Entrevista: Ida Maria Freire a dança na sua vida como sacerdócio

Escritora, especializada e crítica no assunto que é sua paixão : a dança

A melhor descrição de Ida Mara Freire é o seu sorriso. Sempre com alegria, seriedade e disciplina, ela compreende que a vida é coisa séria, e não perde tempo. “A criação no lugar da falta”, sentencia com sabedoria. Assim o 10º Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea justifica a escolha da homenageada do ano, que ganhará um troféu em reconhecimento à sua contribuição no contexto da dança de Santa Catarina. Escritora, educadora, dançarina, diretora, pesquisadora, crítica de dança no jornal Notícias do Dia, no qual escreve desde 2009. Com graduação, especialização, mestrado, doutorado, pósdoutorado em diferentes áreas, como a educação, a psicologia e a dança, ela anda pelo mundo certa de que mais do que os títulos conquistados na academia, o que vale mesmo é o refinamento no trato das questões humanas. Aliás, o tema desta conversa transita nos fazeres da entrevistada. 

Ida Maria Freire - Mara Rubia Nonnenmacher
Ida Maria Freire – Mara Rubia Nonnenmacher

A dança na sua vida

Um pedido do corpo para sair da estagnação, cultivar a flexibilidade, o lúdico, outros modos de mover-se no fluxo criativo da vida.

Atuação como crítica

Uma consequência da atitude rigorosa de observação desenvolvida enquanto pesquisadora, acompanhada por uma disposição para elaborar questões, e um amor à literatura, adoro ler e depois disso, ficcionar poeticamente a realidade. O curso de pós-graduação em dança cênica, coordenado por Sandra Meyer Nunes na Udesc plantou a semente. Sou muito grata. Muito aprendi com a participação em uma conferência da Associação de Críticos de Dança em Nova York. E tempos em tempos, faço cursos de escrita, continuo estudando e lendo sobre dança, indo aos espetáculos e, principalmente, dançando.

Crítica no jornal

De um lado, a vivência e a escuta atenta dos artistas, criando trabalhos densos, complexos, profundos em alguns momentos solitariamente; do outro lado, o público com suas dúvidas, querendo compreender, apreciar. É difícil apreciar algo que não se compreende. Então, em conversas com artistas durante o processo, e uma escuta atenta das falas do espectador antes, durante e depois do espetáculo, comecei a perceber que havia um espaço entre elas e que a crítica poderia servir como ponte.  A proposta foi feita à editora do Plural, na época, a jornalista Néri Pedroso, que aceitou prontamente, e desde 2009, a comunidade da dança da Grande Florianópolis tem tido esse espaço de visibilidade, hoje com a edição de Dariene Pasternak.

Palavra dançada

Após o estágio de pós-doutorado em dança, na África do Sul, comecei escrever um texto para o concurso Mulheres Negras Contam Sua História. Com a memória ainda viva e fresca das experiências sul-africanas, onde as performances envolvem quatro aspectos: uma estória a ser contada, uma vida a ser dançada, uma canção a ser cantada e, por fim, o sagrado. Comecei a escrever, dançar e escrever e fui percebendo que ao dançar algumas palavras ficavam mais nítidas, mais precisas, seja na descrição de um movimento, ao descrever uma memória corporal. Outras vezes, era o oposto, a escrita exigia um gesto para além das palavras… E assim, o texto Tecelãs da Existência, também é dançado, e assim surgiu a Palavra Dançada.

Quem não vê

Minha interlocução com as pessoas com cegueira começou quando me mudei para Florianópolis, em 1992, com a ACIC (Associação Catarinense para Integração do Cego), localizada na rua Padre Roma. Então, havia muitas pessoas com cegueira caminhando pelo centro da cidade. Em observação, logo as perguntas vieram. E uma delas é como uma pessoa com cegueira pode apreciar a dança? Tenho ensaiado várias respostas para a questão.

Negritude e militância

“Deve ser legal, ser negão no Senegal”, diz o refrão da canção. Uma das sutilezas mais sublime da diferença que uma pessoa negra, ou de outro grupo étnico, pode vivenciar é quando ela se encontra na condição de estrangeira e consegue distinguir, que a razão que ela está sendo discriminada, não é pela cor da pele. E aí, a filósofa Hannah Arendt, judia-alemã, tem muito a ensinar sobre os processos de reconciliação que começam dentro de nós e, depois, com o mundo. A compreensão, esse processo que começa com o nascimento e termina com a morte, nos ajuda a estar à vontade num mundo, que permaneceremos estranhas a ele. E assim, busco atualizar minha liberdade na condição de ser uma mulher negra num mundo hostil às diferenças, essa é a minha militância.

Meditação

A meditação é um dos momentos que torna a experiência de amor real para mim. Gosto de perceber Deus como um oceano de amor, como aprendi com Rubem Alves. 

RAIO-X NASCIDA EM PRESIDENTE PRUDENTE (SP), SIGNO TOURO, DIVORCIADA, MÃE DE KAMILE HANNAH FREIRE

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