Ilustres Ilhéus: há 10 anos morreram os jornalistas Miro e Aldírio Simões

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“Boa pinta”, como era visto, Miro era brincalhão e tinha uma sutileza na forma de olhar e escrever sobre a cidade e sobre o ilhéu

Dois grandes profissionais saíram das páginas dos jornais e da televisão para entrar para a história de Florianópolis há 10 anos. O colunista do jornal “O Estado” Cláudio Silva, conhecido como Miro, morreu no dia 19 de janeiro de 2004, de câncer no fígado.  Aldírio Simões, que apresentava o programa Bar do Mané, morreu três dias depois. Os dois acompanharam as grandes metamorfoses pelas quais Florianópolis passou nas últimas décadas. Era uma cidade quase sem carros e sem televisão na década de 50. Com a inauguração da Universidade Federal de Santa Catarina, em 1960, e a vinda de muita gente de fora para a cidade, tornou-se uma cidade cosmopolita e cada vez maior. Miro e Aldírio viviam a cidade intensamente.

 
“Não era colunismo social cheio de não-me-toques. Ele entrevistava as madames da cidade mas também circulava nas escolas de samba, se tivesse samba ele tocava timba, se fosse sertanejo ele cantava Leandro e Leonardo, ele adorava aquela música “Desculpe, mas eu vou chorar”, às vezes a gente senta junto na mesa e sente que está faltando ele para cantar essa música”, conta o jornalista Ricardinho Machado, que conheceu os dois.
 
Ricardinho e Miro foram cunhados, mas muito antes disso já era amigos. Se conheceram quando tinham por volta de 12 ou 13 anos.
 
“Miro era uma figura doce, sempre muito legal. A gente fazia parte da turma do Kioski e da chácara – tinha muito isso de turmas naquela época. Ele era muito boa pinta e conhecia tanta gente que virou colunista. Era bem informado, circulava por tudo que era lugar”, relembra Ricardinho. Para ele o mar e a praia da Joaquina era duas grandes paixões de Miro.
 
João Carlos Mendonça também tem boas recordações de Miro.
 
“Trabalhei quase 10 anos com o Miro no “O Estado”, ele foi um grande parceiro. A primeira gravata que eu usei foi ele que me emprestou. Ele me levou até a casa dele, abriu o armário e falou para eu escolher, me emprestou uma para um casamento que eu tinha e depois me deu duas de presente. Eu uso essas gravatas até hoje porque ele só usava coisa de qualidade”, afirma João Carlos.
 
Muito brincalhão, Miro ficou na memória do amigo com as brincadeiras com músicas bregas e com o hábito de entrar na redação cantando música sertaneja.
 
A escritora Lélia Nunes, que faz parte da Academia Catarinense de Letras, se lembra que a coluna de Miro refletia sua personalidade.
“A coluna do Miro no “O Estado” era cheia de picardia, bom humor e sutilezas tão próprias do ilhéu ao fazer registros preciosos do cotidiano da cidade e de sua gente. Ao mesmo tempo, ele sabia ter uma voz forte e combativa na defesa de Florianópolis e das belezas naturais da Ilha. Sempre atento aos desmandos públicos, com frontalidade, denunciava os problemas urbanos e cobrava soluções”, lembra Lélia.

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Aldírio Simões resgatou e reinventou o orgulho mané

 
 

O homem do Mercado Público e das escolas de samba
 
Não há quem se lembre de Aldírio Simões sem comentar que ele estava sempre no Mercado Público e que tinha uma ligação profunda com o samba em Florianópolis.
 
“Saudades. O Aldírio faz falta, era um cara insubstituível. Falar do Mercado Público ou do Bloco dos Sujos quando a gente fala dele é até redundante porque ele sempre estava lá”, diz João Carlos Mendonça. “Tenho lembranças muito fortes, tenho até hoje o troféu Manezinho da Ilha, que recebi em 2002”.
A criação do Troféu Manezinho da Ilha, o programa Bar Fala Mané e a atuação de Aldírio na Fundação Franklin Cascaes, onde foi superintendente, e na Fundação Catarinense de Cultura (1994) são exemplos do resgate cultural que ele promoveu com relação à cultura açoriana e ilhéu.
 
“O Aldírio veio formatar um desejo nosso de preservar a cultura do ilhéu numa época em que tinha muita gente de fora vindo para cá. Além disso ele promovia a integração do ilhéu do interior da ilha, do pescador, do povo do morro, com o ilhéu urbano. Ele foi um ícone da preservação cultural. Ia na onda do Franklin Cascaes e também era vizinho do poeta Zininho”, afirma Ricardinho Machado.
 
Um dos quatro filhos de Aldírio, Sione Márcio de Jesus acompanhou a criação e popularização do troféu.
 
“O que eu mais me lembro é o respeito que ele tinha não só pela cidade mas pelas pessoas e pela cultura daqui. Quando ele criou o Troféu Manezinho da Ilha ninguém queria, tinha uma carga pejorativa associada com a palavra “manezinho”. Então ele ligou para amigos dele e pediu para que eles aceitassem o troféu. Depois isso foi mudando, as pessoas passaram a querer o troféu e inclusive a fazer lobby para receber a homenagem. Ligava, pediam, insistiam. O que realmente virou o jogo foi o Guga ganhar em Rolland Garros e vender a ideia de que ele é manezinho dentro e fora do país”, conta Sione.
 
Um dos homenageados com o troféu foi João Carlos Mendonça dos Santos.
“Tenho até hoje o troféu Manezinho da Ilha, que recebi em 2002”, orgulha-se.|
 
“Eu e o Aldírio fomos amigos por mais de 20 anos, ele simbolizava o estilo florianopolitano de ser. Valorizava muito nossa cultura e nossos costumes. Era um homem do samba, tinha uma relação muito íntima com a cidade e as pessoas daqui e recebia também muito bem as pessoas de fora”, afirma Carlos Damião.“Ele não era só meu pai, perdi meu pai, amigo, chefe, porque eu fazia a produção do Bar Fala Mané, e um ídolo, porque eu admiro muito meu pai. Ele perdeu o pai com 11 anos, trabalhou em supermercado, ajudou a criar os irmãos mais novos e conseguiu vencer na vida”, resume Sione. 

 

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