“Não sou uma fruta rara” diz a escritora Conceição Evaristo sobre negras na literatura

Em passagem pela Capital, no Congresso Mundos de Mulheres, autora mineira que brilhou também na Flip enfatiza que não faltam negras na literatura, falta espaço

Conceição Evaristo esteve na UFSC, no Congresso Mundos de Mulheres - Daniel Queiroz/ND
Conceição Evaristo esteve na UFSC, no Congresso Mundos de Mulheres – Daniel Queiroz/ND

A sala estava apertada, quente. Havia gente sentada até no palco. Os fotógrafos não conseguiam transitar livremente. Escolhiam um ponto fixo e assim permaneciam. Muita gente questionava a escolha do lugar. O auditório Henrique Fontes, encravado no Centro de Comunicação e Expressão da UFSC, foi pequeno para receber a estrela do dia, Conceição Evaristo. Pessoas se amontoavam ao lado de fora. O zumzum “o que ela disse?” não cessava. Assim como as selfies. Conceição disse que desde a Flip, onde foi ovacionada ao lado de Dona Diva, virou a top model da terceira idade. Caprichava nas poses.

Com tanto reconhecimento do público é de estranhar que para conseguir a obra de Conceição seja preciso recorrer a sebos. As grandes livrarias têm no máximo dois títulos, dos seis que a autora publicou.  Para se ter ideia, as mesmas editoras têm mais de 20 títulos de Jorge Amado. Qual a diferença entre eles? A resposta é simples. A raça e o gênero.

A ausência dos negros vai além dos eventos literários. “Olhos d’água”, lançado em 2014, pela Pallas, foi o primeiro livro de Conceição cuja tiragem ela não precisou bancar porque contou com o apoio de um edital governamental.

Mas seu primeiro livro editado sem custos é do ano passado. Os contos “Histórias de leves enganos e parecenças”, publicados pela Malê.

Restritas as valentes pequenas editoras, as escritoras negras nem sempre chegam ao grande público. Assim como as tiragens pequenas desaparecem do mercado. Segundo o livro de Regina Dalcastagné em “Literatura Brasleira Comparada – Um Território Contestado”, de 2012, em média apenas 6% dos autores negros brasileiros vão parar nas livrarias.

E se dessa porcentagem minguada filtrássemos as mulheres? Sobraria a resistência.

“Normalmente, as negras são citadas por serem boas cozinheiras, boas lavadeiras, boas de cama. E em alguns casos, boas de canto e de dança. Não quero ser vista pelo inusitado: uma mulher negra que escreve. Não sou uma fruta rara. Quero quebrar a imagem que negras não têm competência para escrita, por isso sou uma exceção. Tampouco, acredito que é preciso nascer em uma classe privilegiada para se ter talento, por isso gosto de dizer que nasci rodeada de palavras, não de livros”, disse Conceição.

Para ela, não faltam negras na literatura. Falta espaço. Rapidamente, Conceição puxou da memória uma lista de autoras que considera talentosa, mas são praticamente desconhecidas.

Entre elas, Maria Firmina dos Reis. A maranhense mulata, pobre e bastarda, que em 1859, em pleno Brasil escravocrata publicou “Úrsula” defendendo ideais abolicionistas.

“Quantas pessoas leram na escola José de Alencar e quantas leram Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira?”, provocou Conceição.

No limbo das heroínas

Pudera, Maria Firmina estava no limbo das heroínas brasileiras até ser resgatada por Zahidé Muzart, professora da UFSC, que em 1996 criou a Editora Mulheres, com o objetivo de ressuscitar as escritoras do passado, as esquecidas, as invisibilizadas.

Foi para falar de Zahidé que Conceição foi a UFSC, no dia 4 de agosto, na programação de fechamento de um dos maiores eventos feministas do mundo, o Seminário Internacional Fazendo Gênero, na sua a 11ª edição, e o 13º Congresso Mundos de Mulheres, que reuniu mais de 10 mil pessoas de todos os continentes na universidade.

 “Zahideanas: a força das publicações feministas e a Editora Mulheres”, contou também com a presença da professora Tânia Ramos, da UFSC, da jornalista do Portal Catarinas, Paula Guimarães, da pesquisadora Constância Lima Duarte, da UFMG, e da pesquisadora e parceira de Zahidé na criação da Editora Mulheres, Susana Bornéo Funck.

Mulheres diversas com propósitos em comuns. O fortalecimento do feminismo. “Os grupos subalternizados quando dialogam e criam estratégias conjuntas de sobrevivência se fortalecem mutualmente. Foi o que aconteceu com as pesquisadoras brancas feministas da Editora Mulheres quando decidiram publicar as escritoras negras”, disse Conceição.

