Franca demite, reduz produção e perde esperança no setor calçadista

FRANCA, SP (FOLHAPRESS) – Quinta-feira (30), 12h30. Desempregada há três anos, Carmem Aparecida Cantarino, 52, sai de casa mais uma vez em busca de um trabalho. Nem sabe mais quantos currículos já distribuiu -mais de uma dezena por dia-, mas apesar da falta de esperança sonha em voltar a atuar em uma indústria calçadista em Franca (a 400 km de São Paulo).

Denominada capital nacional do calçado, Franca tem sofrido uma forte crise no setor, que fez com que as 30 mil vagas existentes há cinco anos fossem reduzidas para apenas 19.727 de julho.

É o pior quadro para o mês desde 2002. Só entre maio e julho, foram fechadas 1.302 vagas nas fábricas locais.

A produção das indústrias, desde então, também só despenca: dos 39,5 milhões de pares fabricados em 2013, a previsão é que neste ano sejam feitos apenas 28 milhões, mais fraco desempenho desde 1996 -quando a cidade exportava mais e sofreu muito com a crise cambial no governo FHC.

Isso assusta Carmem. Sem as empresas gigantes de outrora onde atuou, como Samello e Agabê -que estão no mercado, mas em escala menor-, ela quer uma vaga em qualquer fábrica, para deixar os bicos que tem feito para viver.

“Faço o que precisar, sei disso, tenho 25 anos de experiência em várias funções, mas não tenho conseguido.”

Ela faz parte de um contingente em que também está Alexandre Silva, 44, parado há oito meses e que deve três meses de pensão alimentícia.

“Já entreguei mais de 400 currículos em bancas de pesponto, em todos os lugares possíveis, mas sinto que neste ano não conseguirei nada. Não sei mais o que fazer.”

Franca já chegou a exportar num só ano 15 milhões de pares (1993), volume que em 2018 não deve passar de 2,8 milhões. EUA, Argentina, Bolívia, Chile e Uruguai representam cerca de 60% do mercado comprador.

MIGRAÇÃO

As empresas alegam que a guerra fiscal com outros estados e a falta de políticas para o setor contribuem para o cenário.

Grandes fábricas, como a Democrata -que produzem 12 mil pares diários-, transferiram linhas de produção para o Nordeste e em estados como Minas Gerais, onde o ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços) da atividade é de 2%, ante os 7% de São Paulo.

O piso salarial de Franca é de R$ 1.148, enquanto no Nordeste as vagas pagam menos de R$ 1.000. Mas há outras diferenças, como subsídio de energia, impostos e imóvel para instalação.

Com isso, fábricas da cidade acumulam demissões de trabalhadores e lamentam a perda da competitividade.

“Este ano já perdemos, já era. Sem uma reforma tributária sofreremos ainda mais. Além da concorrência interna, recebemos um ministro do Paraguai que veio aqui oferecer condições tentadoras”, afirmou o presidente do Sindifranca (sindicato das indústrias), José Carlos Brigagão do Couto.

Na empresa Shelter, que está na segunda geração de calçadistas, desde o início do ano o quadro de empregados foi reduzido de 190 para 160, mas o cenário poderia ser ainda pior, na avaliação de Carlo Braganholo Leal, diretor financeiro da empresa, e seu irmão Marcel, responsável pela área industrial.

“O Bruno [também irmão] vai a feiras nos EUA e Europa todos os anos, busca tendências e passamos a diversificar a produção, com outros tipos de couros e cores, além de fazermos dois lançamentos por ano, em vez de um. Não fosse isso, poderíamos ter perdido cem [empregados], pois o cenário é complicado”, disse Marcel.

A empresa, que até março produzia 1.600 pares por dia, atualmente faz 1.200. A diversificação inclui produzir calçados menos tradicionais e mais vanguardistas. “Se fizéssemos desde sempre só o convencional possivelmente teríamos fechado”, disse Marcel.

Já a empresa de Téti Brigagão, diretor das marcas Sândalo/Clave de Fá, chegou a produzir 600 pares de calçados por dia, mas agora tem feito 400, dos quais 20% para exportação.

“Não tem como tapar o sol com peneira. Estaríamos nadando em braçadas maiores se a economia ajudasse”, disse ele, cuja família foi uma das primeiras a exportar para os EUA, nos anos 70.

A Sândalo enfrenta há anos uma recuperação judicial e não tem produção própria, mas mantém a marca com duas empresas licenciadas.

Além de reduzir a produção, a fábrica de Téti não consegue ter o quadro ideal de funcionários. Os cem empregados desejados só são alcançados de dezembro a maio, quando há mais pedidos. No resto do ano, o total cai para 80 funcionários.

“Poderíamos perpetuar esse quadro de cem, mas a crise gera essa ausência de crescimento.”

Psicóloga e coordenadora de RH da Agiliza, empresa que atua no recrutamento e seleção de mão de obra em Franca, Rosângela Baldini Silva disse que em 19 anos na atividade nunca encontrou um cenário tão ruim para quem busca empregos nas indústrias.

“Recebemos de 60 a 70 currículos por dia, dos quais ao menos 80% são de pessoas buscando vaga no setor. Mas não há.”Muitos têm migrado para a construção civil.

FOCO

Além dos problemas setoriais, as indústrias de Franca sofrem com um agravante. A cidade é historicamente um polo especializado na produção de calçados masculinos adultos, público que consome menos que mulheres e crianças.

Com isso, numa crise, ele não compra sapatos novos, na avaliação de fabricantes locais.

Somente em 2017 a cidade deixou de produzir 13 milhões de pares de sapatos, segundo o Sindifranca -conforme a capacidade instalada.

“Embora a previsão seja de fabricar 28 milhões de pares neste ano, não temos como garantir que conseguiremos”, disse Couto.

Dados obtidos pelo Sindifranca com uma consultoria mostram que um trabalhador calçadista custa por hora US$ 0,95 na Índia, US$ 1,66 no Vietnã, US$ 2,58 na China e US$ 4,05 no Brasil.

“São os encargos que pesam. Sem eles, conseguiríamos concorrer. Não é a primeira recessão, mas essa parece uma somatória de todas as crises. Sem reforma, não sei o que pode se seguir.”

Presidente do sindicato dos sapateiros, Sebastião Ronaldo de Oliveira disse que há empresas que se aproveitam da crise para cortar gastos e que o total de empregos cai também devido à automação.

“Sempre cai a quantidade de trabalhadores, mas o número de pares de sapato não segue a mesma proporção”, disse.

Desde março os sindicatos dos empregados e o patronal tentam fechar dissídio salarial, mas as empresas oferecem a correção inflacionária de 1,81%, segundo o IPC, e o sindicato não aceita. Se desempregados como Carmem e Alexandre não têm tido sucesso em sua busca diária por uma vaga, nem todos os casos são de final infeliz na economia local. Depois de ficar sem emprego por seis meses, Everaldo de Souza obteve há dois meses uma vaga no setor de expedição de uma empresa.

“Estou com 51 anos e desde os 13 trabalho com calçados, é o que sei fazer, mas cada vez está mais difícil, sem perspectiva. Que eu consiga manter esse emprego por muitos anos”, disse.

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