Pioneira em lei, Florianópolis tem um acervo de mais de 200 obras de arte pública

Próximo desafio da lei é ampliar relevância das obras e levá-las aos espaços de uso comum, como praças e jardins

 

 

Daniel Queiroz/ND

A artista visual Giovana Zimermann com os moradores Rogério_d`Ávila_e_Miraci José Valle na obra pública assinada por ela, “A Boca”, no Centro de Florianópolis

Quem sobe ou desce pela rua Altamiro Guimarães, no Centro de Florianópolis, talvez não saiba que circula por um dos maiores redutos de arte pública da cidade. Em apenas um quarteirão, obras de Paulo Gaiad, Cesar Campos Júnior, Rodrigo de Haro, João Otávio Neves Filho (Janga) e Antônio Rozicki se misturam à arquitetura diversificada de edifícios e, tornando-se parte da paisagem, nem sempre atraem a merecida atenção dos passantes. Apressados, a maioria lança apenas um olhar rápido sobre o pequeno legado artístico, que embora separado da rua por vidros temperados, faz parte do acervo público da cidade e, portanto pertence à população.

Florianópolis é pioneira na implantação de uma legislação urbanística de incentivo à produção e inserção de obras de arte em edificações. Com 23 anos de existência, a lei complementar nº001/97 que versa sobre a implantação de obras de arte nos prédios mediante o incentivo de 2% nos índices de construção de empreendimentos com mais de 1.000 m2, estimulou a construção de mais de 240 obras e contemplou 40 artistas locais. Além de agregar valor ao edifício e à paisagem urbana, a arte pública tem por função estimular a educação artística e cultural dos moradores. À construtora, o benefício equivale, em determinados casos, a um apartamento a mais na planta.

Segundo a legislação atual, a obra de arte deve estar inserida na edificação, em frente dela ou em seu entorno. Embora sua simples presença seja agregadora ao meio no qual se insere, a Comap (Comissão Municipal de Arte Pública), órgão subordinado ao Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), faz um estudo para descobrir se as intervenções estão de fato sendo aproveitadas por condôminos e moradores. O mapeamento deve estar pronto até o final do ano e servir de base para o pedido de alteração na lei. A proposta em discussão quem ampliar o alcance da obra, que ao invés de ter sua existência ligada ao imóvel que a subsidiou, seria instalada em locais públicos de grande circulação de pessoas como escolas e praças.

A ideia tem dois pilares: a inserção da obra no espaço público e a democratização do processo de escolha dos artistas. “Nós queremos avançar. Não faz sentido termos uma obra na frente de prédios e não termos obras relevantes em outros espaços públicos da cidade. Queremos novos artistas, abrir para concursos públicos e fazer com que os novos nomes da arte local façam parte disso”, aponta o secretário adjunto da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, Cesar Floriano. O arquiteto e urbanista participou da elaboração da proposta que deve integrar o novo Plano Diretor. “Mais que caráter decorativo, as obras devem ser um dispositivo de memória que ajude a contar a história da cidade. É nesse sentido que estamos trabalhando”, pontua.

 

Cidade humanizada

A inserção de obras de arte em espaços públicos se mostra como estratégia de sucesso para humanizar as cidades. A coordenadora da Comap, Lu Pires, lembra que o tema foi retomado com intensidade a partir da segunda metade do século 20. “Atualmente várias cidades do mundo criam leis de incentivo para qualificar o espaço público e ampliar o mercado de arte. Florianópolis criou a sua desde 1989, e sua aplicação desde 1990 serve de exemplo para muitos lugares do Brasil e do exterior. Mas é preciso avaliar o que foi feito e repensar o que podemos fazer”, comenta.

A avaliação começou em agosto, quando a comissão abriu diálogo com os condomínios e começou a fazer um cadastro dos artistas da cidade. “Estamos levando uma carta aos síndicos, explicando nosso papel e porque estamos fazendo essa checagem. Vamos ver se a obra está bem cuidada, se vale a pena continuar com aquela obra lá ou se ela poderia ser mais bem aproveitada em outro local”, explica Lu.