Zahidé Muzart, que fundou a editora Mulheres, e publicou autoras mulheres - Gil Konnell/Divulgação/ND
Zahidé Muzart, que fundou a editora Mulheres, e publicou autoras mulheres – Gil Konnell/Divulgação/ND

Editora Mulheres, duas décadas de história

Zahidé Muzart era a Editora Mulheres. Ela editou e diagramou mais de cem livros. Coletâneas de artigos, ensaios, obras de pesquisadoras, antologias e romances. Quando se aposentou da UFSC, aproveitou o tempo livre para trabalhar ainda mais.  Coordenava oito trabalhos acadêmicos e preparava a publicação de três livros quando morreu, em 2015. A Editora sobreviveu apenas um ano sem a sua dedicação. Nessas duas décadas de vida, ela formou um dos maiores grupos de pesquisadoras de literatura do Brasil.

A proposta editorial da Mulheres foi criada em 1995 ao lado de Susana Funck e Elvira Sponholz. No ano seguinte, a Editora publicou o seu primeiro livro, “Mulheres Illustres do Brazil”, escrito em 1899 por Inês Sabino, a obra reúne várias escritoras da época.

A intenção da empresa era a de resgatar, reeditar e colocar em circulação obras literárias produzidas por mulheres que, por razões históricas e ideológicas, haviam sido excluídas do cânone. Todas as edições seguiam a mesma metodologia: um aprofundado estudo técnico, a cronologia da vida e obra da autora e a bibliografia sobre a autora.

A professora Tânia Ramos, titular e coordenadora do núcleo Literatura e Memória da UFSC, que era amiga da Zahidé, conta que as edições eram impecáveis. “A Editora Mulheres foi um marco. O século 19 não existiria na história das mulheres se não fosse o seu trabalho. O pensamento crítico-feminista se solidificou com o investimento pessoal, afetivo e econômico dela”, disse.

Diferente das editoras feministas americanas e europeias que contavam com o respaldo das universidades, a Mulheres teve uma luta mais solitária. 

Entre os trabalhos de resgate lançados pela Editora estão os romances de Maria Firmina dos Reis (1825-1917), Carmen Dolores (1852-1910), Inês Sabino (1853-1911), Maria Benedita Bormann (1853-1895) e Emília Freitas (1855-1908). De Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), considerada a mais importante escritora brasileira do século 19, foram editados dez livros.

Outra obra da Editora Mulheres que tem grande repercussão são os três volumes da antologia Escritoras brasileiras do século 19. Com cerca de mil páginas cada um, a obra resgata cerca de 160 autoras que foram esquecidas ou apagadas das histórias de literatura.

Para Susana “a história literária tem historicamente privilegiado os homens, geralmente brancos de classe média, que conquistaram lugar nas antologias, tendo suas obras perpetuadas. Resgatar uma escritora significa corrigir o viés ideológico de uma tradição”.

Desejos em ideias concretas

No Brasil, a única inspiração para a Mulheres era a Editora Rosa dos Tempos, fundada em 1990 pela escritora Rose Marie Muraro e a atriz Ruth Escobar. Porém, elas não trabalhavam com o resgate da memória. No mundo, os exemplos eram mais fartos, como a Des Femmes, na França, a Un cuarto propio, no Chile, e a Virago, na Inglaterra.

Como disse Conceição Evaristo, que foi editada pela Mulheres, “Zahidé tinha uma impressionante capacidade de transformar desejos em ações concretas”.

Além da Editora Mulheres, Zahidé foi uma das idealizadoras do Seminário Fazendo Gênero, participando ativamente de todos os encontros organizados pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura. Ela também participava da coordenação do Instituto de Estudos de Gênero da UFSC e de duas editorias da Revista Estudos Feministas.

“Eu me surpreendo quando as pessoas classificam pejorativamente ‘conversa de mulher’ ou ‘conversa de comadre’. Mulher fala sério. Veja o tamanho de obra que nasceu desses diálogos”, comentou Conceição.

E, para finalizar, ainda instigou que jovens pesquisadoras resgatem o trabalho de Zahidé e lancem a Editora Outras Mulheres.

