Dedicatórias em livros transformam-se em preciosidades para colecionadores

As dedicatórias em livros vão além do simples autógrafo, evidenciam afetos e estilos de escrita

Eduardo Valente/ND

Dizeres meus. A poeta Priscila Lopes gosta de colecionar dedicatórias, mesmo as alheias

As dedicatórias de livros sempre foram mais do que protocolos de cordialidade: evidenciam afetos e admirações. Rudimentares, formais, impessoais, simpáticas, independentemente do tipo de mensagem escrita ou até desenhada, elas vão além do simples autógrafo ou da homenagem à pessoa que receberá a obra e acabam por contar, de forma implícita, uma história antes de outra história. É justamente essa metalinguagem literária das dedicatórias que dão mais valor às obras, algo que os leitores colecionam como preciosidade há séculos.

O escritor e poeta Rodrigo Garcia Lopes, 49, é desses leitores ávidos que valorizam essas escritas nos livros. Paranaense radicado em Florianópolis, o artista tem livros com palavras pessoais escritas por autores como Paulo Leminski, Arnaldo Antunes, Paul Auster, Roberto Piva, Glauco Mattoso e Waly Salomão. Com 15 livros publicados, entre eles traduções, poesias e romances, Rodrigo afirma que as dedicatórias dão mais  ‘identidade’ as obras. “Ela provoca o reencontro com quem escreveu a mensagem. Quando eu leio a dedicatória, relembro não somente a história do livro, mas o contexto em que a dedicatória foi escrita,” afirma o escritor.

De autor para leitor, Rodrigo pontua que as dedicatórias trazem a personalidade do autor que a escreveu. “A de Arnaldo Antunes é mais visual, como uma poesia concreta, a de Paulo Leminski é uma celebração da vida, com jogo de palavras, a de Roberto Piva é poesia surrealista exagerada. Dá de ‘sacar’ o escritor até pela caligrafia. Quando eu escrevo as dedicatórias, procuro sempre relacionar também a mensagem com a pessoa para quem estou dedicando os cuidados do livro”, exemplifica o escritor, sobre suas raridades, ele que já encontrou obras suas autografadas vendidas no site Estante Virtual. “Com dedicatória, o livro ganha mais valor, até financeiro”, complementa.

Flávio Tin/ND

Valorosas. Rodrigo Garcia Lopes guarda escritos de Paulo Leminski, Haroldo de Campos, Arnaldo Antunes

No site Eu Te Dedico são compartilhadas dedicatórias de livros com grande valor para aqueles que as têm. Criado em 2012 pela mineira Mariana Guglielmelli, 36, o portal virtual compartilha imagens dos textos escritos pelos autores dos livros ao leitor, ou quem está presenteando,  enviadas por colaboradores espontâneos, além de textos explicativos contando a história, local e data em que elas foram feitas. “Um livro com dedicatória é um livro com duas histórias, uma que começa no primeiro capítulo e outra que começou antes de se passarem as páginas. Dedicar é gravar uma intenção ou sentimento, e a proposta do projeto é registrá-los”, explica Mariana, que mora em Belo Horizonte.

Designer apaixonada por literatura, ela conta que recebe uma média de dez contribuições semanais, e que mais de 1.000 dedicatórias já foram compartilhadas através do site. “São mensagens tão bonitas que não ‘merecem’ ficar escondidas nas prateleiras. Quando eu criei o site, no começo tive receio de as pessoas não enviarem, porque elas carregam um caráter muito íntimo, mas me surpreendi pelo grande retorno, teve adesão imediata. Hoje preciso fazer uma curadoria”, diz Mariana.

Em terra de sebo, quem tem dedicatória é rei
Mais do que livrarias onde se vendem revistas e livros usados, os sebos são estabelecimentos comerciais que disponibilizam, muitas vezes, documentos de valor histórico. Quando essas obras literárias antigas trazem assinaturas ou dedicatórias do autor que as escreveu, o valor torna-se ainda maior. É o caso de Antônio Ribeiro, 59, dono do sebo Armazém do Livro, localizado no Centro da Capital: ele guarda com carinho especial alguns livros com dedicatórias, inclusive um raro com dedicatória escrita pelo catarinense Virgílio Várzea para o carioca Gonzaga Duque e outro com dedicatória escrita por Érico Veríssimo para Fernando Pessoa. “Desses eu não me ‘desfaço’. Tem livros que são como documentos originais. Guardo também aqueles de amigos autores que escreveram dedicatórias para mim, é salutar. Recordar é viver”, afirma.

Daniel Queiroz/ND

Documentos. Antônio Ribeiro, do Armazém do Livro, guarda obras com dedicatórias de Virgílio Várzea e de Fernando Pessoa

Ivete Berri, 59, do sebo Dona Ivete, no Centro da Capital, garante que os livros com dedicatórias têm mais valor que aqueles que não têm. Ela conta que, inclusive, há pessoas que procuram por elas nas obras: “Tem gente que valoriza a dedicatória alheia”, observa.  Na sua experiência a maioria das mensagens compartilhadas trazem teor amoroso ou de amizade: “tem algumas que são bonitas de ler”, diz

A poeta e escritora Priscila Lopes, 32, é uma das leitoras que tem o costume de buscar nos sebos os livros com dedicatórias. A autora brasiliense, radicada em Florianópolis, guarda todos os livros de amigos e colegas: “tenho inclusive uma preferida, escrita por uma pessoa especial em um livro do Caio Fernando Abreu. Sempre que adquiro livros usados, dou importância à dedicatória. A dedicatória é como um conto breve, são sempre instigantes, contam histórias significativas que podem servir de inspiração”, confirma a contista Pri Lopes, que já tem dois livros publicados.

Daniel Queiroz/ND

Escritos. Ivete Berri gosta de ler as dedicatórias que chegam ao seu sebo, especialmente as amorosas


Lembranças que vão e voltam
O escritor e professor Sérgio Medeiros, 56,  guarda lembrança de uma história curiosa que passou com o filho Bruno Napoleão, 12. “Em 2006 levamos o Bruno em uma exposição do artista Tunga, “Laminadas Almas”, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. A obra escura, cheia de formas ameaçadoras, deixou o nosso filho assustado, que chegou a sair correndo. Em 2008 mandei um livro meu para Tunga contando a história, e ele me respondeu mandando seu livro com uma dedicatória especial para nós dois, eu e Bruno”, conta o autor e tradutor Sérgio Medeiros.

A mulher de Sérgio, Dirce Waltrick, 46, tradutora e também professora, afirma que sempre que compra livros em sebos com dedicatórias para pessoas com nome e sobrenome, e busca pesquisar sobre a pessoa a quem o livro foi oferecido na internet: “às vezes descubro histórias curiosas, uma vez pesquisei o nome de um homem e descobri que ele era um soldado que tinha morrido na Guerra do Vietnã”, relembra Dirce.

Eduardo Valente/ND

Palavras especiais. Sérgio Medeiros Bruno e Dirce, história em família rendeu uma dedicatória do artista Tunga

A tradutora Luciana Rassier, 42, lembra uma história envolvendo dedicatórias de livro: certa vez ela ganhou um livro em Paris que tinha uma dedicatória escrita por Salim Miguel, e anos depois se tornou tradutora do autor para o francês. “Foi extraordinário, o livro retornou para Florianópolis mais de 50 anos depois de o Salim ter o enviado para Portugal, com dedicatória ao crítico português Manuel Pinto escrita em 1951”, conta a professora, que atualmente cursa pós-doutorado sobre a obra de Salim Miguel na França.

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