Crise financeira no Peixe Urbano afeta funcionários e parceiros em SC

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Primeira e-commerce do Brasil está com pendências financeiras com funcionários e não apresenta mecanismos para saída da crise. Dívidas com parceiros e funcionários se amontoam diariamente

A pandemia do novo coronavírus fez o comércio digital crescer mais de 40%, segundo pesquisa realizada pelo BigData Corp, em agosto do ano passado. Porém, a alavancagem não funcionou para todas as empresas e um dos exemplos é a Peixe Urbano, primeira empresa brasileira no ramo. A crise na empresa carioca, que se mudou para Florianópolis em 2017, tem afetado funcionários e empresas parceiras catarinenses.

Celular mostra aplicativo do Peixe UrbanoCrise financeira no Peixe Urbano afeta funcionários e parceiros em SC – Foto: Danilo Duarte/ND

Os sinais negativos começam a aparecer já ao tentar acessar o site da empresa. Ao acessá-lo, a tela é tomada por uma mensagem pedindo desculpas pelo transtorno e que o serviço está indisponível temporariamente por conta de “problemas técnicos”.

O fato fez com que o Procon do estado de São Paulo notificasse a empresa para que esclareça os problemas de instabilidades no seu site.

Outro pedido é que a empresa tome providências para atender os consumidores que adquiriram cupons que ainda não foram utilizados.

Conforme o site “Reclame Aqui”, a empresa já tem mais de 2,3 mil reclamações de clientes. Entre as principais, o problema em conversar com a empresa e o site que está fora do ar.

Site do Peixe Urbano alega instabilidades e está fora do ar para o usuário – Foto: Reprodução/NDSite do Peixe Urbano alega instabilidades e está fora do ar para o usuário – Foto: Reprodução/ND

No SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) do Peixe Urbano, a empresa repassa algumas orientações para cancelamentos de pedidos e viagens por conta da Covid-19. Porém, o problema volta para a indisponibilidade do site para qualquer tipo de atividade.

Problemas ainda mais graves

No entanto, o que se mostra é que os problemas são ainda mais graves. A reportagem do ND+ entrou em contato com funcionários da empresa. Uma delas, a Georgina*, diz que no momento, ninguém está trabalhando porque não existe um sistema disponível para cumprir as atividades. Sendo assim, os clientes e parceiros ficam sem respostas para os problemas no serviço.

Em março de 2020, quando a empresa completou 10 anos, houve uma sequência de demissões. Os funcionários que permaneceram na empresa começaram a sofrer com atrasos no salário a partir de dezembro.

“A partir dessa data, a segunda parcela do 13º salário não foi paga, também não recebemos o salários referente ao mês de dezembro e, agora, o de janeiro está sem previsão”, disse Georgina.

Segundo ela, a última conversa com os responsáveis pela empresa foi no dia 15 de janeiro. Depois disso, eles apenas entraram em contato por e-mail alegando estarem em busca de soluções e que espera um possível investidor.

Ex-funcionários com pendências

Assim como Georgina, os funcionários que foram demitidos ainda em março de 2020 também permanecem na esperança da empresa resolver seus problemas financeiros. Uma delas é Ursula*, que trabalhou por seis anos no Peixe Urbano.

“No final de 2019, soubemos que as finanças da empresa não estavam tão boas quanto mostravam em reuniões. No momento em que começamos no home office, em março, sabíamos que, se o cenário mantivesse, seria difícil para a empresa”, relatou Ursula.

A ex-funcionária relata que em apenas dois dias de comércios fechados os cofres da empresa já tiveram um grande impacto negativo. Assim como era esperado, no fim daquele mês, houve as demissões.

Entre salários e multa por atraso de pagamentos, Ursula tem aproximadamente R$ 7 mil para receber da antiga empresa. Porém, o cenário que foi se desenhando nos últimos meses não demonstra ser favorável para que a dívida seja quitada.

“A cada mês que passava, eu enviava um e-mail questionando e sempre recebia a informação da empresa estar passando por problemas de fluxo de caixa e que não poderia pagar. Sendo assim, sigo com essa pendência, até o momento, quase um ano após encerrar meu contrato”, explicou Ursula.

Comerciantes aguardam repasse

Assim como ocorre com os funcionários, parceiros comerciais da empresa que mantinham convênio com o Peixe Urbano também passam por dificuldades para entrar em contato e receber a sua parte dos cupons vendidos no site. De acordo com as regras de parceria, a empresa fica com 20% do valor pago cliente e repassa o restante para o comércio.

A empresária Carla Costa, proprietária do Freguesia Oyster Bar e Restaurante, localizado em Santo Antônio de Lisboa, no Norte da Ilha de Santa Catarina, relata que está passando pelo mesmo problema desde janeiro de 2020.

“Eu tenho R$ 16 mil para receber dos cupons que foram comercializados, mas ainda não recebi nada. Além de não pagar, ninguém se comunica ou dá uma satisfação desde março de 2020”, explicou.

Ela ainda relata que, quando era possível ligar nos telefones disponíveis, havia apenas máquinas de atendimento e nunca era possível conversar com um atendente.

O setor de bares e restaurantes de Santa Catarina era o que oferecia a maior quantidade de ofertas para compra por meio da plataforma do Peixe Urbano.

No entanto, segundo a Abrasel/SC (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de SC), não há um levantamento do setor sobre os impactos da crise do Peixe Urbano na economia local, já que as negociações sempre foram realizadas individualmente entre os comércios locais e a empresa que ofertava os cupons.

A reportagem do ND+ tentou entrar em contato com os telefones e e-mails disponíveis pela empresa, mas não houve o retorno das mensagens ou ligações até a publicação da reportagem.

Tentativa de se reinventar

Em 2019, já com a redução na venda de cupons de ofertas, o Peixe Urbano se tornou também uma fintech e passou a oferecer o Peixe Pay – uma carteira digital – como produto, mas a adesão também não surtiu o efeito financeiro esperado para os cofres da empresa.

Fundado no Brasil no início de 2010, o Peixe Urbano chegou a ter mais de 45 milhões de usuários cadastrados. Em 2014, houve um aporte cujo da chinesa Baidu, que se tornou sócia majoritária.

Em novembro de 2017, o fundo de investimento latino-americano Mountain Nazca, responsável pela operação do Groupon América Latina, adquiriu as operações do Peixe Urbano e realizou a fusão entre as empresas.

*Os nomes usados são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados