Entre interdições e pandemia, maricultores se reinventam

Apesar de a pandemia ter reduzido o negócio de alguns produtores em Florianópolis, o setor tenta buscar novas oportunidades

Com as mãos habilidosas, Vinícius Marcos Ramos mexe no laboratório de ostras que construiu dentro do galpão em frente à fazenda marinha que administra na Capital do Estado. Aliviado pelo fim da interdição que interrompia o trabalho de alguns maricultores da região até a última quinta-feira (27), o florianopolitano está otimista.

Mar de oportunidades: maricultores da Capital se reinventam em meio à pandemia – Foto:Anderson Coelho/ND

Apesar da pandemia provocada pelo novo coronavírus ter reduzido o seu negócio e de vários produtores, o setor que fortalece a tradição da cidade vive um momento de reinvenção. 

“O futuro é incerto para a gente, mas eu estou confiante. Tem que estar e pensar nas alternativas”, disse Vinícius, que perdeu sete funcionários e diminuiu sua produção em 50% desde o início da pandemia. Porém, com a expectativa de crescimento, o aquicultor enxerga um mar de oportunidades para o próximo verão. 

Além das vendas de ostras e vieiras, o galpão em que os moluscos são escovados, limpos e divididos abriga também um espaço que cria e cultiva milhões de sementes de ostras. O trabalho no laboratório já ocorria em anos anteriores, mas ganhou força com a pandemia e é uma alternativa para o negócio, localizado no Ribeirão da Ilha. Nos últimos meses, algumas milhares de sementes foram vendidas para outros produtores da cidade. 

Cultivo delicado

Normalmente, as ostras ainda muito pequenas são compradas do laboratório da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que desenvolve um projeto há anos. Os produtos passam por várias pesquisas, são subsidiados e entregues aos produtores por um preço mais acessível. 

“As ostras são as melhores do país, têm uma ótima qualidade, mas o laboratório fecha alguns meses e eu aproveitei agora para fazer um pouco aqui”, conta o aquicultor.

Vinícius Marcos Ramos  trocou o escritório e prazos pelo mar e a espera – Foto: Anderson Coelho/ND

Administrador por formação, o morador do Sul da Ilha se tornou maricultor há 18 anos. Trocou números, prazos e o escritório pela espera do crescimento das sementes e a incerteza da vinda ou não da maré vermelha.

Mesmo não tendo sofrido nenhuma interdição por causa da proliferação de microalgas este ano, o dono do negócio vive sob incertezas. “A gente planta um bichinho que vai ser vendido daqui uns meses e alguns ainda morrem. Já estou acostumado com essa incerteza. Aprendi”, conta.  

Em anos normais, Vinícius vende cerca de 2,5 milhões de ostras, além de vieiras e mariscos. Com a pandemia, ele ainda não projeta números, mas sabe que será menor. Na fazenda, o produto mais pedido é a ostra, que custa R$ 15 a dúzia. A vieira, alimento mais refinado e que corresponde a 1% da sua receita, está R$ 60 (dúzia).

Perdas acumuladas

Entre os vários setores da economia, a maricultura é um dos que mais sofreu com a crise dos últimos meses. Dependentes quase diretamente da venda local e fornecendo alimentos principalmente para os restaurantes de Florianópolis, os produtores tiveram muitas perdas.

Ainda não há dados gerais do setor sobre as quedas, mas além da fazenda marinha de Vinícius, o negócio de David Carriconde, outro maricultor do Ribeirão da Ilha, também caiu. 

No ramo há 16 anos, o empresário de 38 anos sentiu queda de 30% nas vendas. Ele admite que a diminuição não foi tão acentuada, já que incorporou deliverys e vende para grandes indústrias e até restaurantes de outros estados. Além disso, David conseguiu ter acesso a clientes por meio de sua peixaria.

“Eu sei que teve gente que diminuiu mais, que trabalha com restaurantes e que foram os mais afetados”, conta. 

Reivindicação por auxílio

Se por um lado a crise da Covid-19 não atingiu em cheio o serviço de David, a maré vermelha é uma dor de cabeça para o empresário. Neste ano, a fazenda marinha que possui ficou interditada ao menos uma vez e, mesmo com funcionários trabalhando, a receita parou. 

