À frente de grandes pesquisas, conheça 5 mulheres de Santa Catarina que escreveram o nome na ciência

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Número de mulheres pesquisadoras ainda é pequeno em algumas áreas e acesso a postos de comando ainda é entrave, mas elas persistem e abrem caminho para outras

REPORTAGEM: Andréa da Luz
EDIÇÃO: Dariene Pasternak

O número de mulheres em postos de trabalho tradicionalmente ocupados por homens vem aumentando gradativamente. E, à medida que ocupam novos espaços, elas também conquistam reconhecimento por seus feitos. E isso não é pouca coisa, dado que a História por muito tempo ignorou a produção das mulheres em descobertas científicas, creditando suas descobertas aos homens. 

Resquícios desse tempo ainda existem e é preciso vencer uma série de dificuldades para ser cientista no Brasil. Além de restrições orçamentárias para pesquisas e a cobrança por produtividade o tempo todo, ignora-se o fato de que a maternidade é um período em que a mulher precisa de tempo para a família.  

Ainda assim, elas resistem e seus exemplos servem de trilha para que muitas outras as sigam ou abram seus próprios caminhos. A reportagem do ND+ entrevistou cinco mulheres que abraçaram a ciência e compartilham um pouco das suas histórias.

Curiosidade de infância

Larissa Dalpaz estuda baleias e golfinhos – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND

A bióloga florianopolitana Larissa Dalpaz, 28 anos, é curiosa e adora animais desde criança. Porém, teve dúvidas ao ingressar na graduação e acabou optando por Engenharia Sanitária Ambiental. Mas bastaram algumas aulas nos laboratórios de Biologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) para voltar a ter curiosidade da infância. “Foi aí que tive a certeza de que essa era a área que eu queria”, diz Larissa. 

Ela trocou de curso e, ao participar de um projeto de monitoramento embarcada avistou as baleias-de-Bryde, que habitam a Bacia de Santos, entre Florianópolis e Cabo Frio (RJ).

“Procurei mais informação e vi que tinha pouquíssima coisa sobre elas. Então, esse foi meu objeto de estudo no mestrado em Ecologia”, conta. Sua pesquisa revelou rotas de deslocamento, dados sobre reprodução e tipos de cuidados para a preservação da espécie.

Os resultados foram apresentados na Conferência Mundial de Mamíferos Marinhos, na Espanha, em dezembro passado. E lhe rendeu o prêmio de melhor apresentação estudantil da América do Sul.

“Ter o reconhecimento da minha pesquisa na maior conferência da área foi um incentivo a mais para continuar na área e investir no doutorado”. Aliás, ela já foi aprovada e aguarda a liberação de bolsas para ingressar no doutorado em Ecologia, na UFSC. E agora, vai ampliar o escopo da pesquisa para baleias e golfinhos. 

Quanto mais se avança na carreira, menos representatividade

Para a bióloga, solteira e sem filhos, a representatividade feminina é muito importante. “Ver mulheres atuando na área mostrou que eu também podia. Entretanto, à medida que se avança na carreira, o número de mulheres diminui, ficando mais restrito a tarefas menos valorizadas, enquanto cargos de gestão e de chefia são majoritariamente preenchidos por homens”, analisa. 

“Precisamos abrir espaço para todos (negras, indígenas, trans), porque quanto mais diversidade mais rica se torna a ciência”, defende Larissa. “Não podemos deixar de lutar, para que outras mulheres possam ocupar esses espaços e a universidade pública se torne mais diversa. Essa é uma luta coletiva”. 

Computação e educação inclusiva

Para a bacharel em Ciências da Computação e pesquisadora da Univali (Universidade do Vale do Itajaí), em Itajaí, Adriana Gomes Alves, há uma crença de que a área tecnológica é para homens.

“As mulheres não procuram muito. Na graduação em Computação somos apenas duas professoras, em um universo de mais de 20 docentes. Alunas também são poucas: uma ou duas em turmas de 30 alunos”, aponta.

Da esquerda para a direita, as pesquisadoras Karla Demonti Passos Cathcart, Regina Célia Linhares Hostins e Adriana Gomes Alves – Foto: Pepo Schuster, austrofocus.at/ND

“É uma pena, porque há vagas no mercado, o salário é atrativo e temos plenas condições intelectuais de trabalhar nesse campo. Não precisamos ser melhores do que os homens, mas competentes naquilo que fazemos”, opina Adriana.

Foi acreditando nisso que ela venceu as dificuldades e, mesmo casada e mãe de dois filhos, a blumenauense não desistiu da profissão. Aos 53 anos, acumula um mestrado em Engenharia de Produção e doutorado em Educação.

