Artista cadeirante de SC escreve fábulas inspiradas na própria história

Valério Mattos, de 54 anos, trabalha a temática da inclusão em suas obras; junto à esposa, criou a história infantil "Centopeia de Rodinhas"

Faz cerca de três décadas que o artista plástico e professor aposentado de Joinville Valério Mattos, de 54 anos, se dedica a artes de vários tipos. Foi através delas, inclusive, que ressignificou sua própria trajetória de vida.

Valério e a esposa trabalham juntos nas criaçõesValério e a esposa trabalham juntos nas criações – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Diagnosticado com poliomielite na infância, Mattos usa cadeira de rodas desde 2014 e busca levar inclusão a crianças do Norte catarinense que têm realidades parecidas com a dele.

A ideia, segundo o professor, é propor que elas entendam e explorem suas capacidades individuais.

“Eu fiquei deficiente com nove anos de idade”, conta Mattos, que garante que nunca se sentiu inferior a outras pessoas. “Sempre tive uma personalidade forte, espírito de liderança”.

É justamente esse sentimento que ele busca passar, desde o início dos anos 2000, com seus projetos artísticos, periodicamente lançados em editais municipais e estaduais. “É importante pensar dessa forma”, enfatiza.

Centopeia de rodinhas

Sua última atividade, a fábula Centopeia de Rodinhas, é especial. A história, narrada por Valério e sua esposa, Bernadete Mattos, foi apresentada em 35 escolas de Joinville, no final de maio.

História infantil “Centopeia de Rodinhas” fala sobre a vida do próprio autor – Foto: Divulgação/NDHistória infantil “Centopeia de Rodinhas” fala sobre a vida do próprio autor – Foto: Divulgação/ND

O enredo fala de uma centopeia que se sentia diferente das outras por ter nascido sem pernas. Os demais personagens, como cobras e borboletas, aparecem na história, então, para evidenciar as virtudes da colega.

A história é descrita de forma lúdica, para atingir crianças. Apesar disso, tem bastante a ver com a própria trajetória de vida do autor.

“A dona Cobra, por exemplo, não tem pernas e sobe em árvores. Aí dá o clique  na centopeia. Ela descobre que também pode”, contextualiza. “É parecido com minha vida. Eu sempre fui deficiente, eu tive sempre que estar me reinventando”, conclui.

Costurando clássicos infantis infalíveis, como “Dona Aranha” e “O Sapo Não Lava o Pé”, os pequenos aprendem sobre inclusão. É só no final da live que o enquadramento da câmera é aberto, revelando que Valério também usa “rodinhas”.

"Centopeia de Rodinhas" foi apresentado em 35 escolas da região de Joinville“Centopeia de Rodinhas” foi apresentado em 35 escolas da região de Joinville – Foto: Divulgação/ND

O “Tio de Rodinhas”

A fábula Centopeia de Rodinhas surgiu de forma corriqueira, enquanto preparava as alegorias de outro projeto que estava prestes a apresentar. Ele estava junto a esposa, Bernadete Mattos, sua parceira nos trabalhos, quando ouviu burburinhos que o fizeram pensar.

“Uma criança de uns cinco anos cutucou outra [criança] na fila, falando: ‘É o tio de rodinhas”, lembra. O menino já havia visto apresentações do artista.

“Começaram a brincar comigo e isso ficou na minha cabeça. A gente foi amadurecendo a ideia e fiz uns esboços”, conta. Valério e Bernadete decidiram que as rodinhas precisavam protagonizar a próxima história do casal.

Neste mês de maio, os artistas apresentaram pela primeira vez a fábula Centopeia de Rodinhas. O projeto foi selecionado pelo Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, executado através da FCC (Fundação Catarinense de Cultura).

“Ganhamos a publicação de 4 mil livros”, conta. Como “contrapartida social”, eles ofereceram apresentações gratuitas e virtuais para escolas da região de Joinville.

Alunos de Joinville, Garuva e Balneário Barra do Sul já se divertiram com a história dos bichos.

Este é meu novo livro infantil: A CENTOPEIA DE RODINHAS. Fazemos contações de Histórias online para Ed. Infantil e Series Iniciais.O livro custa 10 reais para retirada em Joinville/SC + 8 reais de custo de Correio, para todo o Brasil. c ontato E-mail: valerio.mattos@gmail.com ou watts: 47 99904-1521

Posted by Valerio Mattos on Sunday, March 21, 2021

Fernanda Persike, diretora do CEI Cachinhos de Ouro, uma das instituições contempladas, acredita que o grande trunfo da narrativa é como ela aborda a questão dos dons e talentos.

“Todos nós somos diferentes, mas quando descobrimos nossos talentos, e exploramos eles, descobrimos nosso valor”, pontua.

Preparação

Seguindo a tendência das suas produções, o backstage do artista também foi feito por suas próprias mãos.

Como as apresentações acontecem de forma virtual durante a pandemia, era urgente um estúdio com boa qualidade de luz, imagem e transmissão.

O casal preparou um estúdio em casa, de onde transmitiu a apresentação – Vídeo: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

“Eu mesmo criei a luminária para que eu pudesse ter uma iluminação adequada”, defende. Eles precisaram pensar também em tecidos, banners e suportes para apoiar os personagens. “Compramos uma webcam um pouco melhor e a qualidade tem sido elogiada”.

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