Futuro da Elase está em xeque diante de possível leilão

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Clube promove assembleia nesta segunda (22) para esclarecer associados, pois a CGT Eletrosul que fazer receita com área

Com 44 anos de história, o futuro da Elase está nas mãos da CGT Eletrosul. Situada no bairro Carvoeira e pertencente a estatal federal, a área ocupada pelo clube deve ser leiloada até o final do primeiro semestre, em data a ser marcada.

Nesta segunda-feira (22), uma assembleia geral extraordinária será realizada para esclarecer a atual situação do clube junto aos 2,5 mil associados e cinco mil dependentes.

Uma assembleia geral extraordinária será realizada para esclarecer a atual situação da Elase – Foto: Leo Munhoz/NDUma assembleia geral extraordinária será realizada para esclarecer a atual situação da Elase – Foto: Leo Munhoz/ND

A reunião convocada pelo Conselho Deliberativo vai discutir o termo de permissão de uso do espaço de 27.847,21 metros quadrados, onde estão ginásios cobertos, quadras de esportes e a sede social. A pauta da assembleia inclui ainda o encaminhamento de propostas e uma tomada de decisão.

De acordo com o presidente Santiago Ocampo Fernandez, a reunião será de esclarecimento para os associados, pois a situação da área é negociada com a CGT Eletrosul há dois anos e chegou-se a um “ponto crítico”.

Diante da possibilidade real de leilão do espaço, Fernandez classifica a situação como uma “perda irreparável” para a cidade.

“Serão 8 mil cidadãos que ficarão sem chão da noite para o dia”, relata Fernandez, em relação aos associados e dependentes. O clube também garante 200 postos de emprego, cumpre a função social, com parcerias com a Prefeitura de Florianópolis, e de esporte de rendimento por meio de escolinhas, como a franquia da Escola Guga, além de sediar o projeto Tamar.

“Vamos em busca de soluções. O clube ainda conta com a participação de mil associados entre funcionários e ex-funcionários da Eletrosul”, ressalta.

Fernandes prevê um encontro produtivo, a partir de questões que podem ser levantadas pelos associados e com os esclarecimentos sobre as providências adotadas pela diretoria.

Clube ainda conta com a participação de mil associados entre funcionários e ex-funcionários da Eletrosul – Foto: Leo Munhoz/NDClube ainda conta com a participação de mil associados entre funcionários e ex-funcionários da Eletrosul – Foto: Leo Munhoz/ND

“Tudo vai depender da Eletrosul, porque atualmente esse valor (do terreno) não representa nada para o tamanho da Eletrosul”, avalia.

Presidente do clube há 23 anos e no exercício do último mandato, não remunerado, Fernandez relembra que a área pertencente à CGT Eletrosul foi doada pelo Estado em 1975 durante o governo de Antônio Carlos Konder Reis, e nunca foi utilizado pela estatal como atividade fim.

“Não é justo que a empresa queira fazer dinheiro com algo que foi doado pelo Estado para ser revertido em benefício da sociedade”, afirma Fernandez.

CGT Eletrosul emite nota oficial

A decisão de leiloar a área ocupada pela Elase faz parte de uma diretriz estabelecida pela Eletrobrás, holding controladora da subsidiária CGT Eletrosul.

Mesmo que a situação seja considerada “quase irreversível” por fontes ouvidas pela reportagem, na próxima semana há duas reuniões agendadas pela diretoria da CGT Eletrosul com representantes da Elase.

CGT Eletrosul diz que “reconhece a história e a importância da Elase no contexto social, desportivo e recreativo da Capital”  – Foto: Leo Munhoz/NDCGT Eletrosul diz que “reconhece a história e a importância da Elase no contexto social, desportivo e recreativo da Capital”  – Foto: Leo Munhoz/ND

Em nota, a CGT Eletrosul explicou que, “em observância às exigências regulatórias e de órgãos de controle, a CGT Eletrosul somente pode dispor de ativos que sejam vinculados ao atendimento de seu objetivo social, ou seja, que visem à execução específica de atividades de geração e transmissão de energia elétrica”.

Segundo a nota, a CGT Eletrosul segue diretrizes da Eletrobrás elaboradas por meio da versão 2021-2025 do PDNG (Plano Diretor de Negócios e Gestão).

Umas das estratégias trata da “Desmobilização de Imóveis” e busca “viabilizar receitas oriundas de bens imóveis não relacionados diretamente às atividades de geração e transmissão, principalmente por meio de alienações”.

Por isso, a diretoria executiva da CGT Eletrosul autorizou em 2020 a instrução de processo para alienar a área no bairro Carvoeira, já que o imóvel não é utilizado pela estatal.

O processo de contratação de leiloeiro oficial está em andamento e a previsão da CGT Eletrosul é de que o trâmite de formatação da alienação do imóvel, por meio de leilão, seja deflagrado ainda no primeiro semestre de 2021.

Na nota, a CGT Eletrosul “reconhece a história e a importância da Elase no contexto social, desportivo e recreativo da Capital”, mas precisa “atender os dispositivos legais e regulatórios e cumprir as diretrizes do acionista controlador”.

Dívida de R$ 1,1 milhão

Segundo a fonte consultada pelo ND+, não há indicativo de reversão (de decisão de leiloar a área), mas o diálogo está aberto para elucidar a situação da área e discutir o pagamento de valores pactuados em 2020.