A interação da obra com o espaço é justamente uma das proposições da alteração da lei e, como as novas construções não dispõem de espaço, as instalações seriam transferidas para um espaço urbano maior. O empreendimento continuaria usufruindo o benefício, mas ao invés das tratativas serem feitas diretamente com o artista, haveria uma gerência de arte pública para atuar como intermediária. O valor a ser pago na obra seria depositado em um fundo e utilizado na qualificação do espaço urbano. “Nada está definido. É uma lei que precisa ser bastante estruturada, mas que tem como objetivo estimular a arte na cidade”, pondera.

Hoje as tratativas para construção da arte pública são feitas diretamente entre construtora e artista, antes de ser executada a obra passa pela avaliação do Ipuf, que também é responsável por checar se foi feita de acordo com o previsto. Caso não esteja, o Habite-se do imóvel não é liberado. 

 

Débora Klempous/ND

Nani Skelsen e a obra “Corais”, na Trindade, grandiosidade e função

 

Obras interativas, paisagem reinventada e socializada

 Mesmo sem ser lei, artistas mais contemporâneos se destacam no cenário urbano por conceber obras que tenham interação com o público. Espaços contemplativos e de convivência, qualificadores da arquitetura do empreendimento e de seu entorno, esses trabalhos marcam uma nova fase da arte pública da cidade presentes nos anos 2000.

Com abordagens interativas, as criações da artista plástica Nani Eskelsen se espalham pela cidade e chamam atenção pela grandiosidade. A obra “Corais”, em frente a um empreendimento na Trindade, aborda o convívio entre homem e a natureza e adverte para a pesca predatória. Moldada em tubos de aço inox calandrados e polidos em torções se projetam para o alto, tem na base uma trama em malha de aço, que serve de banco.

A possibilidade de expandir o trabalho é bem recebida por ela. “A cidade carece disso. Meus trabalhos são de grande porte e são poucos os prédios que utilizam um espaço para o paisagismo. Eu consegui isso em “Corais”, mas muitas obras acabam sufocadas. Está na hora da arte pública realmente ir para praças e para os jardins”, comenta Nani.

A artista visual Giovana Zimermann, também se adiantou a alteração da lei e buscou ocupar o maior espaço possível em seus trabalhos público. Em um condomínio recém-inaugurado em Jurerê Internacional, ela concebeu a cidade de “Armila” (2012). Obra hi-tech, de tubos de aço inox que crescem como plantas no jardim, mas também é um mobiliário urbano, como sua mais famosa criação, que ficou conhecida como “A Boca”, no Centro.

Perto da praia, “Armila” tem bancos, chafariz, chuveiro e torneiras que podem ser utilizadas a qualquer momento por várias pessoas. “Eu sempre tentei fugir do espaço cercado. Eu sempre procuro conversar com o arquiteto antes de intervir numa obra. Acho que o benefício pode ser potencializado, senão viram um monte de objetos que não dialogam com o entorno”, afirma.

Graduada em artes visuais, com mestrado em arquitetura e urbanismo, Giovana procura fazer com que sua obra sirva para a sociabilidade dos moradores. Tem conseguido. “A gente sabe da importância disso, que é uma obra de arte que aqui é o ponto de encontro dos moradores no final da tarde”, comenta o Miraci José Valle, síndico do residencial Lea de Castro Ramos, onde foi instalada “A Boca”.

Nem todos os cidadãos tratam as criações com tanto carinho. Em caso isolado, uma obra que também busca interação foi retirada pelos moradores de um edifício na Trindade. Foi necessário entrar na Justiça para que a peça seja recolocada no local.

 

Acervo municipal*

• 242 obras

• 40 artistas contemplados

• 102 empresas beneficiadas

 

Em números

• 1990-1994  – 13 obras

• 1995-1998 – 47 obras

• 1999-2003 – 62 obras

• 2004-2008 – 77 obras

• 2009-2012 – 43 obras

*Fonte: Comap

 

A artista visual Giovana_Zimermann com os moradores Rogério_d`Ávila_e_Miraci José Valle na obra pública assinada por ela, “A Boca”, no Centro de Florianópolis

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