Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Sob comando da terceira geração da família, Lindacap terá a primeira filial em 57 anos

Neta do garçom que virou proprietário, Caroline Bortolotti De Pellegrini administra um dos mais antigos restaurantes em atividade na Capital catarinense

Formada em administração pela Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), Caroline Bortolotti De Pellegrini representa a terceira geração da família a gerir um dos mais antigos restaurantes da Capital, o Lindacap – que passou aos cuidados do avô, Alindo Bortolotti, em 1964, quando era garçom da casa e da qual se tornou proprietário nos anos de 1970.

Caroline Bortolotti De Pellegrini, gestora do restaurante Lindacap, um dos mais tradicionais de Florianópolis – Foto: Xande Freitas/Divulgação/NDCaroline Bortolotti De Pellegrini, gestora do restaurante Lindacap, um dos mais tradicionais de Florianópolis – Foto: Xande Freitas/Divulgação/ND

Ela está à frente dos negócios, mas conta com a supervisão do pai, Silvio Roberto Bortolotti, de quem é filha única, para liderar a equipe de 28 funcionários, alguns com décadas de dedicação. Ponto de encontro de políticos, empresários e artistas, o Lindacap foi destruído por um incêndio, em 2000. A família o refez, o modernizou e, agora, prepara a expansão.

Foste criada dentro do Lindacap. Que lembranças mais marcantes tens da infância lá?

Eu corria entre as mesas do restaurante, e hoje são meus filhos que correm aqui dentro. O que mais me recordo é da parte da cozinha. Na época, usavam serragem para que os cozinheiros não escorregassem. Imagine essa cena. E existia uma cozinha separada para as sobremesas. Para chegar até lá, era necessário passar por um espaço – que eu chamava de túnel, porque era um corredor sem janelas, mais escuro. Eu adorava ir na cozinha onde a dona Ilda (já falecida) preparava seus inesquecíveis doces. Ah, que sobremesas deliciosas eu saboreava…

A antiga cozinha do restaurante Lindacap, que ficou conhecido pelo tradicional espeto-corrido – Foto: Divulgação/NDA antiga cozinha do restaurante Lindacap, que ficou conhecido pelo tradicional espeto-corrido – Foto: Divulgação/ND

Em que momento percebeste a vontade de se dedicar à continuidade dos negócios da família?

Com 16 anos, comecei a sair para a balada com amigas e já queria ter o meu dinheiro. Nunca gostei de ficar pedindo. Aí, falei para meus pais que eu queria trabalhar. Foi assim que tudo começou, buscando minha independência.

Sucedendo o teu avô, Alindo Bortolotti, o teu pai, Silvio Roberto Bortolotti, assumiu a administração em 1990. Contigo, chega a terceira geração no comando da casa. Quando começaste a dirigi-la?

Antes do incêndio [em 2000], trabalhei um tempo no caixa. Depois deste fato, ajudei na tele-entrega, a tirar pedidos, a entregar pedidos, enfim, me esforçava para conseguirmos juntos atravessar esta fatídica fase e recuperar o nosso negócio. Hoje, as responsabilidades são minhas, mas meu pai ainda está na ativa e supervisiona. Ele está sempre por perto para me ensinar, aconselhar, instruir. A experiência dele eu ainda não tenho, mas tento seguir todos os exemplos que ele me deu ao longo da vida, não só em relação aos negócios, mas pelo caráter.

Caroline e o pai, Silvio Roberto Bortolotti, seu antecessor na administração do Lindacap – Foto: Divulgação/NDCaroline e o pai, Silvio Roberto Bortolotti, seu antecessor na administração do Lindacap – Foto: Divulgação/ND

Que outras funções tiveste no restaurante?

Faço tudo o que for preciso! Não tenho medo do trabalho. Por todos os setores eu já passei: manobrei carro, entreguei comida, fiquei no caixa, atendi, fiz suco, fiz camarão à grega. Temos uma equipe engajada, comprometida e responsável, mas, se for preciso, eu coloco a mão na massa.

O Lindacap foi construído num local considerado distante do Centro na década de 1960, e o acesso não era dos melhores. Como conseguiram atrair os clientes?

O restaurante já existia bem antes, e não temos essa data. Era de propriedade do dono do Gruta Azul, de Blumenau, e do dono da Usina de Leite, de Florianópolis. Sim, era longe do Centro e, em dias de chuva, era bem difícil chegar no local. Para atrair os clientes, meu avô convidava as pessoas para irem comer de graça e conhecer a casa. Mesmo assim, a maioria não ia porque, na época, havia muito preconceito. As pessoas não aceitavam quem era de fora, de outras cidades. Por isso, o esforço tinha que ser muito grande para conquistar a confiança dos clientes.

