Cientista de Florianópolis ganha bolsa para fazer pós-doutorado em Hong Kong

Em meio a pandemia que escancara os desafios da educação científica no país, a jovem cientista cruza o oceano para uma nova etapa na carreira

Foi graças às mulheres que passaram pela vida de Julia Macedo Rosa que ela se tornou cientista. Primeiro foi a mãe, que além de amor e apoio, batalhou pela melhor educação que a filha poderia ter em Florianópolis. Depois foi sua orientadora e pesquisadora, que guiou o caminho para Julia terminar o doutorado.

Agora, em meio à pandemia da Covid-19 que lembra a importância da ciência e escancara os desafios da educação científica no país, Julia está de malas praticamente prontas para cruzar o oceano e galgar uma nova etapa na sua carreira. Em agosto, a cientista manezinha da Ilha, de apenas 29 anos, deixa o Brasil para fazer pós-doutorado na The Hong Kong Polythechnic University.

Pesquisadora de Florianópolis ganha bolsa de estudos internacional – Foto: Anderson Coelho/NDPesquisadora de Florianópolis ganha bolsa de estudos internacional – Foto: Anderson Coelho/ND

Formada em Farmácia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Julia é doutora em Bioquímica. Na infância, morou até os 12 anos na casa em que a mãe, Maria Aparecida Macedo Pinto, trabalhava como doméstica na Capital.

Como a patroa da mãe era professora em um das escolas mais tradicionais da cidade, Julia conseguiu bolsas de estudo. Depois de muito esforço, estágios e horas a fio em laboratórios, ela se tornou a primeira mulher da família a se graduar.

“Minha mãe sempre me apoiou. Até pelo fato de ela não ter conseguido estudar muito, porque teve que trabalhar desde cedo, ela me deu muita força e me dá até hoje. Desde sempre foi muito incentivado que eu estudasse. Aí fui tomando gosto pela coisa e não parei mais”, conta.

Pesquisas

Na última pesquisa em que trabalhou, até agosto de 2019, no doutorado, ela desenvolveu junto com outros pesquisadores, um estudo sobre a potencialidade do exercício físico e a função do intestino na prevenção à depressão. Além de estudantes da UFSC, a análise contou com a troca de informações de um laboratório do Canadá.

No pós-doutorado, a cientista pretende aprofundar o tema. O objetivo, como ela mesma contou ao nd+ por telefone na última semana, é entender os efeitos do exercício físico no cérebro.

“Vou conseguir trabalhar coisas que eu queria ter feito aqui, mas por causa da falta de investimento não foi possível, como experimentos e interação do intestino com o cérebro”, diz.

Mas para chegar até aqui não foi fácil. Além da diminuição de investimentos na educação ao longo dos últimos anos e a falta de apoio para pesquisa no Brasil, a ausência de oportunidades quase fez com que Julia desistisse. Antes de ser aceita no pós-doutorado, ela procurou emprego na área científica e, por falta de demanda, pensou em mudar de área.

Pesquisadora de Florianópolis ganha bolsa de estudos internacional – Foto: Anderson Coelho/NDPesquisadora de Florianópolis ganha bolsa de estudos internacional – Foto: Anderson Coelho/ND

Segundo ela, foi o apoio da professora e orientadora da UFSC Ana Lúcia Rodrigues, que a colocou de volta nos trilhos da ciência e auxiliou na conquista do doutorado.

“Eu tentei emprego aqui no Brasil e não consegui. Para não correr o risco de sair da área, a minha orientadora deu a ideia de eu ir para fora. Mandei um e-mail com o meu currículo e participei de um processo seletivo. Uma comissão analisa e aí, no caso, eu ganhei uma bolsa com duração de dois anos”, conta.

O último estudo sobre os Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação apontou que houve redução do percentual de PIB dedicado a atividades de pesquisa e desenvolvimento.

Enquanto em 2015 os investimentos somaram 1,34% do total PIB, em 2016 eles totalizaram 1,27%. O índice é menos da metade dos países que lideram a corrida tecnológica – como Alemanha (3%), Estados Unidos (2,79%) e China (2,15%).

Vaquinha on-line

Com a carta de confirmação da bolsa de estudos, veio um novo empecilho. Sem verba para garantir os primeiros meses de moradia, Julia tentou um empréstimo, já que o salário da pesquisadora começará a ser pago somente em outubro. Contudo, a falta de regulamentação da profissão de pesquisador no país, fez com que Julia não conseguisse o dinheiro junto ao banco.

Foi então que a iniciativa da vaquinha on-line surgiu. “Como eu fui bolsista a minha vida inteira, no banco eles falaram que não tinha muito histórico de trabalho, pois bolsa de estudos aqui não é considerada renda. Eu não sabia o que fazer, aí meus amigos deram a ideia da campanha”, conta.

Pesquisadora de Florianópolis ganha bolsa internacional de pós-doutorado – Foto: Reprodução/Redes SociaisPesquisadora de Florianópolis ganha bolsa internacional de pós-doutorado – Foto: Reprodução/Redes Sociais

Diferentemente de Hong Kong onde Júlia será considerada funcionária e terá benefícios como trabalhadora, pesquisadores do Brasil não possuem carteira assinada, 13º ou férias.

“Cientista aqui não é considerado profissão, mas lá para onde eu vou a bolsa é trabalho. Não vou como estudante, mas com visto de trabalho”.

Colocada no ar em maio, a iniciativa conseguiu arrecadar R$ 18 mil. O dinheiro será convertido em dólar e usado para moradia, alimentação e deslocamentos.

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Aproximação com a história da população negra

Além do contato com microscópios, ampolas e laboratórios, a educação científica aproximou Julia da história da população negra no país. Quando chegou à UFSC, ela começou a participar de reuniões do Núcleo de Estudos Negros de Santa Catarina. “Na escola a gente só aprende o básico, mas foi importante estudar sobre a nossa história” conta.

Além de redescobrir as conquistas dos negros, a cientista percebeu também os desafios, principalmente na educação. No curso de Farmácia, apenas ela e uma colega eram negras na sala de aula.

E apesar de ter alcançado uma das maiores realizações de um cientista no Brasil, Júlia ainda é recebida com preconceito. “Sempre que eu chego no lugar, sempre acham que eu sou a moça da limpeza. Isso é comum em qualquer lugar. Quando eu vou no mercado, sempre acham que eu trabalho no lugar. Pela cor, acho que é difícil um negro não ter passado nenhuma situação”.

Pesquisadora de Florianópolis ganha bolsa de estudos internacional – Foto: Anderson Coelho/NDPesquisadora de Florianópolis ganha bolsa de estudos internacional – Foto: Anderson Coelho/ND
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