Reajuste de 5,65% na conta de luz em SC provoca críticas

Aumento pela Celesc foi aprovado pela Aneel, mas é desastroso para consumidores e a atividade industrial, dizem economistas e líderes empresariais

Mais uma despesa fixa vai aumentar em Santa Catarina: a conta de energia elétrica. Como todo ano, em agosto, a Celesc apresentou dados à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), que avaliou os números e aprovou reajuste de 5,65% na conta dos catarinenses.

Conta de luz teve reajuste de 5,65% em SCPara os especialistas e a indústria, aumento é inoportuno – Foto: Leo Munhoz/ND

Para economistas, a decisão terá efeitos danosos tanto para consumidores quanto para a atividade industrial, justo no momento em que a economia tenta se reanimar.

“Embora seja um aumento salgado para o consumidor, ficou abaixo do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), por exemplo, ao contrário dos reajustes dos combustíveis. Tem combustível que subiu mais de 500% acima do IPCA”, analisa a economista Janine Alves.

Por outro lado, ela avalia que, no momento, qualquer aumento tem impacto direto no orçamento, tanto das empresas quanto das pessoas. “Vamos deixar de consumir outros itens para pagar esse aumento, pois a renda caiu para grande parte da população”.

Para Janine, no caso das famílias de classe média, a energia elétrica está entre as principais despesas domésticas. Mas ela lembra que a Celesc está cumprindo seu dever de reajustar preços, conforme os custos.

Ainda segundo Janine, em 12 meses, o IPCA ficou em 8,99% e o aumento médio do setor de energia elétrica equivale a 60% do IPCA.
Para a economista, dois são os vilões da economia atualmente:

“Dólar alto e inflação alta impulsionando aumentos. E a Celesc, com tudo isso, ainda conseguiu aumento abaixo do IPCA. Ou seja, a desgraça poderia ser maior”, avalia.

Indústria já sente aumentos de gás e outros insumos

Para o presidente da Câmara de Energia da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), Otmar Müller, com alguns setores tentando voltar ao normal, o reajuste na luz não é uma boa notícia.

O presidente da Câmara de Energia da Fiesc, Otmar Müller, considera o reajuste inoportuno – Foto: Filipe Scotti/Fiesc/NDO presidente da Câmara de Energia da Fiesc, Otmar Müller, considera o reajuste inoportuno – Foto: Filipe Scotti/Fiesc/ND

“A indústria tem sido agravada por outros fatores que incidiram bastante nos seus custos, por exemplo, o gás natural, que subiu 39%. Sem dúvidas, é inoportuno esse reajuste”, ressalta Müller.

A presidente da Fampesc (Federação das Associações de Micro e Pequenas Empresas e Empreendedor Individual de Santa Catarina), Rosi Dedekind, diz que vai ser difícil para as empresas repassarem o aumento ao consumidor.

Rosi Dedekind, da Fampesc, também critica o reajuste e avalia que será mais difícil manter empresas abertas – Foto: Divulgação/Fampesc/NDRosi Dedekind, da Fampesc, também critica o reajuste e avalia que será mais difícil manter empresas abertas – Foto: Divulgação/Fampesc/ND

“Vai ser bem complicado, porque o mercado ainda não está recuperado. Vamos ter um período de menor faturamento (…) Manter a empresa aberta vai ser mais complicado.”

O advogado e diretor da Adocon-SC (Associação Catarinense de Defesa dos Direitos dos Consumidores e da Mulher), Bernardo Pessi, também critica o aumento.

“A questão é que vivemos uma crise econômica global, que não se restringe só a energia elétrica (…) A consequência disso no consumidor mais vulnerável, é desastrosa. Tem famílias que já têm dificuldade de pagar conta de luz hoje, imagina com aumento de 5,65%”, critica.

Para Pessi, faltou sensibilidade para entender a situação que o país vive. “A Celesc gera um bom serviço, aumenta dentro da legalidade, mas não é uma empresa que passa por dificuldade financeira (…) Esse aumento vai gerar uma catástrofe familiar para muitas pessoas quando a conta chegar”.

No ano passado, a Celesc teve lucro de R$ 518.7 milhões. O economista Rafael Alvares da Silva ajudou o ND+ a interpretar o mais recente balanço da empresa. Ele comparou os números do segundo trimestre de 2021, em relação ao mesmo período de 2020 e identificou crescimento nos indicadores mais importantes.

“O consumo total de energia elétrica aumentou 18,3%; a receita operacional líquida, ou seja, tudo que a empresa faturou, aumentou 22%, livres de impostos. Quando olhamos para o lucro líquido da companhia, também houve crescimento: de 60,7 milhões, em 2020, para 100,2 milhões, em 2021, aumento de 65%”, registra o especialista.

Aumento poderia ser maior, segundo Celesc

O diretor comercial da Celesc, Vitor Guimarães, disse que o reajuste, de 5,65%, poderia ter chegado a 14,5%. “Não chegou, porque a Celesc entrou com ação para tirar Pis/Cofins da base do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). A gasolina, por exemplo, subiu 39% nesses 12 meses. O IPCA ficou em 8,99% e a nossa tarifa em 5,65%. Reconheço que pesa, mas se formos fazer comparação, ainda é menor índice do que todos esses citados”, disse Guimarães.

Veja, a seguir, para onde vai cada centavo a cada R$ 100 pagos na conta de luz:

  • Distribuidora: 14,5%;
  • Tributos: 26,9%;
  • Encargos do setor: 14,5%;
  • Custo de energia: 35%;
  • Custo da transmissão: 8,4%.

O diretor da Celesc reforçou que o reajuste é determinado pela Aneel e está no contrato de concessão: “A Celesc não tem como negociar”. Ainda segundo Guimarães, nos últimos três anos, a tarifa da Celesc está abaixo da inflação.

“Nosso reajuste médio, nos últimos dois anos, foi 2,79%.” Ele disse, ainda, que o ajuste residencial vai ficar na casa dos 5,19% e que o custo de energia está mais caro.

Segundo Guimarães, somados os reajustes que a Celesc teve em agosto de 2019 e agosto de 2020, o total é -2,79 e. Com o reajuste de 5,65% em 2021, chega-se a 2,26% de aumento em três anos.

“O botijão de gás, por exemplo, subiu 29,29% em um ano”, compara o diretor. Também conforme Guimarães, o reajuste médio das concessionárias, pelo Brasil, é de 8,95% e a Celesc vai ficar entre as mais baratas do país.

*com informações da repórter Anne Beckhauser, da NDTV

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