Restaurante Lindacap em três períodos distintos de sua história – Foto: Divulgação/NDRestaurante Lindacap em três períodos distintos de sua história – Foto: Divulgação/ND

O marreco recheado, carro-chefe da casa, é servido há mais de 50 anos. Como um prato típico germânico foi parar no cardápio de um restaurante da Capital famoso pelo espeto-corrido?

Sim. O restaurante, em 1964, era uma churrascaria. Acontece que os fundadores eram descendentes de alemães e adoravam comer marreco recheado com repolho roxo, chucrute e batatas cozidas. Por isso, implantaram este prato no cardápio. O primeiro restaurante a servir marreco em Florianópolis foi o Lindacap, porque aqui ninguém conhecia essa iguaria. Até hoje acho que ainda é um dos poucos ou o único a servir esse prato. No decorrer dos anos, fomos implantando a culinária alemã, italiana e açoriana.

Quantos funcionários compõem a equipe hoje? Ainda há colaboradores que iniciaram na época do seu Alindo?

Hoje, contamos com uma equipe de 28 funcionários e, sim, temos profissionais que atuam desde a época de meu avô e se tornaram membros de nossa família, como o nosso chef, Ivo Schreiber, e a cozinheira Zenaide Silvério Velho. Alguns se aposentaram por motivo de saúde, mas ainda frequentam o restaurante e mantêm vínculos afetivos conosco. Pensar em dispensá-los?  Nunca! Temos orgulho, gratidão e muito respeito por quem sempre nos ajudou e nos ajuda até hoje.

Da esq. para dir.: Silvio Roberto, Caroline e o chef Ivo Schreiber, que tem mais de 50 anos dedicados ao restaurante da família Bortolotti – Foto: Divulgação/NDDa esq. para dir.: Silvio Roberto, Caroline e o chef Ivo Schreiber, que tem mais de 50 anos dedicados ao restaurante da família Bortolotti – Foto: Divulgação/ND

Por que o Lindacap se tornou local de importantes encontros e acordos políticos?

Não sabemos ao certo, mas como existiam várias áreas reservadas e o restaurante sempre foi bem localizado, com estacionamento e de fácil acesso, acreditamos que possa ter contribuído para isso. O Lindacap se tornou por muitos anos o restaurante dos políticos e empresários, e, há 57 anos, esta tradição continua. Porém, os ambientes não foram projetados para isso, a estrutura já era assim. Meu avô nunca teve nenhum envolvimento com política. Aliás, ele passava para seus funcionários que em política, religião e futebol não se dá palpites. Sempre foi muito discreto e comprometido com o seu negócio, buscando o melhor para seus clientes. Ele conseguia como ninguém fidelizá-los.

Alguns famosos que já passaram pela casa?

Já perdemos a conta das celebridades que passaram pelo nosso restaurante. Foram desde presidentes da República a cantores e artistas famosos. Sempre me lembro da presença da Xuxa e do Pelé, que marcaram a minha memória.

Pelé, ao centro, uma das celebridades que costumavam a aparecer no Lindacap, rodeado pela equipe do restaurante – Foto: Divulgação/NDPelé, ao centro, uma das celebridades que costumavam a aparecer no Lindacap, rodeado pela equipe do restaurante – Foto: Divulgação/ND

O incêndio de 2000 destruiu o restaurante. No primeiro momento, o que se pensou em fazer?

No primeiro momento, foi muito desespero, pois 50 famílias dependiam do Lindacap. Um pouco antes do incêndio, meu pai havia baixado o seguro para reduzir custos. Meu pai pagava aluguel para meu avô e meu avô falava para ele: “vamos vender isso tudo, o restaurante não está dando mais lucro. Você está se acabando de tanto trabalhar, vamos aproveitar agora e vender”.

Meu pai, determinado como sempre foi, não aceitou a sugestão, pois não queria deixar acabar a história construída com tanto esforço por todos. Lembro que, na época, um dono de construtora ligou para meu avô e disse: “Alindo, qual é o preço do terreno? Estou transferindo o dinheiro para a tua conta agora!” Naquela época, se tratava no fio do bigode, e depois é que iam para os trâmites de contrato. Meu pai, então, negociou: metade do terreno foi vendida e a outra é onde o restaurante permanece até hoje.

Imagem do que restou do restaurante Lindacap, em 2000 – Foto: Divulgação/NDImagem do que restou do restaurante Lindacap, em 2000 – Foto: Divulgação/ND

Por causa da tragédia, foi implantado o serviço de entrega. Como foi a adaptação?

