Nova economia exige equilíbrio entre adaptação e inovação

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Habilidade para contornar os desafios econômicos e o foco no cliente são citados por especialistas e em estudos como fundamentais para sobrevivência de uma empresa

A notícia do fechamento da Loja Busch & Cia, localizada na rua Conselheiro Mafra, no Centro Histórico de Florianópolis, causou espanto em muitos moradores, acostumados com o estabelecimento que existia há 140 anos.

O movimento foi necessário após os prejuízos financeiros provocados pela pandemia, obrigando os responsáveis a dar um passo ousado, mas estratégico.

Loja Busch & Cia, no Centro de Florianópolis, fechou as portas na pandemia depois de 140 anos – Foto: Reprodução/NDLoja Busch & Cia, no Centro de Florianópolis, fechou as portas na pandemia depois de 140 anos – Foto: Reprodução/ND

A loja, fundada em 1880 pelo imigrante Wilhem Busch, que tinha um dos alvarás de funcionamento mais antigos da cidade, não existe mais no espaço conhecido, mas o prédio ainda pertence aos mesmos donos e está alugado.

Hoje, a administração do estabelecimento está nas mãos da quinta geração da família, os irmãos Luciana e Ricardo Michel.

E a filial da Busch, no bairro Kobrasol, em São José, passa a ser a matriz. Assim, eles não deixam de atender os clientes, enquanto obtêm lucro com o aluguel do espaço na Capital.

A habilidade para contornar os desafios econômicos e o foco no cliente são citados por especialistas e em estudos como fundamentais para a sobrevivência de um comércio ou empresa.

Dar ao exigente cliente o que ele busca, uma revolução

“Antes, o tamanho da empresa estava no valor patrimonial, no espaço físico, mas agora está naquilo que ela pode trazer de inovação. Não precisa mais ter uma grande fábrica, mas sim grandes ideias.”

André Koerich, empresário e economista.

Conforme o conselheiro e integrante da Comissão de Desenvolvimento e Projeção Profissional do Corecon/SC (Conselho Regional de Economia), André Koerich, as inovações tecnológicas e o foco no cliente são os principais caminhos.

“O cliente busca algo novo, e isso vai ser entregue pelas novas tecnologias. Antigamente, as grandes empresas eram como petroleiras, com grandes máquinas, fábricas enormes. Depois, veio a era da internet, onde a utilizamos como meio de comunicação. Isso veio para as empresas, mas elas estavam desconexas, no começo.”

Ele lembra que a “era da internet” provocou uma revolução, até mesmo nos espaços das grandes empresas.

“A ideia hoje é fazer com que você não entregue só produtos, mas soluções. Essa nova economia está muito ligada à inteligência artificial. Cada vez mais estamos sendo ajudados pelas máquinas, até os carros vão ser assim. E vem muita coisa legal por aí. Se pararmos para pensar em muitos anos à frente”, conclui.

Hotelaria

A hotelaria é outra área que teve incontáveis prejuízos. Segundo o presidente da ABIH/SC (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis), Rui Eduardo Schurmann, muitos estabelecimentos fecharam.

“Infelizmente, tivemos muitas desistências, mudanças de segmentos, vendas para a construção civil – que estava perseguindo alguns imóveis há muito tempo -, e a pandemia foi a gota d’água.”

O ano de 2021 já trouxe um avanço considerável nos lucros, apesar de a recuperação plena ainda estar longe. “Ser pior que 2020 vai ser difícil. Tivemos ótimo desempenho na Serra neste inverno e temos perspectiva muito boa em relação ao próximo verão”, comenta Schurmann.

Conforme o presidente da ABIH, em meio à crise os hotéis receberam alertas que levaram ao aprimoramento.

“Houve grande mudança na questão comercial, com novas ferramentas, como o check-in antecipado. Redes sociais, publicidades, foram muito mais aprofundadas. Os hotéis descobriram que precisam fazer o dever de casa”, conclui.

Uber muda esquema de transporte e agiliza a mobilidade

A Uber é bom exemplo de empresa que soube adequar as estratégias à nova realidade.

“A tranquilidade de saber que há um carro disponível em poucos minutos pelo aplicativo, a qualquer hora e em qualquer dia da semana, fez com que a mobilidade compartilhada entrasse de vez na vida do brasileiro. Segundo uma pesquisa da Opinion Box, realizada em setembro de 2020, 78% dos usuários de smartphone no país já realizaram viagens de carro por meio de aplicativo e, destes, 69% dizem usar a Uber com frequência”, informa a assessoria de imprensa da Uber.