Na ocasião, representantes da CGT Eletrosul e da Elase assinaram um Termo de Permissão de Uso Remunerado. O instrumento à disposição da administração pública, que faculta o uso de bem por particular, compreende o período de abril de 2019 a dezembro de 2020 e define a modalidade de remuneração pelo uso do imóvel a partir de janeiro 2021.

Os valores do termo já totalizam cerca de R$ 1,1 milhão (relativos a 20 meses de cessão de uso remunerado), mas a impossibilidade de quitação seria o menor dos problemas do clube, que precisa reverter a situação do possível leilão.

A CGT Eletrosul acena com a possibilidade de parcelamento desse valor em 12 vezes em resposta à proposta da Elase de transferência de bens diante das benfeitorias construídas pelo clube ao longo do tempo.

Mobilização da sociedade

A prefeitura de Florianópolis já está mobilizada para tentar buscar uma solução para a área ocupada pela Elase. O secretário municipal de Esporte e Lazer, Ed Pereira, está organizando um encontro para a primeira semana de março com a direção da CGT Eletrosul, que terá as participações do prefeito Gean Loureiro (DEM) e do vice Topázio Silveira (DEM).

A ideia do encontro é fornecer subsídios para a direção da CGT Eletrosul rever a decisão de leiloar ou alienar a área para gerar receita. Pereira conta que ficou “espantado” quando soube do possível leilão da área da Elase, onde a prefeitura atua com seis convênios para execução de projetos sociais, com o Portas Abertas/Elase.

“Entendemos que a estrutura da Elase é muito positiva para os projetos sociais da região da Bacia do Itacorubi e para o esporte de rendimento”, avalia.

O ex-jogador de futsal Chico Lins, que praticamente começou a vitoriosa carreira no time da Elase em 1986 e 1987, o desaparecimento do clube seria ruim para o esporte de Florianópolis. “Já temos poucos espaços. Se tirarem a Elase, seria uma perda”, comenta.

“A minha torcida é que se encontre um meio termo para que a Elase continue funcionando, porque sei do valor profissional das pessoas que trabalham lá”, completa.

“Desaparecimento do clube seria ruim para o esporte de Florianópolis”, pondera o ex-jogador de futsal Chico Lins – Foto: Leo Munhoz/ND“Desaparecimento do clube seria ruim para o esporte de Florianópolis”, pondera o ex-jogador de futsal Chico Lins – Foto: Leo Munhoz/ND

Presidente do Grupo Guga Kuerten, Rafael Kuerten também torce para uma mobilização da cidade e dos bairros vizinhos defesa do clube. “Florianópolis precisa de clubes como a Elase e o bairro só tem a opção da Elase, uma vez que a UFSC não é aberta ao público”, coloca.

Ao se posicionar em defesa da permanência do clube na atual área, Rafael lembra que ele e o irmão Gustavo Kuerten, foram criados dentro de um clube, um ambiente de vida sadia. “Seria muito ruim se essa área se tornasse qualquer outro produto imobiliário”.

O empresário mantém a esperança. “Penso que uma empresa como a CGT Eletrosul vai querer o bem da cidade. Imagino que é só uma questão de sentar à mesa e conversar”.

História desvinculada da CGT Eletrosul

A Elase surgiu em 1977, com o objetivo de estreitar as relações de trabalho de funcionários da Eletrosul, já que a maioria era oriunda de outros Estados.

A partir de 1992, devido a mudanças na legislação, o clube buscou alternativas para equilibrar receitas e despesas e criou a categoria de associado contribuinte.

Atualmente, o clube não é mais conhecido como a Associação dos Empregados da Eletrosul, mas sim como Elase Clube Social e Desportivo, aberto ao público em geral.

O espaço do bairro Carvoeira conta com ginásios esportivos, sala de jogos, academias de musculação e ginástica, quadras polivalentes, quadras de tênis de campo cobertas e descobertas, quadra de squash e padel, campo de futebol suíço com grama sintética, quadra de areia, saunas masculina e feminina, restaurante, bar, salões de festas, churrasqueiras, playground, parque aquático com piscinas aquecidas.

Clube oferece diversos serviços aos associados, inclusive natação – Foto: Leo Munhoz/NDClube oferece diversos serviços aos associados, inclusive natação – Foto: Leo Munhoz/ND

Além disso, oferece serviços de fisioterapia, clínica odontológica, podologia, salão de beleza, lavação de veículos e cursos como: circuito funcional, judô, muaythai, taekwondo, voleibol, adaptação ao meio líquido, natação, balé, jazz, patinação, inglês, robótica, estimulação motora para autistas, “sports kids”, violão, yoga, tênis de campo, squash, padel, beach tênis, hidroginástica, basquete e futebol de salão.

Membro do Comitê Brasileiro de Clubes e da Fenaclubes, a Elase é reconhecida entre os 100 melhores clubes do Brasil em 2020. Com isso, os atletas do clube podem participar de campeonatos brasileiros de modalidades olímpicas e integrar fóruns de gestão esportiva.

Desde a criação a Elase, sempre esteve envolvida com projetos sociais, com as atividades do GTCC (Grupo de Trabalho Comunitário Catarinense), do Projeto Transforma e do Projeto Caeira 21.