Estudantes de SC falam sobre preparação para o Enem na rede pública e privada

Após um ano letivo marcado pela pandemia, os estudantes de Santa Catarina vão prestar o Exame Nacional do Ensino Médio mirando a universidade

Confiantes ou não, no próximo domingo (17), os estudantes brasileiros – exceto em Manaus, capital do Amazonas -, realizarão o primeiro dia de provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Em um ano atravessado pela pandemia de Covid-19 e marcado pelo ensino à distância, os estudantes enfrentaram desafios inéditos.

Alunos de SC participam do ENEM no próximo domingo (17)Em escolas públicas como no Isntituto Estadual de Educação (foto), ou nas particulares, a preparação para o ENEM foi virtual em 2020 – Foto: Ricardo Wolffenbüttel / Secom

Parte deles até se sente preparada para disputar a sonhada vaga na universidade via Enem. Outra parcela, no entanto, considera que não recebeu o ensino necessário.

O ND+ entrevistou alunos de escolas públicas e privadas do Estado para saber como foi a preparação deles para o Enem. O primeiro dia de prova é neste domingo e o segundo em 24 de janeiro. Confira!

Como foi a preparação dos estudantes de SC para o Enem

Falta de apoio em um ano difícil

A estudante Renata Silva dos Santos é de Florianópolis, tem 18 anos e fez o terceirão no IEE (Instituto Estadual de Educação), o maior colégio público de Santa Catarina. Para ela, estudar em plena pandemia foi bem difícil.

“Estava trabalhando e conciliar estudos com o trabalho não foi fácil, sem contar que muitos professores não deram o apoio que precisávamos”, disse Renata. Segundo ela, nas virtuais, poucos professores ajudaram e tiraram as dúvidas.

Renata Silva dos Santos vai prestar o ENEMRenata Silva dos Santos fez o terceirão no IEE (Instituto Estadual de Educação) e vai prestar o ENEM no domingo (17). – Foto: Divulgação/ND

“Para ser bem sincera, não me sinto preparada para fazer o Enem. Eu sei que poderia ter me esforçado mais e corrido atrás sozinha, mas não é fácil”, relatou a estudante.

Renata ainda não definiu qual curso pretende fazer, está em dúvida entre as áreas de Educação e Saúde.

“Muito do que a gente deveria aprender acabou sendo explicado por cima, ou nem tivemos contato com o conteúdo e isso, querendo ou não, acaba prejudicando”, lamentou.

No próximo domingo, ela fará o Enem pela segunda vez. Renata participou da prova passada por experiência. Caso não passe no vestibular, a estudante vai tentar desconto em alguma faculdade particular.

Curso particular melhorando a formação do ensino público

A manezinha Isadora de Andrade Hillesheim, 19 anos, também fez o terceirão no IEE, em 2019, antes da pandemia. Por considerar a formação insuficiente, fez um curso público e um particular.

Na semana da véspera do Enem, Isadora estava focada nos estudos. Ela reforçou os conhecimentos no curso Método Medicina, onde está aprendendo conteúdos que não viu no terceirão.

Isadora Hillesheim quer ser médica e vai prestar o ENEMIsadora de Andrade Hillesheim fez o terceirão no IEE (Instituto Estadual de Educação) e complementou o ensino com cursos particulares. – Foto: Divulgação/ND

“Escolhi esse cursinho, porque meu sonho é passar em Medicina e esse curso é voltado para isso. Eles têm uma visão voltada para saúde mental: não adianta você saber tudo e chegar na prova com a mentalidade péssima”, destaca Isadora.

Filha de professora e de serralheiro, Isadora sempre estudou em escola pública e conseguiu um desconto para entrar no curso que a preparou para o Enem. Ela, inclusive, ampliou o leque de opções para o vestibular.

“Estou bem esperançosa. Com ajuda do cursinho, minha mentalidade foi amadurecendo e me encaixo em muitas áreas da saúde, não apenas na Medicina, mas também em Psicologia ou Fisioterapia”, disse.

A estudante vai prestar o seu terceiro Enem. Em 2018, fez como teste, em 2019, fez e não conseguiu aprovação. Ela disse que, por ser alguém ansiosa, não se sente 100% preparada, mas está confiante.

Um privilegiado, querendo aproveitar a oportunidade

Paranaense de Cascavel, João Marcos Moço Giraldi, 17 anos, fez o terceirão na Guroo, escola particular do Córrego Grande, em Florianópolis. Segundo ele, um dos primeiros colégios que adotou o ensino remoto, logo na primeira semana da pandemia.

Ele conta que houve apenas uma semana de pausa logo que a pandemia começou. Em julho e no final do ano, também tiveram férias, porém, no resto dos dias, os alunos da Guroo estudaram de forma online.

João Marcos Moço Giraldi estudou na Guroo para o ENEMJoão Marcos Moço Giraldi se preparou para o ENEM (exame Nacional do Ensino Médio) no Guroo – Foto: Divulgação/ND

“Eu sou um dos sortudos, porque tive acesso ao sistema remoto, uma conexão constante com a internet. Sinto-me preparado, mas penso em pessoas de escola pública, que não têm internet em casa, como vão lidar com o Enem”, destaca João.

Segundo o estudante, a aula virtual não foi um empecilho. Para ele, algumas aulas foram mais tediosas, só com o professor falando e sem muita participação da turma. No entanto, se preciso, ficaria no ensino remoto.

“Eu encaro tudo isso com bons olhos, uma oportunidade de ir bem no Enem e passar em uma universidade. A maioria das pessoas não terá oportunidade de passar, não tiveram o ensino que eu tive”, aponta.

