Alexandre Beck, criador do personagem “Armandinho”, fala sobre política e censura

Em entrevista, cartunista florianopolitano reflete sobre carreira e cenário político-econômico do Brasil

Uma das tiras do "Armandinho" censurada pelo Facebook
Uma das tiras do “Armandinho” censurada pelo Facebook

Desenhista natural de Florianópolis, Alexandre Cechetto Beck, 44, já teve suas tiras do personagem “Armandinho” censurada algumas vezes, recentemente pela própria rede social Facebook. O artista, que atualmente produz tiras para diferentes jornais, também tem seu trabalho frequentemente publicado em materiais didáticos. Em entrevista para a Rádio Plural, Alexandre Beck fala sobre política, censura e o atual momento pelo qual passa o Brasil. Confira:

aleAtualmente, reside onde?

Em Santa Maria, RS, desde final de 2012. Talvez volte a morar na capital catarinense na metade deste ano.

Como você começou a desenhar? Teve influência direta de alguém?

Desde sempre gostei de desenhar bichos. Há pintores em minha família. Creio que os elogios dos parentes, quando eu era criança, me ajudaram muito a continuar desenhando.

Como descobriu que queria seguir carreira profissional nas tirinhas? Quanto ao personagem Armandinho, como e quando ele surgiu? Quando sentiu que seu trabalho com o Armandinho começou a ser reconhecido nacionalmente? Já tem livros publicados dele? Quais?

Trabalhar com tiras nunca foi um objetivo. Sou formado em agronomia, e se eu conseguisse trabalhar com desenhos/ilustrações já seria muito bom. No ano de 2000, depois de ter estudado Comunicação Social, fui contratado como ilustrador em um jornal. Lá comecei a fazer tiras, em 2002, com outros personagens. Em 2009 fiz algumas tiras para ilustrar uma matéria, que acabaram por dar origem ao Armandinho, no ano seguinte. Comecei a publicar as tiras nas redes sociais no final de 2012 (ao me mudar pra Santa Maria), e no início de 2013 o personagem já era compartilhado por todo o país. Até hoje foram lançados 8 livros do Armandinho (Armandinho Zero ao Armandinho Sete), e mais dois devem ser publicados ainda este ano (Armandinho Oito e Nove).

Suas tiras habitualmente exploram temas sociais controversos. Normalmente, como tu tens a ideia e a desenvolve para construção da tirinha?

Não há um método. Muitas vezes abordo temas que acredito que precisamos refletir, repensar, discutir, entender melhor. Sempre é desgastante, por causa das reações contrárias, mas julgo que discutir alguns temas seja mais importante. A visibilidade que o personagem tem, principalmente na internet, permite a construção de bons debates entre olhares diversos.

Recentemente, tivesses tiras do Armandinho censuradas pelo Facebook. Como observa a questão? Por que acha que isso aconteceu?

Uma tira foi derrubada pelo Facebook provavelmente por denúncias de usuários. Eu republiquei com alterações, mas foi derrubada também. Não me foi explicado o motivo exato, mas apenas uma mensagem genérica: “a postagem não está de acordo com a política do facebook” ou algo assim. A tira abordava religião (cristã), orientação sexual e preconceitos. Mas não me senti censurado. Achei engraçado, porque a denúncia da tal tira revela um grande preconceito dos denunciantes, muito provavelmente “cristãos” que se sentiram ofendidos. Isso seria bastante contraditório, a meu ver. Sou de família cristã, e – ao que compreendo – Jesus sempre esteve ao lado dos excluídos, e Ele não se sentiria de forma alguma ofendido. Talvez Jesus se sentisse ofendido com os que lucram e enganam em Seu nome.

O atual cenário político-econômico do Brasil também serve de mote criativo para criação de charges e tiras. O que pensa sobre isso?

Faço grande esforço para compreender o funcionamento de nossa sociedade, e vejo política como uma coisa muito séria. Entendo que há consequências em tudo o que fazemos, e que é grande nossa responsabilidade uma vez que influenciamos outras pessoas. Penso que seja necessário cuidado; colocar a razão acima da emoção, pra não ser usado por interesses alheios, sem perceber.

Quais são teus planos e projetos profissionais para 2016 e 2017?

Espero continuar a fazer tiras, e me aventurar em materiais maiores, com mais textos, onde possa desenvolver melhor algumas ideias. As tiras às vezes me limitam muito. Mas sem maiores planos. Não sei o dia de amanhã.

Saiba mais sobre o personagem “Armandinho”.

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