Atraso no aprendizado, uma sequela da pandemia de Covid-19

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Após retorno das aulas presenciais nas escolas, crianças demonstram atrasos na leitura e na escrita

A data é 17 de março de 2020, dia em que o Governo Estadual de Santa Catarina decretou situação de emergência na área da saúde em todo o território. O objetivo era prevenir a proliferação do vírus Sars-CoV-2 e enfrentar a pandemia da Covid-19. O decreto colocava sob regime de quarentena por sete dias atividades do transporte coletivo, shoppings, restaurantes, além de escolas públicas e privadas.

A história, neste caso, já se sabe. Não foi apenas uma semana que as escolas ficaram fechadas. Dois anos se passaram, e o reflexo da falta de estruturas para o acompanhamento do aprendizado das crianças se evidenciou tanto em âmbito nacional quanto estadual.

Percentual de crianças de 6 a 7 anos que não estão alfabetizadas passou de 25,1% em 2019 para 40,8% em 2021 – Foto: Agência Brasil/Divulgação/NDPercentual de crianças de 6 a 7 anos que não estão alfabetizadas passou de 25,1% em 2019 para 40,8% em 2021 – Foto: Agência Brasil/Divulgação/ND

Com o fechamento das escolas, algumas instituições particulares conseguiram driblar as dificuldades impostas pelo coronavírus e fornecer aulas on-line aos seus alunos. Essa transição foi facilitada pelos insumos e o perfil de renda dos estudantes.

Já outras escolas – sobretudo as públicas – não tiveram a mesma estrutura para realizar de forma plena esse tipo de ensino. Com isso, no retorno das aulas presenciais, notou-se fortemente uma defasagem de aprendizado em boa parte dos alunos, evidenciada pela estatística de que, no Brasil, 40,8% das crianças entre 6 e 7 anos não estão plenamente alfabetizadas.

Em Santa Catarina não se sabe o número exato de crianças que tiveram o aprendizado afetado pela pandemia. No entanto, pode-se ter uma ideia da situação ao analisar algumas instituições de forma isolada.

A escola estadual Professora Marcília de Oliveira, localizada em São José, por exemplo, tem em sua sala do 3º ano, 27 alunos. Destes, nove não estão plenamente alfabetizados, ou seja, um terço da turma.

Recuperando o tempo perdido

O ensino 100% presencial só virou realidade para a unidade Marcília de Oliveira no início deste ano. Antes disso, a instituição de ensino seguiu o modelo do ensino remoto em 2020 e de turmas intercaladas em 2021.

“As aulas eram remotas para aqueles que tinham celular, notebook e podiam acompanhar”, relata Joseane Lopes, professora do 3º ano da escola Marcília de Oliveira.

Já para aquelas famílias que não conseguiam ter acesso a esse tipo de equipamento, eram disponibilizadas atividades impressas.

Com isso, muitos pais e mães tiveram que se desdobrar para fazer o papel de professores em alguns momentos, ajudando seus filhos a resolver as tarefas de casa e tentando explicar conceitos que, em situações normais, estariam sendo ensinados dentro das salas de aula por professores.

Eduarda passou seu primeiro e segundo ano do ensino fundamental estudando em casa – Foto: Arquivo Pessoal/Marcos Araújo/Divulgação/NDEduarda passou seu primeiro e segundo ano do ensino fundamental estudando em casa – Foto: Arquivo Pessoal/Marcos Araújo/Divulgação/ND

Esse é o caso de Marcos Araújo, pai de Eduarda, de oito anos, que é aluna do Marcília de Oliveira e está cursando o 3º ano do ensino fundamental. “Era eu e minha esposa ajudando ela”, relata Marcos.

A situação de Eduarda representa o que aconteceu com diversas outras crianças próximas de sua idade, visto que quando terminou seu último ano na creche, já estava pronta para ingressar no primeiro ano escolar, se não fosse pela pandemia.

Ao falar sobre esse período, o pai lamenta que isso tenha ocorrido justamente no primeiro ano do ensino fundamental de sua filha, tempo no qual as crianças aprendem fundamentos necessários, como conceitos da língua portuguesa falada e escrita e princípios matemáticos básicos.

Lutando contra o atraso

Há 20 anos trabalhando com alfabetização, a professora Joseane conta que optou por dar aula para o 3º ano justamente por ter observado essa defasagem.

“Normalmente dou aulas para turmas de primeiro e segundo ano, mas depois da volta às atividades presenciais percebi um grande atraso na turma do terceiro, que por ter concluído os dois primeiros anos do fundamental em casa não estava bem encaminhada na parte de alfabetização”, conta.