Zero Project Awards

É uma das três pesquisadoras da Univali que venceram o Zero Project Awards, iniciativa internacional que reconhece práticas inovadoras com foco na melhoria da qualidade de vida de pessoas com deficiência.

O  trabalho “Design de jogos por crianças na escola inclusiva: desenvolvimento de imaginação e criatividade” é fruto das teses de doutorado dela e da pesquisadora Karla Demonti Passos Cathcart, orientadas pela professora Regina Célia Linhares Hostins.

A pesquisa foi aplicada em duas escolas no ano passado, durante oito meses, com cerca de 50 crianças do ensino fundamental, com e sem deficiência. 

“A criação de jogos digitais é um processo complexo, mas adaptado como ferramenta pedagógica pode ser um trabalho colaborativo e criativo, mesmo entre alunos com deficiência. As crianças demonstraram interesse, envolvimento e capacidade intelectual”, diz Adriana. 

Nações unidas

Os resultados foram apresentados em conferência nos escritórios das Nações Unidas em Viena, na Áustria, entre 19 e 21 de fevereiro. Agora, a professora vai analisar os pontos positivos e negativos da experiência para elaborar uma proposta pedagógica que possa ser estendida a todo o município. 

“Não senti falta de oportunidades por ser mulher, já fui coordenadora e líder de equipe no setor privado antes de vir para a universidade. Mas temos que ir conquistando esses espaços e não desistir, pois temos condições iguais de competir”, afirma. 

Revisão da história é importante

A astrofísica Natalia Vale Asari foi premiada pela Sociedade Brasileira de Física – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Para a pesquisadora da evolução das galáxias, Natalia Vale Asari, professora do departamento de Física da UFSC, é preciso rever a participação das mulheres na história da Ciência.

“Principalmente para o público leigo, mas não basta ir às escolas e mostrar a meninas que existem mulheres cientistas. É necessário mudanças mais profundas na sociedade para começarmos a melhorar a representatividade de mulheres e minorias em diversas carreiras”, afirma.

Casada e sem filhos, a brasiliense de 38 anos está em Florianópolis desde 2001, quando transferiu a graduação em Física na UnB (Universidade de Brasília) para a UFSC. Com mestrado e doutorado em astrofísica, pela UFSC e Observatório de Paris, e dois pós-doutorados (Cambridge e St. Andrews), Natalia venceu a 2ª edição do Prêmio Carolina Nemes, em 2019.

Reconhecimento com prêmio que homenageia uma mulher

Ele é concedido pela Sociedade Brasileira de Física a pesquisadoras em início da carreira, cujo trabalho tenha contribuído para o avanço da física ou do ensino de física no país. 

“O prêmio representa um reconhecimento da minha trajetória como pesquisadora e da importância dos estudos que fiz. Também é um reconhecimento da importância do trabalho de todos que me ajudaram, na vida pessoal e profissional. Fico honrada em ter meu nome associado à Carolina Nemes, que foi uma física realmente excepcional”, afirma.

Por outro lado, a pesquisadora afirma que na Física ainda há poucas mulheres, enquanto na área de Astronomia a disparidade é menor, chegando em torno de 40% dos pesquisadores em nível mundial.

“Nunca enfrentei discriminação por ser mulher, mas foi difícil ser reconhecida como pesquisadora independente. Como trabalho no mesmo departamento do meu orientador, quando fazemos pesquisas e publicamos artigos, é comum considerarem minha participação menor do que é”, avalia. 

Com pós-doutorado em astrofísica, Natalia Vale Asari defende mudanças mais profundas na sociedade para melhorar a representatividade de mulheres – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Na opinião de Natália, há situações bem sutis: “mulheres fazem menos perguntas em eventos e têm menos chance de proferirem palestras, até porque existem menos mulheres no topo da carreira”. Ainda assim, vale a pena lutar. “Tenham curiosidade, estudem, aproveitem oportunidades para crescer, e procurem mentores e mentoras que ajudem no seu crescimento profissional. A ciência é para todos”.

Um ponto fora da curva

Lígia Moreiras Sena trocou a neurociência pela saúde coletiva – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Uma cientista que virou mãe. E que, após a maternidade, deu uma guinada de 360 graus e continua alterando rotas, sempre. Assim é a vida da cientista Lígia Moreiras Sena, 41 anos, natural de São Paulo, mas moradora da capital catarinense há 15 anos. 

Desde os 12 anos ela já sabia o que queria: ser engenheira aeronauta. Mas o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) não aceitava mulheres. Então, fez Ciências Biológicas, depois um mestrado em Psicobiologia na USP e o primeiro doutorado, em Neurociência, na UFSC, defendido em 2009. 

“Atuei nessa área por 15 anos, era minha meta continuar nela. Aí fiquei grávida e tudo mudou, porque eu não sabia nada sobre gestação, ser mãe. Comecei a buscar informações e descobri um mundo de desigualdades e opressões. Eu nem era feminista na época, mas entendi que tinha algo muito errado, com tantos relatos de violência no parto e outras situações”, diz.

Cientista que virou mãe

Com uma gestação não planejada em andamento, Lígia entrou em crise com sua carreira. “Percebi que os resultados do meu trabalho levavam muito tempo para dar retorno a quem financia a pesquisa no Brasil, que é o povo, através dos impostos”.  Foi então que ela criou um blog, o Cientista que virou mãe, para compartilhar suas angústias e descobertas.

“Centenas de pessoas acessavam em busca de outro tipo de informação que não a divulgada pela mídia tradicional. Entendi que eu seria mais útil se fosse uma cientista das mães e abandonei meu pós-doutorado. Logo em seguida, ingressei em outro doutorado, dessa vez em Saúde Coletiva, na UFSC, estudando a violência obstétrica quando ninguém falava muito sobre isso”, conta.

Lígia e a filha Clara, de nove anos, após guinada na carreira – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND

“O ambiente acadêmico é machista e misógino, porque quanto mais você produz, melhor para o orientador. Além disso, quando a pesquisadora engravida, muitos orientadores pedem para ela se afastar, o que é inaceitável”, diz Lígia. Outro aspecto é a dificuldade de acesso a graus mais elevados na carreira. “O critério produtivista favorece quem produz mais, mas quem vai cuidar das crianças? Todos precisamos cuidar delas, mas na maior parte da vezes sobra para a mulher”. 

Não aceitar a invisibilidade

Entre o site e o doutorado, um complementando o outro, nasceu a Clara, em 2010. E ela continuou sua vocação de cientista, mas agora para falar diretamente com seu público, as mulheres. O blog virou uma plataforma onde várias profissionais produzem artigos ajudando umas às outras, através de um financiamento colaborativo. 

Lígia também oferece mentoria e apoio materno, online e presencial. Metade da clientela paga pelo serviço e a outra metade é atendida gratuitamente. Para as mulheres, ela deixa um recado: “A gente tem que se ver como protagonista e não aceitar a invisibilidade. Muitas vezes o que chamam de amor é apenas trabalho não remunerado”.

Disciplina, persistência e amor pelo que faz

Esses são os ingredientes que movem a professora e pesquisadora da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), Adriana Coutinho de Azevedo Guimarães. Aos 46 anos, a ex-dançarina de balé clássico, se prepara para se tornar imortal e ocupar a cadeira número 2 da  Academia Brasileira de Educação Física. A honraria será concedida pela Federação Internacional de Educação Física, no dia 12 de março, no Cefid (Centro de Ciências da Saúde e do Esporte), em Florianópolis. 

Pesquisadora Adriana Coutinho de Azevedo será a primeira mulher catarinense a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Educação Física – Foto: Flavio Tin/ND

Seu nome foi escolhido pelos membros da Academia, após análise de currículos, trajetória profissional e acadêmica e contribuições à área da Educação Física dos indicados.

“Serei a primeira mulher catarinense a compor a Academia, que reúne escritores, pesquisadores, atletas olímpicos e paralímpicos. Estou honrada pela valorização do meu trabalho, da instituição onde atuo e da educação em nosso país”, diz Adriana.

Formada em Educação Física, ela se especializou em Gerontologia, fez mestrado em Educação Física na UFSC e doutorado em Motricidade Humana na Universidade de Lisboa. Leciona nos cursos de graduação em Educação Física e no Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano (mestrado e doutorado) na Udesc.

Também é pesquisadora e coordenadora do programa de extensão Ritmo e Movimento, atuando com pacientes com doença de Parkinson e mulheres sobreviventes de câncer de mama, entre outros projetos.

“Fácil não é”

“No mestrado trabalhei com idosos, que são pessoas com quem aprendemos muito. Já no doutorado, abordei a fase da menopausa e do climatério, que é um processo difícil e traumático para muitas mulheres”, conta.

Atualmente, orienta pesquisas de mestrado e doutorado sobre o efeito do exercício físico no combate aos sintomas dessa fase da vida.

“Geralmente só se fala no calorão, mas os sintomas da menopausa envolvem desde aspectos psicológicos como ansiedade e depressão, até problemas físicos como a secura vaginal, insônia, dores nas articulações, queda de cabelos, ganho de peso, etc”

Adriana acredita na força da persistência e da disciplina para driblar as dificuldades que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho.

“Fácil não é, porque temos dupla tarefa com a casa, muitas têm filhos, é uma sobrecarga maior. E na docência em ensino superior há uma exigência de produção de artigos em revistas qualificadas, passamos muitas horas longe da família. Mas temos uma força muito grande. Com disciplina, persistência e amor pela profissão é possível”, avalia.