Conceição Evaristo é doutora e autora de seis obras, uma delas premiada com o Jabuti - Daniel Queiroz/ND
Conceição Evaristo é doutora e autora de seis obras, uma delas premiada com o Jabuti – Daniel Queiroz/ND

A herdeira de Carolina

Conceição Evaristo nasceu há 70 anos em uma família de mulheres negras cozinheiras, faxineiras e empregadas domésticas.  Viveu na miséria ao lado de nove irmãos na favela do Pendura Saia, encravada no alto da Avenida Afonso Pena, em uma área nobre de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Ela ainda lembra do impacto ao ler “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, na universidade. Ela também tinha um diário de angústias.

“Muitos me apontam como a herdeira de Carolina e isso me honra”, disse.

Honra, mas também revolta. “A diferença da crítica é gritante. Quando Guimarães Rosa cria palavras é neologismo, quando Carolina cria palavras é erro. Quando Clarice Lispector escreve são perceptíveis os seus dramas existenciais, a solidão. Quando Carolina escreve só há o drama material, a falta de sapato e de comida. Querem roubar a sua grandeza. A pulsão de vida e morte. Na escrita, ela apaziguou a dor”.

Por essas desigualdades, Conceição afirma que a “literatura para as negras é uma forma de vingança pelo silêncio imposto”.

Na sua vida ela não recebeu nada de graça. Trabalhou como babá, faxineira e vendedora de revistas, sem nunca parar de estudar, queria ser professora.

No início da década de 1970, formada, não conseguiu emprego em Belo Horizonte. Ela precisava de um “quem indica” e as famílias de literatos para os quais a mãe trabalhava, como Alaíde Lisboa de Oliveira, Henriqueta Lisboa e Otto Lara Rezende, não fariam isso. Então, ela foi para o Rio de Janeiro prestar concurso público.

Fez carreira como professora do fundamental. Mais tarde, cursou Letras na federal do Rio de Janeiro, fez especialização em Literatura na Uerj. Nos anos 1990, formou-se mestre em Literatura na PUC-Rio. E, há três anos, terminou o doutorado em Literatura Comparada na UFF, após enfrentar uma isquemia.

Expressões da cultura negra

Quase não teve colegas negras ao seu lado. E era sempre a mais velha da sala. Seu primeiro romance Ponciá Vivêncio foi publicado aos 56 anos, em 2003.

Na sua obra, foge dos estereótipos. Busca, por meio da técnica, aproximar o texto escrito do oral, das heranças africanas, dos encantamentos. Usa livremente expressões das culturas Bantu e do português arcaico, comuns do interior de Minas.

Com a mãe, que tem 95 anos, aprendeu os processos de ficcionalização.

“Ele pegava revistas velhas apontava uma pessoa e perguntava, ‘que cara feia, você acha que ele está triste, que o sapato está apertado?’ O mesmo fazia com as bruxas de pano, enquanto costurava tecia histórias”, contou.

Suas histórias nascem de muitas escutas, no ônibus, na rua, nas filas, nos relatos de injustiças sociais. São acontecimentos do cotidiano. Uma ficção impregnada de vivência, ou como melhor define, uma “escrevivência”.

17 autoras negras indicadas por Conceição Evaristo

Conceição Evaristo puxou da memória dezessete autoras negras para indicar ao Caderno Plural

  1. Carolina Maria de Jesus, “Quarto de Despejo”, “Casa de Alvenaria”, “Pedaços de Fome”;
  2. Ana Maria Gonçalves, “Um Defeito de Cor”;
  3. Maria Firmina dos Reis, “Úrsula”;
  4. Geni Guimarães, “A Cor da Ternura” e “Lei do Peito”
  5. Lia Vieira, “Chica da Silva – A Mulher que Inventou o Mar” e “Só as Mulheres Sangram”
  6. Lívia Maria Natália de Souza, “Água Negra”
  7. Elisandra Souza, “Águas de Cabaça”
  8. Mel Ádun, “A Lua Cheia de Vento”
  9. Ana Cruz, “Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas”
  10. Raquel Almeida, “Duas Gerações Sobrevivendo no Gueto”
  11. Jenyffer Nascimento, “Terra Fértil”
  12. Alzira Rufino, “Eu, Mulher Negra, Resisto”
  13. Cidinha da Silva, “Sobre-viventes!”
  14. Bianca Santana, “Quando Me Descobri Negra”
  15. Esmeralda Ribeiro, “Malungos e Milongas”
  16. Ana Paula Maia, “A Saga dos Brutos”
  17. Kiusam de Oliveira, “O Mundo no Black Power de Tayó”

Obras de Conceição Evaristo

Ponciá Vicêncio (2003)

Becos da Memória (2006)

Poemas da recordação e outros movimentos (2008)

Insubmissas lágrimas de mulheres (2011)

Olhos d`água (2014)

Histórias de leves enganos e parecenças (2016)

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