Do tribunal para a cozinha: a arte de reinventar o trabalho

Neste 1º de maio, dia do trabalho, histórias de pessoas que se adaptaram e criaram alternativas para continuar rendendo na pandemia

A pandemia de Covid-19 deixou muita gente sem trabalho. Neste início de 2021, o Brasil tem mais de 14 milhões de desempregados, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Para não entrar nesta estatística, ou reduzir o impacto dela, um dos caminhos é empreender, como fez a advogada Sharlene Benites Fagundes. Ela foi parar na cozinha e inventou um pequeno negócio para fabricação de cucas.

Sharlene Fagundes está se reinventando no trabalhoSharlene Benites Fagundes teve as demandas de trabalho reduzidas na advocacia com a pandemia e criou um pequeno negócio fabricando cucas – Foto: Leo Munhoz/ND

Sharlene está no Direito há nove anos e atua nas áreas cível e trabalhista. Com a pandemia, os clientes começaram a diminuir, os rendimentos caíram e foi preciso criar uma alternativa. Assim nasceu a Rede Cuca.

“A gente acaba tendo lucro e prazer ao mesmo tempo. É muito satisfatório quando as pessoas te ligam dizendo: ‘que cuca maravilhosa!’”, conta Sharlene.

No início, de tanto que a clientela gostou, há cada 15 dias, ela lançava um sabor diferente. Hoje, comercializa oito opções, alguns com as sugestões dos colegas.

Um ano depois, a advogada voltou a recuperar os clientes, mas não abandonou a nova função. A produção das cucas até diminuiu, mas ela optou pela conciliação.

“Eu separo por períodos, como acordo cedo, na parte da manhã preparo as cucas e até 11h30 fico em função disso, quando tem mais encomenda. Depois, faço o almoço da família e, às 13h30, começo a advogar”.

Sem muito trabalho na advocacia, Sharlene abriu um pequeno negócio para vender cucasNo começo foi difícil, mas Sharlene insistiu, pois encontrou muita satisfação na nova atividade – Foto: Leo Munhoz/ND

Sharlene lembra que não foi nada fácil a vida dupla com o filho Vicente, de três anos, por perto: “Era complicado com uma criança na volta, tentando cozinhar, mas no fim deu certo. Não vou deixar de fazer quando acabar a pandemia. Virou um hobby e tenho clientes fiéis”, ressalta.

Mais do que lucro, Sharlene encontrou uma nova atividade que lhe traz satisfação, em meio à crise sanitária mais difícil dos últimos 100 anos.

“É mais prazeroso, porque a advocacia é desgastante. Mexer com comida é outra coisa. Acredito que, quando se tem força de vontade para superar, ainda mais quando se tem filho pequeno e família, a gente dá um jeito, basta querer e ir atrás dos objetivos”.

Na visão da psicóloga Cecília Urbina, os trabalhadores têm muitas lutas atualmente. Por outro lado, ela defende a tese de que “enxergar o que ainda temos, pode ajudar a enfrentar esse momento”. Ela acredita que esse é um caminho para comemorar algo, apesar das dificuldades.

Psicóloga elogia atitude positiva de trabalhadores no atual contexto do mundo do trabalhoA psicóloga Cecília acha que os trabalhadores merecem os parabéns por vencer os desafios do trabalho nos tempos modernos – Foto: Reprodução/ND

“É muito desafio. Nós, os trabalhadores, estamos de parabéns. Precisamos estar ligados para nos adaptarmos a essa situação todos os dias. Estamos fazendo um milagre, temos que comemorar e usar a criatividade todos os dias”, enfatiza Cecília.

Do escritório para o home office

Coordenador de marketing em uma empresa, Michael Lima sente falta do contato com as pessoas, mas acredita que está se adaptando bem às mudanças forçadas da pandemia.

Acostumado a sair de casa todos os dias, pegar o trânsito da Av. Paulista, em São Paulo, para chegar no escritório, vê no home office uma oportunidade. Ele, inclusive, visitou Florianópolis durante a pandemia para ficar mais perto de uma pessoa da equipe.

Michael foi promovido no trabalho pela adaptação às mudançasMichael Lima foi promovido no trabalho durante a pandemia pela capacidade de adaptação – Foto: Reprodução/ND

Muitas foram as mudanças na rotina pessoal e profissional de Michael com a pandemia, que deixou de sair, viajar e frequentar vários lugares.

“Estamos o tempo todo em casa. Moro com meus pais, que são grupo de risco, então, não podemos sair”, explica.

A pandemia o afastou dos amigos, o que ele lamenta, mas o aproximou dos familiares. No caso da empresa, a novidade é trabalhar com pessoas que nunca viu pessoalmente.

“Vários colegas eu conheço só no virtual, porque foram contratados durante a quarentena, então, mudou um pouco a forma de interagir, os rituais de trabalho. As reuniões que eram presenciais, agora, são todas virtuais, muda um pouco a forma de se relacionar”, pontua o trabalhador.

Na pandemia de Covid-19, os encontros presenciais foram substituídos pelas reuniões virtuais – Foto: Reprodução/NDNa pandemia de Covid-19, os encontros presenciais foram substituídos pelas reuniões virtuais – Foto: Reprodução/ND

Sobre o trabalho remoto, Michael tem recomendações: “é preciso uma rotina bem estabelecida, um ambiente de trabalho confortável, horários definidos. Não pode misturar trabalho com hora pessoal. Seu horário de almoço é para almoçar, cuidado para não trabalhar!”

Outro desafio, segundo ele, é gerenciar projetos de longe. Michael assumiu um cargo de gestão na pandemia e acredita que o diferencial para essa conquista foi ter conseguido criar rotinas para aumentar a produtividade da equipe.

“Meu time, mesmo durante a pandemia, teve um acréscimo de produtividade e acabei sendo reconhecido por isso”, comemora.

O futuro do trabalho

O dia do trabalho surgiu em 1886. Neste ano, em 1º de maio, trabalhadores de Chicago, nos Estados Unidos, fizeram uma paralisação em busca de melhores condições.

Na época, enfrentavam rotinas pesadas, chegando a trabalhar até 17 horas por dia. No Brasil, o feriado foi instituído em 1924, pelo então presidente Artur Bernardes.

Funcionários da empresa onde Katiuscia atua gostaram da novidade do trabalho remotoSegundo Katiuscia Teixeira, 84% dos funcionários da empresa onde ela atua gostaram da mudança para o trabalho remoto – Foto: Reprodução/ND

Assim como em 1886, quando a situação era crítica, 2021 exige adaptação dos trabalhadores e flexibilidade das empresas.

Katiuscia Teixeira é responsável pela gestão de pessoas da empresa onde o Michael atua. Moldando-se às tendências, a empresa deles, que tem colaboradores em 12 países, adotou o modelo de trabalho remoto para todos.

“No momento em que a gente anunciou, tivemos 84% de satisfação. Ficaram preocupados em como a gente poderia manter a proximidade, a nossa cultura e identidade à distância, mas com um nível de otimismo muito bacana e olhando todas as oportunidades”, lembra a profissional.

No trabalho remoto, ou presencial, nos empregos formais, ou informais, com salários e jornadas reduzidas, de máscara o tempo todo e higienizando – sempre que possível – as mãos com álcool em gel. A sala de reunião virou a sala virtual e o mundo do trabalho mudou.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Economia SC