“Teremos que realizar um corte drástico nas nossas despesas”, diz presidente da Fecomércio

Entidades do setor privado pedem engajamento da gestão pública para o enfrentamento da crise; corte de salários de servidores é alternativa

Em meio à crise sanitária, entidades do setor empresarial pedem o engajamento do poder público em favor da população. A exemplo de empresas que adotaram medidas de contenção, o Estado também deveria reduzir seus gastos.

Comércio busca alternativas para enfrentar a crise em Santa Catarina – Foto: Marco Santiago/NDComércio busca alternativas para enfrentar a crise em Santa Catarina – Foto: Marco Santiago/ND

O Grupo ND defende que os salários dos servidores públicos — em exceção aos trabalhadores da saúde e segurança pública — seja reduzido em 25% por três meses.

O montante arrecadado deverá ser repassado para que o Governo Federal utilize na área da saúde na luta contra o coronavírus.

O presidente da Fecomércio (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina) Bruno Breithaup, afirmou que os três poderes devem cortar drasticamente suas despesas.

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A ação deve seguir o exemplo do próprio setor de comércio e serviços, que já adotou medidas trabalhistas para minimizar a crise econômica e financeira.

“Teremos que realizar um corte drástico nas nossas despesas. Ai incluindo cortes de salários para a sobrevivência das empresas do comércio. Faço aqui um apelo para que os três poderes constituídos do nosso país tenham também a possibilidade de drasticamente reduzir suas despesas, inclusive com corte de salários para minimizar os problemas causados pela Covid-19”, disse Breithaup.

A Fecomércio, que representa o setor de comércio e serviços, atende diariamente empresários que buscam formas de se adaptar ao novo cenário.

“Tiramos dúvidas diariamente sobre as medidas do governo e vemos que a maioria dos empresários do ramo não quer demitir, mas sim manter o funcionário e obter o mínimo de lucro para não fechar as portas’, comenta o gerente jurídico da Fecomércio, Rafael Arruda.

Um levantamento feito pela entidade com 200 empresários mostrou que 85% dos entrevistados estão prevendo ajustes junto aos empregados. Do total, 55,9% considerou a redução do quadro de funcionários, 47,1% a compensação de horas e 44,1% a concessão de férias individuais.

“As incertezas dos empresários em relação às consequências da pandemia nos negócios reforçam a necessidade de medidas rápidas e efetivas”, completou o presidente da Fecomércio.

Fim do egoísmo

O setor de transportes também é afetado pela crise do coronavírus. Considerado setor essencial, ele tem autorização de funcionamento garantido, mas teve de se adaptar ao momento econômico.

“Nós somos uma atividade essencial que está desempenhando um papel importante e garantindo o abastecimento do Estado”, diz o presidente da Fetrancesc (Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado de Santa Catarina) Ari Rabaiolli.

Presidente da Fetrancesc fala em fim do egoísmo – Foto: Divulgação/NDPresidente da Fetrancesc fala em fim do egoísmo – Foto: Divulgação/ND

Rabaiolli, que também é dono de uma transportadora, afirma que as empresas tiveram que reduzir o quadro de funcionários, afastando pessoas que pertencem aos grupos de risco. Em sua empresa, 25% do efetivo foi diminuído.

Em sua avaliação, o governo do Estado e até mesmo o Ministério Público também devem reduzir suas despesas e, em suas palavras, “deixarem de ser egoístas”.

“O funcionalismo público tem que contribuir com redução de salários. O mesmo vale para o poder judiciário e o Ministério Público. Nós, enquanto iniciativa privada, somos quem paga os impostos e deixar que paguemos as contas sozinhos é complicado”, completa.

Ele disse ainda que o setor dos transportes tem trabalhado dentro das normas de segurança desde que as medidas foram anunciadas. Não há, segundo Rabaiolli nenhum caminhoneiro infectado.

Observatório Social diz que todos devem dar sua contribuição

A crise que se instala no país e em Santa Catarina é motivo de preocupação em todos os níveis da sociedade e tem movimentado muitas entidades que buscam alguma alternativa ao provável caos.

O Observatório Social de Florianópolis enviou ofícios à Câmara de Vereadores e à Prefeitura sugerindo que ambos os poderes ampliem os prazos de redução de salários e também que os respectivos decretos abranjam outras funções. Na semana passada, o presidente da Câmara e o prefeito da Capital assinaram decreto reduzindo os próprios salários por dois meses.

“Louvamos o que o prefeito e a Câmara fizeram, mas é preciso ir mais fundo. Eles têm o direito de não aceitar, mas nosso papel é cobrar”, afirma o presidente do Observatório, Roberto Zardo.

Para ele, o editorial do Grupo ND sintetiza o que precisa ser feito por toda a sociedade: cortar na própria carne. “O Observatório acredita que todos devem dar sua contribuição. Não é o momento de um apontar para o outro, mas de se pensar como nós, brasileiros, podemos dar nossa contribuição”.

A contribuição sugerida por Zardo é o exercício da cidadania. “O cidadão tem o direito e o dever de se manifestar, de maneira democrática e respeitosa, e de cobrar das pessoas, que ajudou a eleger ou não, mudanças efetivas que precisam ser feitas com urgência. Cada um de nós deve exercer o poder de cidadão”, avalia.

Cortes no setor privado

Publicada na última quarta-feira (1º), a MP (Medida Provisória) 936 criou o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda. O texto, que vale por 120 dias e pode sofrer alterações do Congresso, estabelece medidas trabalhistas temporárias.

A MP permite a redução proporcional de jornadas e salários e a suspensão de contratos de trabalho. Com custo de R$ 51,2 bilhões ao governo, o programa espera beneficiar 12 milhões de brasileiros que perderiam os empregos.

A proposta do governo oferece três faixas de redução salarial: de 25%, 50% e 70%. A medida evita demissões, fazendo com que empresários fiquem responsáveis apenas por outra parcela do valor.

O valor reduzido será pago pelo governo com um benefício que será calculado com base no seguro desemprego. Trabalhadores que ganham um salário mínimo e tiverem o salário reduzido, terão o salário complementado até o valor mínimo em qualquer faixa de dedução.

A medida, alerta o gerente jurídico Rafael Arruda, tem carácter temporário e vale para os todos os setores econômicos. A medida expira junto com a determinação de calamidade pública, em vigor em razão da pandemia.

A Fecomércio não tem um balanço oficial em relação a adesão à medida. Contudo, Rafael Arruda comenta que a procura por orientações aumentou desde que a MP foi publicada. “A preocupação que sentimos é em relação a manutenção desses trabalhadores”, disse.

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