Dólar alto e mercado internacional: saiba o que deixou a cesta básica mais cara

Panorama tornou produtos, como o arroz, por exemplo, mais atrativos, influenciando o preço doméstico e puxando alta na cesta básica

Em contexto de pandemia, alta no consumo e no dólar, além das exportações ocorrendo mais intensamente, vários itens da cesta básica tiveram alta no preço. Em 17 capitais, 13 tiveram alta no custo, apesar da diminuição ou estabilidade de alguns produtos como a carne.

Dentre as capitais, Florianópolis possui a segunda cesta mais cara do Brasil , no valor de R$ 530,42, atrás somente de São Paulo, onde o item custa R$ 539,95. Nas sete capitais mais caras, o valor é de 50% ou mais de um salário mínimo.

Brasil quase dobrou a exportação de arroz em relação a 2019 – Foto: Reprodução / NDTV Blumenau

Quem puxa o preço para cima, via de regra, é o arroz, além do óleo de soja e outros grãos. Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o valor do quilograma de arroz parboilizado no varejo de Santa Catarina era de R$ 2,80 em janeiro de 2020, subindo para R$ 3,90 em agosto, seguindo o preço nacional.

Essa subida brusca no preço tem o mercado internacional como principal fator de influência, considerando a cotação do dólar americano superior a R$ 5 nas últimas semanas, enquanto em janeiro a moeda ficava em R$ 4.

“Temos commodities que são afetadas por dois níveis de preço: o doméstico e o internacional. Esses dois níveis definem o comportamento deste mercado, seja o doméstico ou o internacional. As empresas começam a exportar mais com essa defasagem cambial. Com o dólar aumentando, o preço do mercado internacional é um grande atrativo para o arroz brasileiro. Agora, os grandes produtores foram pro mercado internacional e querem ter o mesmo preço no mercado doméstico”, afirma Lauro Mattei, professor do curso de economia da UFSC e Pós-doutor em Oxford.

Além disso, a pandemia tende a ser um fator de alta no consumo de alimentos, considerando que mais de um terço da população catarinense tende a ficar em isolamento social em dias úteis, podendo subir para metade nos fins de semana e feriados.

Isso gera um panorama em que os mercados repassam o preço, em alta, para o consumidor, já que a alta se dá em fases anteriores da cadeia produtiva.

“O produtor não é formador de preço, ele trabalha com a demanda do produto, isso leva a um aumento generalizado. A questão da pandemia afetou muito o consumo interno, que se soma com a demanda forte da China e um dólar alto, que estimulou exportação”, reafirma o analista de pesquisa da Cepa/Epagri (Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola), Haroldo Tavares Elias.

De janeiro a agosto, o Brasil exportou US$ 407,2 milhões em arroz, uma alta de 81,4% em relação ao mesmo período em 2019, segundo dados do Comex Stat, vinculado ao Ministério da Economia.

Produtos de origem animal tem panorama diferente

Em 12 capitais o valor da carne bovina subiu, mas teve retração na Capital catarinense, em baixa de 0,9%. Segundo a DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), essa mudança se dá devido a “baixa oferta de animais para abate no campo e o desempenho recorde das exportações, em especial para a China, resultaram em preços elevados”.

Contudo, os grãos, especialmente o milho, acabam desencadeando influência no preço, da mesma forma, uma vez que servem de insumo.

“Os produtos de origem animal não tiveram grandes elevações. Uma das explicações é a redução da área plantada de arroz, aí o Estado [de Santa Catarina] tem que importar de outras praças. Temos também o custo, por exemplo, do milho, que é o principal insumo do Oeste do Estado para produção animal. Hoje ele vem, em grande, parte do Centro-Oeste, encarecendo o volume da produção, que é um custo repassado para o consumidor”, afirma Mattei.

Segurança alimentar em pauta

A discussão foi alçada ao Planalto. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pediu “patriotismo” aos donos de supermercado, afirmando que os mesmos deveriam operar com pouco lucro para não prejudicar o consumidor.

Nesta quarta (9) Bolsonaro, juntamente com o Ministro da Economia, Paulo Guedes, se reuniu com o presidente da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), João Sanzovo Neto, para discutir medidas para contornar a alta nos itens.

Logo após isso, foram anunciadas medidas como a do Gecex (Comitê-Executivo de Gestão) que decidiu zerar a alíquota do imposto de importação para o arroz em casca até 31 de dezembro deste ano.

Para Mattei, o panorama de exportações, em conjunto com a ausência de um estoque regulador, mina a possibilidade de um estoque regulador, que poderia aumentar a oferta dos produtos, jogando o preço para baixo.

“O Guedes acha que isso é um contexto desnecessário, de usar um estoque regulador para o preço [do mercado] doméstico cair. Na pandemia, os maiores exportadores, sobretudo Malásia, Tailândia e Filipinas, retiveram as exportações”, afirma, relembrando o já citado panorama de alta nas exportações, especialmente do arroz.

Agricultura familiar pode dar fôlego em SC

Uma das saídas para Santa Catarina, citada por Mattei e pelo presidente da Acats (Associação Catarinense de Supermercados), Paulo Cesar Lopes, é a inserção e o investimento na agricultura familiar.

Mattei afirma que a agricultura familiar de Santa Catarina é uma das maiores a nível nacional, podendo ser estimulada via linha de crédito.

Lopes, da Acats, destaca que o setor dos varejistas pode se aproximar com a agricultura familiar, em suposição que o isso poderia aumentar a oferta, em tentativa de jogar o preço dos itens pra baixo.

O Censo Agro do fim de 2019 aponta que 78% das propriedades rurais catarinenses são familiares, empregando cerca de 360 mil pessoas em mais de 2,45 milhões de hectares. A produção é a quinta maior do Brasil, da ordem de R$ 10,3 bilhões.

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