Esse será o primeiro Enem de João. Para ele, 2020 foi um ano de foco e preparação. João quer disputar uma vaga para o curso de Engenharia da Computação, nos vestibulares de São Paulo.

Desânimo afetou preparo

Pedro Bertoli até tentou se preparar, mas a rotina EAD (ensino a distância) não foi estimulante. Aluno do 2º ano do Energia, outro colégio particular de Florianópolis, ele vai fazer a prova por experiência e, ao contrário do ano anterior, sem preparo.

“Consegui manter os estudos em dia até as férias de julho, mais ou menos. Depois foi ladeira a baixo”, afirma.

Pedro Bertoli fez o Energia e também vai prestar o ENEMPedro Bertoli se preparou no Energia e vai fazer o Enem como teste – Foto: Divulgação/ND

O principal motivo foi o desânimo para acompanhar aulas virtuais e também a dificuldade em manter a rotina de estudos na nova realidade de 2020. Entre os seus colegas, consegue contar nos dedos aqueles que conseguiram manter a organização nas aulas online.

“Vou fazer o Enem com o mesmo propósito do ano passado. Quero conhecer melhor a prova, me acostumar com a pressão e aproveitar pra ver minha evolução, mesmo que tenha sofrido uma queda por causa desse ano” conta o estudante, que planeja cursar Administração.

Dificuldades no interior do Estado

Natural de Videira, no Oeste do Estado, Vinícius Coser, 18 anos, fez o terceirão na pandemia, pelo ensino remoto. Segundo ele, desde o começo, foi preciso enfrentar dificuldades, com as ferramentas de aula online, uma novidade para ele e toda escola.

“A dificuldade de informação, alguns professores a princípio estavam com dificuldade em postar conteúdo (…) Isso foi uma das piores questões da aula online, mas conforme o tempo, todo mundo foi se adaptando”, destaca Vinícius.

Vinícius Coser, aluno do interior de SC, se sente preparado para o ENEMVinícius Coser, aluno do IFC (Instituto Federal Catarinense) de Videira, está confiante para a prova – Foto: Divulgação/ND

Segundo o estudante do interior, a preparação poderia ser maior, tanto por parte tanto dos alunos, quanto dos professores, que não passaram o conteúdo esperado. Mesmo nesse contexto, Vinícius se sente preparado, está fazendo muitas revisões e buscando conteúdo.

“Muita gente de escola pública está vendo esse ano com chances maiores de passar no vestibular, porque acredita que a concorrência será menor. Tem aluno que não está pegando tão pesado em conteúdo, estão ficando um pouco para trás”, garante Vinícius, que se inclui no grupo dos confiantes.

Ele lembra que, por morar no interior, a conexão de internet é um pouco mais devagar e que muitos sentiram dificuldades também por estudar com a família em casa. Para se manter firme nos estudos, ele precisou comprar um notebook novo.

Vinícius vai fazer o Enem pela segunda vez e sabe onde precisa melhorar: redação. O estudante mira o curso de Agronomia no IFC (Instituto Federal Catarinense), campus Videira, mesma instituição onde cursou o Ensino Médio.

Trabalho Vs. Educação

A estudante Ketheryn Nathally Fistarol, 20 anos, se formou em 2020, no ensino médio do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) de Chapecó. Ela vai prestar o Enem em busca de uma vaga para Administração na UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul), também de Chapecó.

“É muito complicado pensar no futuro, ter que pensar em fazer Enem e outros vestibulares e estar em casa estudando, com material online, que nem sempre é fácil e didático de entender”, reclamou Ketheryn.

Ketheryn Nathally Fistarol, de Chapecó, também vai fazer o ENEMKetheryn Nathally Fistarol foi aluna do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) em Chapecó e não se sente preparada para o Enem – Foto: Divulgação/ND

Segundo ela, o maior desafio foi conciliar trabalho e estudo. No meio da pandemia, a estudante começou a trabalhar o dia todo, para ajudar financeiramente em casa. Ela conta que a situação trouxe angústia, pois não conseguiu deixar os estudos em primeiro plano.

“Esse período está sendo um dos mais frustrantes em relação ao Enem, um dos que mais me gerou ansiedade e problemas psicológicos. Nós, estudantes, vemos o Enem e a universidade como um sonho. Ver que nosso futuro está muito incerto, é bem triste”, ponderou.

Ketheryn disse que não se sente preparada, nem em termos de conteúdo e nem emocionalmente. No próximo domingo, ela vai fazer o Enem pela terceira vez.

Secretaria de Estado da Educação

De acordo com a (SED) Secretaria Estadual de Educação, após a suspensão das aulas presenciais, a rede estadual adotou duas modalidades: as atividades com apoio de ferramentas tecnológicas e as atividades com apoio de materiais impressos.

Na rede estadual, segundo a SED, o regime adotado foi de atividades virtuais, principalmente com o Google Classroom. Além disso, muitos professores faziam encontros virtuais com os alunos para tirar dúvidas.

Acesso à internet

Para os estudantes com acesso limitado ou sem internet, a SED disponibilizou a modalidade de atividades impressas, que eram orientadas pelos professores e adaptadas do plano de ensino.

De acordo com informações da Secretaria, 59% dos alunos aprenderam com as atividades orientadas pelos professores no Google Classroom, 24% tiveram acesso aos materiais com atividades impressas e 16% foram atendidos de forma híbrida.

“Ao longo do ano, 424 mil estudantes, cerca de 78% da rede, entrou na plataforma online, sendo que cerca de 75% seguiram acessando”, informou a Secretaria.

A assessoria também destacou que SC foi o primeiro Estado a adotar alguma alternativa para os alunos sem acesso à internet e que está analisando a possibilidade de garantir internet para alunos e professores para o próximo ano letivo.

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