarina (SC)
1º Prêmio Salão SAPISC Florianópolis (SC)
1975 – 1º Prêmio “Istria Nobilíssima” Trieste Itália

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