Legrand teve o ápice na parceria com Jacques Demy

Não se pode, é claro, resumir a trajetória de Michel Legrand, morto no sábado aos 86 anos, à sua parceria com o cineasta Jacques Demy. Mas talvez seja justo dizer que, em sua imensa carreira, os dois filmes feitos em parceria com Demy serão sua melhor lembrança e seu legado mais querido.

De fato, em Os Guarda-Chuvas do Amor (1964) e Duas Garotas Românticas (1967), Legrand não se limita a fazer uma trilha sonora para compor as imagens; é, de todo direito, coautor das obras. Ambos são dois musicais autênticos, por assim dizer. Não se trata de a música ter presença muito grande. Vão além: a música constitui o próprio cerne do filme, entrando como substância nos diálogos cantados. Nesse sentido, esses musicais “autênticos” seriam, no século 20, os legítimos continuadores da grande arte do século 19, a ópera.

Os dois filmes são estupendos – mesmo para quem, de hábito, não curte musicais. Há uma peculiaridade em Guarda-Chuvas do Amor (Les Parapluies de Cherbourg). É construído de maneira não escapista, conduzindo a trama pela via do melodrama, mas não de maneira chantagista. A trilha de Legrand – belíssima – dá forma à história de Geneviève Emery (Catherine Deneuve), cujo grande amor, o mecânico Guy (Nino Castelnuovo) é obrigado a ir para a guerra. Na ausência do amado, Geneviève se descobre grávida e aceita o pedido de casamento de um rico joalheiro da cidade. Mesmo quem costuma se conter diante de um melodrama não consegue ficar indiferente. A boa música, se sabe, conhece atalhos que levam diretamente à emoção. Os Guarda-Chuvas do Amor ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1964. No mesmo festival, dividiu o prêmio do Ocic (o Ofício Católico), sabe com que filme? Com Vidas Secas, do nosso Nelson Pereira dos Santos.

Costuma-se dizer que Guarda-Chuvas do Amor faz par com Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort). Verdade. Se no primeiro a exuberância da forma, tanto fotográfica como musical, às vezes contrasta com a melancolia do tema, no segundo o que se celebra é uma espécie de exuberância da vida, da alegria pura e primordial. A vivacidade das cores e da música, a beleza e felicidade juvenil das irmãs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac são capazes de enlevar o mais ranheta dos espectadores.

Legrand já era músico completo e reconhecido quando fez sua primeira colaboração com Jacques Demy, no hoje pouco lembrado Lola, a Flor Proibida, de 1961. Nascido em Paris em 1932, era filho do músico Raymond Legrand. Prodígio, aos 10 anos entrou para o Conservatório de Paris para estudar piano e composição. Foi aluno de uma professora célebre da época, Nadia Boulanger. Apesar da formação clássica, o jovem Legrand tinha vocação eclética. Além do piano, aprendeu a tocar trompete e trombone. Amava Schubert, mas ficou encantado com a descoberta do jazz, feita numa exibição de Dizzy Gillespie na Sala Pleyel. Essa versatilidade, aliada ao domínio técnico da arte e sua inspiração melódica, o conduziram inevitavelmente para a cena internacional.

Daí ter se tornado vencedor de três Oscars. O primeiro com The Windmills of Your Mind, trilha de Crown, o Magnífico, de Norman Jewison, em 1969. O segundo, por Houve uma Vez um Verão, de Robert Mulligan (1971) e o terceiro por Yentl (1984), de Barbra Streisand. Obteve também 27 indicações para o Grammy, sendo vencedor em cinco ocasiões.

Legrand teve carreira extensa, variada e premiada. Não tinha preconceitos de gêneros. Fez trilhas para cerca de 150 filmes. Trabalhou com grandes nomes do cinema além de Demy, como Orson Welles (Verdades e Mentiras), Agnès Varda (Cléo das 5 às 7), Jean-Luc Godard (Viver a Vida), Joseph Losey (O Mensageiro). Tocou e gravou com gênios como Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans. Vida musical completa.

Era forte em vários sentidos, como maestro, arranjador, compositor. Duas de suas músicas premiadas, além das trilhas de Guarda-Chuvas do Amor e Duas Garotas Românticas, podem desvendar aquela que é talvez sua característica mais marcante – a de melodista muito inspirado. Por exemplo, as linhas melódicas de The Windmills of Your Mind e Summer of ’42 são de dar nó na garganta, com seu traço romântico porém tinto por uma estranha melancolia. Não foi artista de ruptura – sua divisa era a de Jean Cocteau, “Le tacte dans l’audace”, tato na audácia, para saber até que ponto ir. Foi um dos grandes. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

(Luiz Zanin Oricchio, São Paulo)

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