Bares do Centro de Florianópolis lutam para se manter vivos

Enquanto alguns criaram produtos novos para dar conta das despesas, outros optaram por devolver os pontos comerciais e sobreviver durante a pandemia

Após quatro meses de pandemia do novo coronavírus, a situação dos bares e casas noturnas do Centro de Florianópolis não é das melhores. Desde o decreto que estipulou o fechamento desses estabelecimentos em março, a situação só piorou para alguns empreendedores que dependiam do público para girar o caixa e pagar funcionários.

Casa de shows no centro de Florianópolis entregou ponto comercial após três anos no local – Foto: The Bro Cave Pub/DivulgaçãoCasa de shows no centro de Florianópolis entregou ponto comercial após três anos no local – Foto: The Bro Cave Pub/Divulgação

Mesmo com a posterior flexibilização, muitos optaram por não abrir, temendo pela própria segurança sanitária e de seus clientes. Alguns locais, como o The Bro Cave Pub e o Tralharia, fecharam as portas e entregaram seus pontos comerciais. Outros, como o Madalena Bar, que criou produtos alternativos, permanecem na incerteza de quando será possível reabrir com tranquilidade.

Empréstimo tardio

O caso do Tralharia – que funcionava como antiquário, café e bar – é emblemático. Depois de dois meses sem faturar, os sócios resolveram entregar o imóvel alugado, já que não conseguiram fechar nenhum acordo com o proprietário.

“Sem possibilidade de desconto no aluguel, ou maior prazo para o pagamento, não conseguimos manter o ponto durante o período do decreto. Quando houve a flexibilização, já tínhamos entregue o imóvel, mas a gente não reabriria de qualquer forma por entender que não é o momento propício”, afirma um dos sócios, Luiz Henrique Cudo.

Tralharia reunia arte, música e público alternativo no centro da Capital – Foto: Sérgio Vignes/DivulgaçãoTralharia reunia arte, música e público alternativo no centro da Capital – Foto: Sérgio Vignes/Divulgação

“Nosso produto principal era o espaço, com música, exposições e arte. Sem essa interação perdeu um pouco o sentido,por isso não aderimos ao delivery”,explica outro sócio, Guto Lima.

A dupla fez rifas, vaquinha virtual, venda e retirada de chope para liquidar o estoque. E, desde março, realiza vendas virtuais das antiguidades, através das redes sociais. Ainda assim, a casa acumulou dívidas. “Conseguimos manter nossa funcionária, mas não sabemos o que vai acontecer daqui pra frente, não vemos muita perspectiva”, desabafa Cudo.

Em conversa com outros proprietários de bares na região central, Cudo diz que percebeu que não está valendo a pena manter os negócios em funcionamento, durante os períodos de flexibilização. “Se já estava ruim em termos econômicos antes da pandemia, quando precisávamos de casa lotada para cobrir os custos, agora com o faturamento caindo 70% é praticamente inviável. Melhor mesmo é manter fechado”, analisa.

Os sócios do Tralharia negociaram prazos maiores com fornecedores, mas a linha de crédito pelo Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) só foi liberada na semana passada, quando eles já nem tinham mais esperança de conseguir o empréstimo. “Esse crédito deveria ter saído antes,no segundo mês de quarentena. Mesmo com carência estendida e baixas taxas de juros, é outra dívida que teremos de pagar”, afirma Cudo.

“Em vez de manter o ponto e acumular uma dívida gigante, preferimos dar um passo atrás. A empresa continua aberta e quando estiver mais seguro pretendemos voltar para a região, cujo potencial artístico e cultural é muito grande”, diz Lima.

Delivery de drinques

A casa de shows The Bro Cave Pub fechou logo no início da pandemia, antes mesmo do decreto de 17 de março. O local, que passou por reformas para se adequar às exigências de isolamento acústico e melhoria do espaço, foi devolvido ao proprietário após três anos de funcionamento.

Casa noturna criou drinques engarrafados para vender durante a pandemia – Foto: The Bro Cave Pub/DivulgaçãoCasa noturna criou drinques engarrafados para vender durante a pandemia – Foto: The Bro Cave Pub/Divulgação

“Infelizmente, sem faturar não tínhamos como ficar pagando 15 mil reais de aluguel, mesmo com a ajuda do proprietário. Não conseguimos empréstimo, nem auxílio emergencial”, diz um dos sócios, Vinicius Renato Leal.

Nos últimos dois meses, eles se sustentaram com a venda de móveis, freezer, decoração e palanque de som, mais a venda de drinques que é suficiente para pagar as despesas pessoais com alimentação e manter o nome do bar vivo, mas não cobre os custos para reabrir.

A alternativa adotada foi vender drinques engarrafados, por delivery, com encomendas de segunda a quinta, e entregas às sextas e sábados, das 18 h à meia-noite. São cinco opções no portfólio, mais licores artesanais, hidromel e cachaça de jambú. “É um produto novo, estamos estudando como dar mais visibilidade para tentar oferecê-lo em outros pontos do comércio, como restaurantes, por exemplo, o que daria mais fôlego ao negócio”, diz Leal.

Sobre o retorno, há poucas chances de voltarem como casa noturna. “Não temos capital para reabrir como casa de shows, fizemos todas as adequações de acústica e não temos como fazer isso de novo. Não sabemos quando vamos voltar a funcionar, mas se isso acontecer devemos continuar com delivery de drinques e retirada no balcão, como bar apenas”, afirma Leal.

Produto colecionável

Já o Madalena Bar, também permanece de portas fechadas, mas o ponto comercial continua. As proprietárias não conseguiram apoio nem empréstimo, então criaram um produto colecionável para vender. Cerca de 100 canecas foram encomendadas pela clientela pelas redes sociais do bar.

Venda de caneca colecionável mantém o aluguel do Madalena Bar – Foto: Madalena Bar/DivulgaçãoVenda de caneca colecionável mantém o aluguel do Madalena Bar – Foto: Madalena Bar/Divulgação

O produto foi feito em São Paulo, mas a sublimação (tratamento especial com uma resina onde a tinta da estampa será depositada) ficou a cargo da Adeh (Associação em Defesa dos Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade), organização sediada em Florianópolis. Com a venda, é possível pagar o aluguel do bar.

“Vamos fazer outros produtos colecionáveis para cobrir nossos custos fixos. Take away é uma probabilidade, porém a longo prazo o ideal é que consigamos a linha de crédito do governo para pequenas empresas, mas os bancos estão dificultando bastante”, afirma Rose Bär, sócia do empreendimento.

Ela afirma que a reabertura será feita apenas quando as UTIs não estiverem mais lotadas e a curva de contágio da Covid-19 cair no município. “O isolamento mal feito e esse vai e volta nas regras só vai fazer com que mais lugares fechem”, opina.

“É triste ver bares de amigos e conhecidos que fecharam nos últimos meses devido a Covid-19. Além do nosso amor pelo trabalho, pela noite e pela cultura de bares, estamos aqui em respeito aos bares que precisaram fechar”, afirma Rose.

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