Para a professora, esse atraso é uma consequência direta dos obstáculos causados pela pandemia e como cada núcleo familiar conseguiu lidar com eles. “Na família que teve disponibilidade para atender seu filho e ver as redes sociais da escola, a criança conseguiu acompanhar os conteúdos”.

Por causa do atraso de sua filha, Marcos optou por contratar uma professora particular. Agora, o roteiro de estudos dela consiste em acompanhar as aulas normais na parte da manhã e duas vezes por semana – na parte da tarde – estudar com a professora que Marcos paga.

Atualmente, Eduarda já consegue ler um pouco, mas “não é aquela coisa rápida”, conta. “Graças a Deus que eu posso pagar, tem muitos pais que não têm condições de pagar uma professora particular”, reconhece.

Em uma breve pesquisa por professores particulares em Santa Catarina, pode-se achar preços que vão de R$ 40 hora/aula a R$ 100 hora/aula, chegando a superar esses valores.

A desigualdade como obstáculo para o aprendizado

De acordo com a PNDA (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua de 2021 realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estátistica), houve uma queda da renda per capita da população catarinense.

O valor médio dos rendimentos passou de R$ 1.529, no primeiro trimestre de 2020, para R$ 1.412, no primeiro trimestre de 2021, representando uma queda de 7,6%.

Junto a isso, aproximadamente 615 mil pessoas no Estado vivem com uma renda domiciliar per capita que não ultrapassa R$ 450, segundo estudo divulgado no final de 2021 pelo Necat (Núcleo de Estudo de Economia Catarinense) da UFSC.

“O ensino remoto não conseguiu atingir todas as classes sociais”, afirma psicopedagoga – Foto: Secom/PMSJ/Divulgação/ND“O ensino remoto não conseguiu atingir todas as classes sociais”, afirma psicopedagoga – Foto: Secom/PMSJ/Divulgação/ND

Ambos os dados mostram que cada vez mais o poder aquisitivo catarinense diminui, acompanhando a crise no país. Com isso, a possibilidade de contratação de aulas particulares e de reforço tornam-se um luxo restrito a poucas famílias.

Para efeito de comparação, os dados do Brasil em geral são piores que os de Santa Catarina. Também de acordo com o PNAD, o rendimento domiciliar per capita caiu para R$ 1.367 no país em 2021.

Além disso, segundo a psicopedagoga do Centro de Atendimento Educacional Especializado Coruja Sabida, Izabella Klock – que trabalha com avaliação e intervenção em crianças com atraso no desenvolvimento e dificuldades de aprendizagem, o ensino remoto não conseguiu atingir todas as classes sociais.

“O processo de alfabetização sofreu um grande impacto em virtude da falta de aproximação professor/aluno”, avalia.

Corrida pela reparação

Com o objetivo de reparar essa defasagem dos conteúdos e nivelar os alunos, Joseane conta que a escola Marcília de Oliveira tem realizado um programa de reposição em paralelo às atividades complementares. Segundo ela, isso tem dado resultados.

O momento, de acordo com a professora, é de correr atrás do que foi perdido pela pandemia. Desse modo, ela afirma que seria benéfico que o governo oferecesse reposições extraclasse no contraturno.

Mesmo com as dificuldades que a pandemia impôs para o aprendizado das crianças, Joseane mostra-se esperançosa quanto à evolução dos seus alunos. “É difícil, mas não impossível. Eu tenho a perspectiva que até dezembro essas crianças (que não estão alfabetizadas) estarão acompanhando a turma”.

Já a psicopedagoga Izabella não acredita tanto que o modelo de aulas de reforço seja efetivo, mas sim um “plano de intervenção baseado em sondagens, avaliação e intervenção bem planejada”.

Atualmente, uma das ações que tem sido realizadas pelo Governo de Santa Catarina para reduzir a defasagem verificada na pandemia é o EducaSC, desenvolvido em pareceria com o Grupo ND, que oferece dois canais com aulas 24 horas por dia.

Junto a isso, segundo a Secretaria de Estado da Educação, está sendo feito um diagnóstico da defasagem dos últimos dois anos para identificar as principais lacunas de aprendizagem.

Portanto, ainda não se sabe o impacto concreto que a pandemia trouxe ao aprendizado das crianças em Santa Catarina. No entanto, com o dado nacional do aumento de 66,3% no número de crianças que não sabem ler nem escrever – em comparação com 2019 -, pode-se ter uma ideia da evolução significativa no atraso do aprendizado.

Desse modo, ao falar do prejuízo que isso pode trazer ao futuro dessas crianças, Izabella usa três palavras que resumem o que pode vir a acontecer caso não haja uma intervenção bem planejada: segregação, marginalização e exclusão social.