Doraci Girrulat ministra palestra no Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis

Artista de Rio do Sul foi pioneira da arte contemporânea em Santa Catarina

Doraci Girrulat está desde 2008 sem expor em Santa Catarina. A última vez foi na exposição-homenagem no 10º Salão Nacional Victor Meirelles. Sua despedida das salas de aula foi em 1998, quando se aposentou na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). Morando atualmente no Chile, uma rara oportunidade para revê-la e ver onde suas reflexões e pesquisas – que não são poucas – a levaram acontece nesta segunda-feira (9), quando a artista promove uma palestra no Mesc (Museu da Escola Catarinense), na Capital.

Flávio Tin/ND

A artista mora atualmente no Chile e não pretende voltar às salas de aula

Nascida em Rio do Sul e formada pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo, Doraci teve um papel de pioneirismo na introdução da arte contemporânea em Santa Catarina nos anos 1980. De volta de São Paulo e do Chile, onde tinha morado e participado do circuito, como do Instituto Cultural do Chile, Doraci se deparou aqui no Estado com uma arte que não tinha frescor, autenticidade. Estava presa ao bidimensional. “Eram artistas que pintavam bem, mas eram florzinhas”, relembra. Na direção da Acap (Associação Catarinense de Artistas Plásticos), a convite de Janga, (João Otávio Neves Filho), e seguida por uma boa geração de artistas, integrantes do conselho da mesma entidade, como Max Moura, Lena Peixer, Flávia Fernandes e Loro, movimenta a agenda de exposição e principalmente, de curadoria e de olhar, promovendo uma renovação e atualização do fazer artístico da cidade.

Ela que tinha convivido com artistas como Hélio Oiticica, Lygia Pape, em suas andanças artísticas nos anos de estudo e de produção em São Paulo, sempre articulou conceitos complexos (como arte, ciência, matemática, teorias cósmicas, teorias da informação), entrou na Udesc munida de suas ideias e ali também formou uma geração de artistas nos anos 1990. No seu percurso também há uma grande depressão, que ela atribui a muitos fatores, inclusive a uma intoxicação por tintas e materiais que usava em sala de aula e em sua produção. Hoje, de bem consigo, Doraci avança em seus estudos e antecipa só um pouco do que está em maturação: tem a ver com a eliminação máxima do suporte matérico e do fazer artesanal.

Entrevista

O que você está produzindo?

Sim, estou produzindo. Estou terminando um grande ciclo de retroalimentação. Escrevo muito e faço esboços de projetos. Nunca antes meu traço foi tão solto e meu pensamento tão brincalhão e criativo como agora. Não creio que grandes obras sejam passíveis de acontecer no trabalho ininterrupto e até autofágico. Pode conduzir o artista às obsessões e ficar preso dentro de si mesmo. Tempos de atualização ou pausas para uma “alimentação” no sentido de aprimoramento de técnicas e temáticas são necessárias. Newton não teria elaborado sua Lei da Gravidade Universal se não se desse o tempo para ir ao campo e recostado no tronco de uma árvore visse a maçã cair.

Você teve uma depressão grande, relacionada a um ambiente hostil à sua volta, somado a uma intoxicação com tintas e materiais que usava em sala de aula e na sua própria produção. Como você conseguiu revirar isso e voltar tão bem e produtiva?
Medicina ortomolecular e medicina biológica alemã (com esta segunda, continuo em tratamento intenso). Também fiz um tratamento com um psicólogo chileno, mestrado abordando a interdependência entre psicologia e as teorias da física quântica e da matemática do caos. Justamente minha área de interesse maior. Anoto aqui, que o tratamento psiquiátrico que realizei durante 16 anos foi um erro crasso. Não pelo profissional que me atendeu, mas pela minha decisão e minha insistência em segui-lo. Muitas pessoas me conheceram neste período e formaram um conceito sobre mim completamente errôneo. Mas sonhei, como sonhei! E vi muito! Além mesmo da consistência dos corpos. Vi profundezas e superfícies. Fiz seleção de poeira. Outro projeto a revelar.

Você teve um papel fundamental no ensino das artes na Udesc e na formação de muitos artistas. Você sente vontade de estar em sala de aula?
Dar aulas para mim (como assim advogava Joseph Beuys) é uma modalidade do fazer artístico. Este ciclo encerrou. Tento agora realizar esta atividade, não mais como projeto, mas como pequenas obras em forma de palestra. Como performance, na qual só a estrutura básica é previamente definida.

Seguir você no Facebook é por demais interessante. Todo dia você mostra novos artistas, trabalhos pelo mundo. Como é sua pesquisa nessa mídia, que imagino ser hoje uma base de seu processo?
Muitas obras minhas partem de meus sonhos (é tão conhecido isto, que já se tornou narrativa de outros artistas que me ouviram comentar). No entanto, a maioria de meus insigths provêem do meio em que me encontro. Sim, tive um gigante insight durante estes 30 meses de Facebook. Haverá uma guinada forte em minha obra. Por outro lado, como obra menos comprometida com um avant-garde, estive em contato com uma grande artista, que provavelmente será minha orientadora no suporte em que ela trabalha.

Sobre o Monumento à Colonização Açoriana, por que ele nunca foi executado?
Porque a Fundação (Prometheus Libertus). que se comprometeu em arrecadar os recursos para sua execução, lavou as mãos, e apoiada por outra instituição involucrada, me apontaram como uma “louca” por ter apresentado um projeto cuja elaboração ia muito além do valor do prêmio. Este fato somado a outro, que duplicou a surrealidade de toda uma situação (uma sabotagem da disciplina de escultura, legitimadamente minha, no semestre anterior) culminou na horrível depressão consequente.

Você teve um convívio com grandes artistas do país, como o Helio Oiticica, Lygia Pape, entre outros. Como foram esses encontros?
Oh! Gênios são doces, agradáveis, felizes em sua densidade que compartilham com uma generosidade surpreendente. Foram momentos de delicadas experiências fenomenológicas.

Você já disse que se considera uma artista experimental. Ainda se define assim?
Sempre! Ser experimental não quer dizer precário. É a mais difícil decisão de um artista. Cada obra é um desafio. Um rompimento com o já apreendido ou conhecido. Técnicas e conhecimentos se inventam, quando assim se é. A necessidade de romper com os conceitos de estilo é fundamental. E para isto é impossível atender às necessidades de reconhecimento imediato que o mercado exige.

Você é contra mercantilizar as obras de arte?
Em absoluto. Não sou contra. Sou a favor do mercado comprometido não só com o produto, mas também com o seu produtor. Uma relação ética profissional é o que minimamente se pede ao mercado da arte. Contratos, pagamentos e todos os mecanismos normais de mercado devem ser seguidos igualmente nesta área comercial. É preciso que o mercado local se converta em uma relação econômica respeitável. Atrasos, falta de contratos claros e condições ou pagamentos para expor em tal parte devem ser eliminados.

Serviço:

Palestra com Doraci Girrulat

Quando: 9/2, 19h
Onde: Museu da Escola Catarinense, rua Saldanha Marinha, 196, Centro, Florianópolis
Quanto: R$ 5

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Diversão

Loading...