A empresa destaca os impactos provocados pelo serviço na economia.

“Estudos apontam que a chegada da Uber criou um novo ecossistema econômico no Brasil, com impactos tanto na mobilidade das cidades quanto no mercado de trabalho. Só no Brasil, cerca de R$ 68 bilhões foram repassados aos parceiros de 2014 a 2020.”

Com a pandemia, os negócios com foco em mobilidade foram bastante afetados, ampliando os serviços por delivery. Desde março do ano passado, o Uber Eats ampliou os serviços prestados a restaurantes para lojas de conveniência, pet shops e até floriculturas.

Em um ano, essa linha do negócio praticamente dobrou de tamanho no Brasil e passou a oferecer também a opção de mercado, em parceria com a Cornershop.

“Agora, a empresa está comprometida em apoiar a vacinação. No Brasil, já foram mais de 380 mil viagens doadas para o Movimento Unidos pela Vacina e a Cruz Vermelha”, informa a empresa.

Empresas que não se adaptam, não sobrevivem

Estudo realizado pelo Sebrae, publicado em abril deste ano, com o objetivo de calcular a taxa de sobrevivência das empresas e identificar os motivos da mortalidade, apontou que, a exemplo do que ocorre nos acidentes aéreos, o fechamento de uma empresa está associado a um conjunto de “fatores contribuintes”.

Quatro fatores que matam uma empresa:

  1. Pouco preparo pessoal: condição anterior de desempregado,
    pouca experiência, sem capacitação, abriu por necessidade
  2. Planejamento deficiente: falta de Plano de Negócio e planejamento insuficiente
  3. Gestão do negócio: insuficiência na gestão empresarial; falta de adaptação/diferenciação produtos/serviços
  4. Problemas no ambiente: pandemia/recessão, sem acesso a crédito

André Koerich lembra que a economia empresarial está em constante mudança e exige, mais do que nunca, dedicação das companhias.

“A nova economia significa a mudança na forma de ver o cliente. Antes, as empresas operavam na linha de manufatura, hoje é pela tecnologia. Com a inteligência artificial, temos a possibilidade de entregar mais serviços, às vezes até aquilo que o cliente nem sabia que precisava.”

A receita para manter uma empresa viva

Na mesma pesquisa, o Sebrae aponta resultados que mostram que a proporção de “funcionário em empresa privada” e “autônomo” é maior nas empresas em atividade, ou seja, muitos já trabalhavam no mesmo ramo e tinham vivência na área. Os índices de quem “tinha experiência ou conhecimento no ramo” é maior nas empresas em atividade.

Entre as empresas em atividade foi maior a proporção de quem abriu porque “identificou oportunidade” ao invés de abrir “por necessidade”.

Na “gestão do negócio” as empresas que sobreviveram se mostraram mais ativas, em situações como “aperfeiçoar sistematicamente seus produtos e serviços às necessidades dos clientes”, “estar sempre atualizado com respeito às novas tecnologias do seu setor” e “inovar continuamente os processos/procedimentos de trabalho”.

Setores mais atingidos têm longo caminho para se reerguer

Assim como o comércio, outros setores foram gravemente afetados pela pandemia. Bares, restaurantes e afins foram os mais atingidos.

Nesse segundo semestre, está começando a recuperação, principalmente depois da ampliação do horário de funcionamento, mas cerca de 30% dos estabelecimentos estão fechados.

“Isso significa que a cada dez, três fecharam as portas, e dos sete que sobraram, cinco estão endividados”, constata o presidente da Abrasel/SC (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Raphael DabDab. Ele também critica a falta de auxílio do Estado.

“Em Santa Catarina, o ICMS do setor não reduziu, como em outros Estados. Auxílios, linhas de créditos, não foram suficientes. O consumidor também perdeu poder aquisitivo. A gente estima que as empresas vão demorar de dois a cinco anos para se recuperar”, lamenta.

DabDab menciona a tecnologia como fator que ajudou a amenizar os danos, com avanço forçado no aprimoramento dos sistemas de pagamentos e automação.

“Tecnologia está muito presente no setor, como no delivery, que se consolidou com a pandemia, com novos consumidores. Mas o custo operacional é muito alto. Estar em uma plataforma é caro, além das embalagens e frete. Acredito que o amadurecimento deste mercado, com mais plataformas, vai gerar concorrência e baixar os custos.”

Raphael DabDab, presidente da Abrasel/SC (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes)