Alunos ouvintes de escola de Florianópolis aprendem libras em sala junto com colega surda

O trabalho de aprendizado da Língua Brasileira de Sinais começou a partir de Rafaella Silveira, 8 anos, que tem acompanhamento de professora intérprete

De uma forma natural e entusiasmada, os estudantes do 2º ano da Escola Municipal Brigadeiro Eduardo Gomes, no Campeche, Sul da Ilha, estão aprendendo libras (Língua Brasileira de Sinais). Duas vezes por semana, as crianças aprendem como se comunicar sem usar a oralidade, mas com gestos e expressões. Por meio de atividades lúdicas, imagens, jogos e desenhos eles vão conhecendo os sinais. Além de aprenderem uma nova maneira de conversar, os alunos também se comunicam com mais clareza com Rafaella Silveira, 8 anos, uma colega com surdez.

Flávio Tin/ND

Rafaella, aluna da Escola Brigadeiro Eduardo Gomes, faz o sinal de “amizade”

As aulas de libras foram motivadas pela presença de Rafaella, que desde o ano passado, quando entrou na escola, tem uma intérprete que a acompanha em sala de aula. O trabalho de inclusão dos estudantes que ainda não conheciam a linguagem que Rafaella estava habituada alcança não só os colegas, mas também pais e professores, que podem fazer aulas oferecidas pela escola no período noturno.

Quem ensina é o professor Renato Nilson das Chagas, também com surdez, junto com a professora intérprete Kátia Sandra Santos Hilarião. Mas em vez de inclusão, Renato prefere a palavra interação, que realmente descreve melhor o ambiente que os estudantes têm compartilhado. Ele explica que a alfabetização e aprendizado para criança que não ouve é diferente, mais focado nas imagens. “O ouvinte já conhece as palavras, o surdo precisa do significado, tem muita relação com o visual, então o processo de aprendizado da escrita e leitura é diferente”, diz.

Rafaella diz que o sinal que mais gosta é o que representa a palavra aprender, e explica o motivo: “Para se comunicar”. Espontânea e expressiva, características importantes para quem se comunica com sinais, ela diz que todos podem aprender juntos e isso a deixa feliz. Quando precisa de algo emprestado ou quer emprestar algum material como lápis ou borracha, por exemplo, não precisa de intermediadores.

Aprendizado coletivo

Na sala de aula, as crianças fizeram um desenho da família e tinham que apresentar as obras e os familiares por meio de sinais. A experiência para Rodolfo Moreira, 8 anos, foi positiva e ele diz que quer ensinar o pai. “É bem legal porque a gente pode se comunicar com surdos e ouvintes. A gente faz sinais enquanto brinca, também para treinar, assim aprendemos mais rápido”, conta.

A facilidade de comunicação é o ponto principal apontado pelos alunos quando justificam o motivo de gostarem das aulas de libras, mas Lara Garcia, 8, gosta também dos sinais que identificam os colegas. “Em vez de soletrar o nome, a gente tem um sinal. O meu é por causa de uma pintinha que tenho no rosto e cada amigo tem o seu”, explica.

A professora intérprete Kátia Hilarião defende o aprendizado de libras de maneira coletiva e não apenas alguém para acompanhar o estudante que não ouve: “Se só eu estivesse falando em libras, o aluno surdo não conseguiria interagir tanto, eu teria que intermediar até o pedido de uma borracha emprestada. E o interessante é que eles querem se comunicar, eles se interessam em não depender de nós”, diz.

Além da sala aula

Para a professora da turma, Maike Moser, a experiência tem sido proveitosa. “Estou aprendendo aqui também. Eles crescem sabendo duas línguas e isso é muito enriquecedor, vejo-os conversando em sinais em lugares que tem que ter silêncio. Não preciso fazer intervenções, eles mesmos se resolvem na linguagem de sinais”, diz.

A mãe de Rafaella, Cristina Quinapp, se diz satisfeita com o trabalho e que o desenvolvimento da filha tem proporcionado novos aprendizados também para ela. Apesar de já ter estudado libras, Cristina conta que frequentemente Rafaella traz expressões e sinais novos que eles ainda não conheciam. “A experiência é positiva para ambos os lados na escola, isso que é inclusão, é como aprender inglês, um viver o mundo do outro, é uma troca”, resume.

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