Walmor Corrêa abre quinta (26) a mostra “Você que faz versos” no Victor Meirelles, na Capital

Artista catarinense criou seres híbridos formados por corpos de pássaros e cabeça de roedores

Marco Santiago / ND

Seres híbridos – aves e roedores formam um só corpo. Será esse o futuro da natureza?

Como juntar pelo com pena? Em “Você que faz Versos”, nova exposição de Walmor Corrêa que abre quinta (26) no museu Victor Meirelles, na Capital, seres indefinidos com corpo de pássaro e cabeça da rato, elegantes, descansam em galhos e antenas, procuram em latões de lixo – entre restos e frutas podres e sanduíches velhos – o alimento do dia. Dotado de sua usual poética das impossibilidades, Corrêa provoca estranhamento e reflexões quanto à função da arte contemporânea e de questões que atravessam o cotidiano. Será isso o que se tornará a natureza?

“Eu queria que o estranhamento fosse apreciado”, diz o artista catarinense de 48 anos, que atualmente mora em Porto Alegre. Enquanto montava as instalações, na antevéspera, lembrou que ouviu comentários na rua das pessoas que viam o lixo sendo levado para o museu. “O Victor Meirelles agora vai ser depósito de lixo?”, diziam. “Não tenho dúvida de que vai causar estranhamentos. Se arte é lixo? Não estou aqui para responder, estou para fazer perguntas”, esclarece Corrêa.

A série demorou cinco anos para ficar pronta. Reconstituir o lixo não foi o problema. Mesmo sendo tudo customizado à perfeição pelo próprio artista – restos de alimentos putrefatos, bitucas de cigarro, embalagens usadas, tudo usando seu conhecimento de escultura e restauração –, o trabalho maior foi conseguir os animais. Alguns foram comprados já empalhados, outros foram conseguidos junto a universidades, que os mantém congelados para estudo. “Precisava não só de pássaros e roedores. Mas que as cores e formas se juntassem para que trabalhasse a estética nesse hibridismo”, diz o artista.

Trabalho junto a um biólogo

A partir da técnica da taxidermia (preservação da forma da pele, planos e tamanho de animais), Corrêa utilizou ainda outras técnicas artesanais para modelagem. Impecáveis, as esculturas são tão reais que é difícil dizer onde começa um e termina o outro. Isso se deve ao corte. Junto com um biólogo, o artista dizia onde cortar e juntar, e então colocava para secar na posição que queria.

Natural de Florianópolis, Walmor Corrêa desde pequeno é fascinado pelas artes e a biologia e sua obra artística é impregnada de história natural. Graduado em publicidade e arquitetura, participou de diversas exposições individuais em todo o Brasil e coletivas realizadas nos Estados Unidos, Europa e África. Em 2009 participou da 7ª Bienal do Mercosul, realizada em Porto Alegre.

Marco Santiago / ND

Walmor Corrêa é artista catarinense premiado no universo contemporâneo

Estranhamentos e descartabilidades da arte

A mostra foi batizada “Você que faz Versos” em alusão ao poema “E agora, José”, de Carlos Drumond de Andrade. “A poesia é uma junção de pensamentos, palavras. Da mesma forma, a mostra apresenta um trabalho reflexivo, uma forma poética das impossibilidades”, esclarece. Antes de Florianópolis a série percorreu outras quatro cidades. Em Belém do Pará, quando foi apresentada no famoso museu Emilio Goeldi, os pássaros-roedores foram alocados em gaiolas. “Muitas pessoas perguntavam de onde era aquela espécie. Eu respondia: do Sul”, lembra Corrêa.

Segundo ele, a exposição faz sentido principalmente agora, que a arte brasileira está se destacando no mundo. “A arte contemporânea tem se mostrado um bom investimento. Importante questionar: arte contemporânea é descartável? É lixo? O que vai despertar eu não sei”, analisa ele. “Isso é mais ou menos o que fizeram com a humanidade, varrer para debaixo do tapete a sujeira, tomar remédio para burlar a dor”, conclui.

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