Fazenda Marinha de David Carriconde, no Ribeirão da Ilha – Foto: Anderson Coelho/ND

“O trabalho de manejo dela [ostra] é feito normalmente no período. O nosso problema é a venda, a receita, que não entra”, afirma o maricultor. Ele defende um auxílio do governo para os períodos de interdição, o que evitaria demissões e possíveis vendas de frutos do mar contaminados pela maré vermelha.

A discussão sobre o benefício existe, mas ainda está em uma fase inicial e não há prazos para ser criado. 

Rodízio em restaurantes 

Além dos maricultores, donos de restaurantes também ficam atentos ao mapa da Cidasc (Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina), que monitora as algas tóxicas que provocam a maré vermelha no litoral do Estado. Quando uma fazenda marinha fica impossibilitada de vender ostras, os irmãos Igor e Felipe Ramos compram moluscos de outro produtor, fazendo assim um rodízio de ostras. 

Proprietários de um restaurante da Freguesia do Ribeirão da Ilha, os irmãos fazem rodízio na hora da compra de ostras  – Foto: Anderson Coelho/ND

Donos de um restaurante na Freguesia do Ribeirão da Ilha há 11 anos, os irmãos criaram essa tática no passado e já conhecem muitos produtores da região. 

“É fácil. A gente compra de quem não está interditado, aí na outra vez que precisa, compra de outro e assim vai”, explica Felipe em frente ao restaurante que antes era o galpão da família usado para limpeza e distribuição de ostras e mexilhões. 

No centro de Florianópolis, dentro do tradicional Mercado Público, o mesmo acontece. Jaison Furtado da Silva, de 41 anos, dono de uma peixaria, conta que conhece vários fornecedores e, sempre que há maré vermelha, troca de empresa: 

“Quando a maré vermelha está lá em Santo Antônio, nós pegamos do Ribeirão, quando está no Ribeirão, pegamos lá de Tijucas”, conta. “Aqui nunca falta, a gente dá um jeito” afirmou. 

Na última sexta-feira (28), o mapa da Cidasc foi atualizado e, dos 39 locais monitorados, apenas seis estão proibidos de vender moluscos e mexilhões. Veja aqui

Macroalgas são aposta para o futuro

As interdições podem até ser um obstáculo para os maricultores, mas a produção de macroalgas é a aposta para o futuro das fazendas marinhas em Santa Catarina. Ainda em fase de testes, a tecnologia quer introduzir a produção de espécie de alga Kapaphycus alvarezii para diversificar e qualificar o serviço do setor. 

Coordenador dos estudos no Cedap (Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca da Epagri) e um dos idealizadores do projeto, Alex Alves dos Santos, afirma que as pequenas propriedades que existem no litoral catarinense terão sucesso na produção, além de renda extra.

Segundo o pesquisador, mesmo com as interdições, as macroalgas usadas na indústria farmacêutica podem continuar sendo produzidas e vendidas, “já que não são afetadas pela maré vermelha, por exemplo”, diz o especialista.  

“Além de lucrar com ostras e mexilhões, a produção de algas protege e qualifica as fazendas marinhas” afirmou Alex ao explicar que a tecnologia desenvolvida pela UFSC (Universidade Federal de SC) e Epagri. 

Macroalgas são aposta para o futuro da maricultura – Foto: Alex Alves/Epagri

Apenas uma fazenda marinha, localizada no Ribeirão da Ilha, cultiva as algas de forma experimental. Conforme Alex, o grupo está otimista e espera que a produção seja liberada pelo IMA (Instituto do Meio Ambiente) ainda em novembro. 

O produto que é extraído da alga tem propriedades gelificante, espessante, estabilizante e emulsificante. As substâncias poderão ser vendidas para as indústrias do Estado e do Brasil. 

Após a liberação pelo IMA, os produtores precisam passar ainda por um treinamento onde irão aprender a manusear as algas. Não há estimativas de  quantos produtores pretendem produzir a substância, mas com a liberação a ideia deve se popularizar, espera Alex. 

Santa Catarina, líder na produção

É de Santa Catarina, com destaque para Florianópolis, que vem quase a totalidade da produção nacional de mexilhões, ostras e vieiras do país. As 39 áreas de produção estão distribuídas em 11 municípios do litoral, gerando cerca de 1,9 mil empregos. Conforme dados da Cidasc, são 589 produtores cadastrados no Estado.  

Em 2018, foram 14.214, 6 toneladas de moluscos produzidos em Santa Catarina. Isso representa 84,5% do total do país. Não há dados consolidados sobre a safra de 2019.

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