Diante da tragédia, meu pai entrou em depressão. Imagina ver seu negócio evaporar da noite para o dia. Ele ficou uns 10 meses muito mal e eu, muito jovem, dizia para ele: “pai, você precisa reagir, você precisa me criar!” Num belo dia, ele levantou e me disse: “filha, o pai vai reagir, sim!” E daquele dia em diante, ele me mostrou o que sempre teve: garra, coragem, força e determinação. Foi onde surgiu a ideia do delivery. Alugamos uma casa e, em família, fomos à luta. Eu, meu pai, minha mãe e um funcionário, o Ademar, abraçamos o novo desafio e, literalmente, ressurgimos das cinzas.

Silvio Roberto e o pai, Alindo Bortolotti, que morreu em 2014, aos 78 anos – Foto: Divulgação/NDSilvio Roberto e o pai, Alindo Bortolotti, que morreu em 2014, aos 78 anos – Foto: Divulgação/ND

Duas décadas depois, a pandemia obrigou muita gente a pedir comida em casa. O que mudou neste tipo de serviço de lá para cá?

Como já tínhamos este sistema, pouco mudou, além da demanda ter aumentado por causa do momento e de termos aderido às novas plataformas. Seguimos todos os protocolos de biossegurança por causa do coronavírus para garantir a segurança de nossos clientes e continuamos atendendo com a mesma qualidade de sempre.

Além da tradicional feijoada no inverno, do próprio marreco recheado e dos bufês especiais de Dia dos Pais, Dia das Mães, Natal e Réveillon, a casa passou a criar alternativas, como cafés coloniais beneficentes e happy hours. Por que diversificar desta forma?

Fomos atendendo as demandas que surgiram. O happy hour, na verdade,  anunciamos depois que muitos clientes vinham até o Lindacap e, vendo as portas fechadas, batiam no vidro para serem atendidos.

O café beneficente “Entre Amigas”, que conseguiu reunir um grupo de mais de 300 mulheres numa tarde no meio da semana, em suas duas edições, surgiu de uma amizade. Conhecemos a Scheila Yoshimura, que abdicou de sua carreira de jornalista para se dedicar voluntariamente à Casa Lar Semente Viva, que acolhe crianças em situação de risco.

O amor, o carinho com que a Scheila cuida e administra a Casa é de arrepiar. Ela não ganha renda monetária como coordenadora, mas ganha o amor das crianças (ao ver suas histórias ressignificadas), que é o que a move, e isso nos moveu também. A terceira edição não ocorreu por causa da pandemia, mas já está em nosso calendário quando tudo normalizar. Toda renda é destinada a este projeto que o Lindacap apadrinhou.

As pessoas mudaram os hábitos, incluindo horários, locais, formas e tipos de alimentação. Como adaptar o restaurante às demandas atuais sem perder as características?

Precisamos estar atentos às mudanças de comportamento e as tendências que surgem. Fomos, por exemplo, pioneiros em oferecer pratos sem glúten, pensando nas pessoas celíacas, cujas estatísticas aumentavam, sem que pudessem se alimentar bem e com qualidade. O mundo está em constante transformação, então, precisamos nos adaptar à realidade, estando sempre abertos para inovar sem perder as nossas características e tradição.

Caroline Bortolotti De Pellegrini, agora, promove a expansão do Lindacap – Foto: Xande Freitas/Divulgação/NDCaroline Bortolotti De Pellegrini, agora, promove a expansão do Lindacap – Foto: Xande Freitas/Divulgação/ND

Está prevista para setembro deste ano a inauguração da primeira filial, na via gastronômica de Coqueiros. Por que expandir somente 57 anos depois? Há intenção de abrir mais unidades depois?

Na verdade, durante este tempo, ampliamos nossos negócios, mas com outras marcas. Já fomos sócios do Guaciara, no Estreito; da San Remo, na Beira-mar Norte; de um restaurante em Itapema; e, em Balneário Camboriú, do Tut’s; e até de um posto de gasolina.

Há algum tempo, estávamos estudando a expansão do restaurante, e agora chegou o momento. A escolha da via gastronômica de Coqueiros se deu pela localização privilegiada que conseguimos, com vista para o mar, onde iremos aliar a nossa tradição com modernidade. Será um local que terá espaço para todos: desde os clientes mais antigos até os mais jovens e crianças.

Queremos ver os netos de nossos clientes pedirem para frequentar o nosso restaurante. Meu avô conseguiu fidelizar os clientes e esta essência eu quero perpetuar. Quanto à abertura de novas unidades, sou muito jovem ainda e creio que na trajetória profissional, ainda terei muito a desbravar…