Cacau Menezes

Apaixonado pela sua cidade, por Santa Catarina, pelo seu país e pela sua profissão. São 45 anos, sete dias por semana, 24 horas por dia dedicados ao jornalismo


Nossos melhores momentos de província civilizada

Muito jovem , este simpático Manezinho …. Fez uma coletânea bastante detalhada dos pontos altos de sua geração. Mas outras gerações, antes , viveram uma Florianópolis ainda mais romântica e saudosa , que nosso Manezinho não pôde vivenciar.
Não conheceu o “Dançando na Colina” (Lira) , de todo domingo, das 13:30 às 20 horas , de onde se esticava no “Encontro dos Brotinhos” , no Doze da Rua João Pinto .Terminada a maratona , ia-se tranquilamente à pé pelas ruas , em grupinhos de amigos , namorados ou pretendentes .
Não andou de carrinho de cavalo , cujo ponto era na Praça XV , nem pegou o Circular , ou o Contra (motorista Lira) , nem mesmo o Almirante Lamego , cuja passagem permitia acertar o relógio .
Também não pegou ônibus na Conselheiro Mafra , quase em frente da Casa Busch , (pertinho da Casa Daura da Oscar Lima e da Capital) , cujo destino era o Praia Clube , onde a juventude dourada ia se banhar e trocar olhares , entre garotas enxutas e pães. Os mais afoitos nadavam até o trampolim . Na chegada e na saída do Praia Clube , as mocinhas trocavam os maiôs de lã ou os 2 peças de algodão , e os rapazes trocavam os calções, (com os indefectíveis bolsos para os pentinhos) ,nos vestiários situados à direita , logo depois que se ultrapassava a “guarita” que dava acesso àquela disputada praia .
Não comprou pão na Padaria Brasília , nem na Foguinho . Não tomou picolé de côco , nem Beijo Frio ou Xique-xique , na Cocota , no Barão ou na Satélite .
Não comprou figurinhas de álbum ou doce de abóbora cristalizada na Banca da dona Lourdes , embaixo do edifício Ipase . Um pouco adiante , na Gruta de Fátima , a vitamina de frutas era famosa.
Não conheceu , aos domingos , as delícias das filas para o Cine São José (13:30 ou 15:45) , nem para o Cine Ritz (14 ou 16 horas).
Os jovens há mais tempo iam à Matinada – domingo de manhã, ou assistiam aos seriados no Cine Roxi – oportunidade de ouro para trocar figurinhas de álbuns , ou disputados Gibis . Às 3ª de tarde , a Sessão das Moças era bastante prestigiada , no Cine Ritz .
Nunca frequentou o Samburá (do Luiz Henrique) , o bar do Querência , o Roda Bar ou Cristal Lanche , nem comeu morango com nata no Elite , (depois Baiúca), ou almoçou no Rancho da Ilha , com simpáticas aves transitando pelo jardim . Também não comeu no Manolo , no Monte Líbano , nem no restaurante do subsolo do Edifício Zahia – primeiro arranha-céu de Florianópolis.
Os rapazes na madrugada recobravam as forças no Bar Universal ou no Alvorada.
Outro local que o jovem Manezinho não chegou a frequentar foi o lendário Paineiras , quando invariavelmente aconteciam brigas nos finais das festas , e a chegada de zelosos policiais não era rara . Alguns dos litigantes mais exaltados chegavam a ser conduzidos à delegacia, onde faziam as pazes e logo saíam abraçados.
Não comprou discos na Az de Ouro ou na D Magali , nem lanchou na Vic’s , comprou maçãs na Casa das Frutas , ou Bala Rocôco na Soberana . Talvez não saiba do footing dos domingos à noite na Praça XV , quando as “moças de família” desfilavam na calçada do Palácio , e as jovens domésticas , na calçada dos Corrêios .
As figuras folclóricas e/ou conhecidas da época eram o Simka Show , o Globo , o Leonardo da Farmácia , o Avez-vous , a Nega Tita ,a Sou Feia mas Sou Engraçadinha, sucessores da Barca-à-Quatro , da Traça e de outros que a memória me esconde .
Mais uma vez , o jovem Manezinho deixou de assistir aos desfiles dos Carros Alegóricos Tenentes do Diabo e Granadeiros da Ilha , ao redor da Praça XV , nem vivenciou as emoções proporcionadas pelas mutações dos carros , frequentemente emperrados , e obrigando os valorosos “técnicos” a se enfiarem sob as carrocerias dos veículos , não raramente sendo brindados com vigorosos choques elétricos . Depois dos desfiles , que levavam horas , em virtude dos inevitáveis problemas no andamento e nas mutações dos carros : abas que não abriam , folhas que emperravam , andares que se recusavam a subir , fontes sem água de onde surgia uma criança dando tchau, numa altura das janelas superiores do Palácio ….enfim , depois deste suplício todo , com as mocinhas já exaustas , dando tchau em cada “janela” que abria nos carros …. depois de tudo isso , ainda desciam a rua dos Ilhéus os valentes e intimidadores Bororós , gritando “Aí eu vou , eu vou aí”….
Finalizando , nosso jovem Manezinho jamais terminou um Carnaval no famoso “Encontro” , em torno da Figueira da Praça XV , quando os mais resistentes foliões saiam dos clubes Lira e Doze , e vinham pelas ruas , com banda e tudo , para dançarem as últimas marchinhas , irmanados num mesmo clima de alegria e união . Os Clubes se comunicavam , para que nenhum saísse nem antes e nem depois , para não acharem que um ou outro estava desanimado , pois já desfilava pelas ruas uns 15 minutos antes do outro . (Cerca de 7 horas da manhã) .
Jovem Manezinho, eu não pretendia realmente me estender tanto , mas as lembranças foram se atropelando , preocupadas de serem preteridas ….
Gostaria muito que outros Manezinhos , como eu , jovens há mais tempo , colaborassem com suas recordações e vivências .
Considero essas reflexões, menos ou mais recentes , uma verdadeira coletânea de Amor à Ilha.

Não sei quem é o autor ou autora, mas retrata muito bem tempos lindos que muitos de nós vivemos.
Achei estou compartilhando.

Recordar é viver – Foto: Arquivo pessoalRecordar é viver – Foto: Arquivo pessoal

+ Cacau Menezes