‘Como estudar sem o mínimo?’: Os desafios do Enem no ano que teve a adesão mais baixa de SC

Com o 2º dia de provas, candidatos e professores avaliam os motivos que levaram tantas pessoas de SC a desistirem do Enem

Com a segunda prova sendo realizada neste neste domingo (28), o Enem 2021 (Exame Nacional do Ensino Médio) chegará ao fim marcado como a edição que teve a adesão mais baixa em Santa Catarina desde 2009. Foram apenas 75 mil inscritos. A primeira prova teve abstenção de 23,8%.

Professores de cursos preparatórios e candidatos que responderão as questão de ciências da natureza e matemática neste domingo veem o cenário como reflexo da piora condições de vida que estimula a desistência – problema acentuado com a pandemia.

A Universidade Regional de Blumenau (FURB), em Blumenau, é um dos locais de prova do Enem 2021 – Foto: Moisés Stuker/NDTVA Universidade Regional de Blumenau (FURB), em Blumenau, é um dos locais de prova do Enem 2021 – Foto: Moisés Stuker/NDTV
Esta é a quarta edição do Enem realizada por Talita, que sonha em cursar medicina – Foto: Arquivo Pessoal/NDEsta é a quarta edição do Enem realizada por Talita, que sonha em cursar medicina – Foto: Arquivo Pessoal/ND

“Acho que são vários fatores. Vejo colegas precisando trabalhar e abrindo mão do sonho da faculdade. Como vão fazer a prova sem o mínimo? O próprio ensino remoto prejudicou bastante, não estávamos preparados”, conta a candidata Talita Zeitz Martins.

Estudante de escola pública, a jovem de 20 anos quer cursar Medicina e mora em São João Batista. Ela se considera privilegiada em ter o sustento dos pais e não precisar ir atrás a própria renda.

A professora Felini Souza, que leciona em cursinhos preparatórios de Florianópolis e conta com um canal no Youtube, percebeu a “evasão” do Enem já nas salas de aula. “O exame está cada vez mais para pessoas jovens e que ainda não entraram no mercado de trabalho. Está inseguro deixar de ter emprego e estudar. Ter a possibilidade de estudar está virando privilégio”, ressalta.

Esta é a segunda edição da prova realizada em meio a pandemia. A primeira, que passou por adiamentos e acabou aplicada em janeiro, foi marcada por taxas de abstenção que ultrapassaram 50% em Santa Catarina. “Naquela vez decidi ir nas últimas horas. Tive medo, ninguém estava vacinado. Desta vez estou mais calma”, lembra Talita.

Desafios e oportunidades

O ensino a distância trouxe prejuízos e possibilidades. Estudar em casa traz inúmeras distrações: barulhos, celular, familiares. “Tem que ser muito centrado, saber a hora de descansar e estudar”, conta Talita. Ela se preparou pelo cursinho comunitário Gauss, sediado em Florianópolis e que integra projeto da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

A modalidade virtual passou a ser ofertada com o isolamento social. “Não tinha condição financeira de pagar cursinho e também não há na minha cidade. O Gauss foi uma oportunidade muito boa. Tenho muita dificuldade em aprender as coisas e lá temos suporte das pessoas. Também conhecemos alunos que estão passando por essa fase”, afirma.

A primeira etapa do exame, realizada no domingo anterior, contou com questões de humanas e redação. A “crise” gerada entre os servidores do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) e o governo federal trouxe o medo de uma prova inédita. Por sorte, a prova acabou semelhante às realizadas nos anos anteriores “Fui apreensiva e tentei ficar calma, mas não deu certo. A prova foi cansativa e a redação abria muito o tema”, avalia Talita.

Diminuíram os candidatos, mas exame está melhor que o de janeiro

Assim como Talita, o candidato Pedro Bertoli teve uma experiência difícil com a edição anterior do exame. “Esse ano consegui me preparar bem melhor. A aula presencial favoreceu, mas sinto que a interação aluno-professor não é a mesma de antes da pandemia”, conta.

O jovem sonha em cursar Direito e estuda no Energia. “Fui bem no primeiro dia. Pelo gabarito, o resultado parece ser condizente com meus estudos. Espero ir ainda melhor nesse domingo”, diz.

Pedro quer cursar Direito e avalia estar mais preparado do que no exame anterior – Foto: Arquivo Pessoal/NDPedro quer cursar Direito e avalia estar mais preparado do que no exame anterior – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Para a professora, apesar do Enem se transformar cada vez mais em um privilégio, a melhora nos índices da pandemia possibilita aos jovens sonhar com a faculdade presencial. “A edição de janeiro foi muito estranha porque os alunos estavam um pouco fora, aéreos. Muito por conta do contexto. Agora é diferente”.

Número de candidatos em SC desde 2015

  • 2015 – 162 mil inscritos;
  • 2016 – 176 mil inscritos;
  • 2017 – 128 mil inscritos;
  • 2018 – 125 mil inscritos;
  • 2019 – 110 mil inscritos;
  • 2020 – 118 mil inscritos; e
  • 2021 – 75 mil inscritos.
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