Entidades de classe voltam a criticar a paralisação das atividades na UFSC

Universidade publicou portaria que mantém a suspensão das aulas por mais um mês e amplia prazo para entrega de diagnóstico sobre oferta de ensino

Sem aulas desde o dia 16 de março, a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) ainda não tem um plano para a retomada das atividades acadêmicas, nem mesmo de forma online.

UFSC está há mais de dois meses sem aulas presenciais – Divulgação/UFSCUFSC está há mais de dois meses sem aulas presenciais – Divulgação/UFSC

Uma portaria publicada no dia 29 de maio manteve a suspensão das aulas presenciais e dos atendimentos administrativos por, pelo menos, um mês. Assinado pelo reitor Ubaldo Cesar Balthazar, o documento também suspende bancas, concursos e reuniões presenciais.

A portaria, contudo, diz que a decisão pode sofrer alterações caso haja suspensão do decreto estadual que proíbe as aulas presenciais de todos os níveis de educação.

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A publicação do texto provocou a reação do Floripa Sustentável, que defende “uma solução tecnológica que viabilize a continuidade das atividades no formato on-line”. O movimento é constituído por 44 entidades representativas do setor produtivo catarinense e florianopolitano.

Para Zena Becker, coordenadora do movimento, a UFSC falha ao não apresentar alternativas imediatas sobre as aulas online. Tal fator acaba prejudicando os estudos dos mais de 40 mil alunos da instituição. “A universidade parou no tempo”, diz Becker.

Uma das alternativas, comenta Zena, é oferecer computadores a alunos sem acesso ao dispositivo e verificar possíveis problemas ao passo em que as aulas retornem.

Quanto as atividades que dependem de laboratórios, Becker acredita que possa adotar protocolos parecidos a de setores que já retomaram os trabalhos. “Podem dividir as turmas em grupos menores e adotar procedimentos como uso de máscaras e álcool em gel. É uma opção”, considera.

A nota publicada pelo Floripa Sustentável enfatiza ainda que a UFSC estabeleceu mais 30 dias para que seja feito um diagnóstico completo sobre as condições de oferta de ensino. “Aquilo que poderia ter sido feito ainda em março fica adiado até 30 deste mês, quando a universidade completará a incrível marca de 3 meses e 15 dias de paralisação das aulas. Porém, os salários prosseguem rigorosamente em dia”, completou.

Celeiro de ideias ensimesmado

Para a Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis), que faz parte do movimento Floripa Sustentável, trata-se de uma situação frustrante.

Segundo presidente Rodrigo Rossoni, em rápido contato com a reportagem, a associação, juntamente com outras entidades, buscou contribuir com a universidade que teve uma resposta “bastante evasiva”.

“A gente está bastante frustrado ao ver nossa universidade federal, um celeiro de ideias e inovações, acanhada e ensimesmada. Em uma zona de conforto que não deve ser característica de uma universidade desse porte”, acrescentou o presidente Rossoni.

“Até minha neta tem aula online”

Em coro ao posicionamento, a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Florianópolis, por meio do presidente Ernesto Caponi, se manifestou contrário a portaria da universidade.

Caponi ressalta que é um “absurdo” que uma instituição do tamanho da UFSC não invista em aulas online.

“Isso aí, para mim, é desculpa esfarrapada. É possível fazer uma triagem e descobrir eventuais alunos com dificuldades. É possível ainda conseguir recursos com o MEC”, argumentou Ernesto.

Por fim ele ainda compara a situação após cogitar uma “falta de competência” da reitoria.

“Parece um avestruz quando não quer ver alguma coisa, enterra a cabeça”, exemplificou.

Contraponto

Em contato com a reitoria da UFSC, o chefe de gabinete Aureo de Moraes, diz que há uma espécie de distorção na maneira de ver o papel da instituição.

“Reduzir todo o trabalho de docentes e técnicos à afirmação que ‘os salários prosseguem rigorosamente em dia’, como se estar em sala de aula fosse a única atribuição de um servidor da UFSC é, novamente, uma visão simplista”, citou, em dado momento, a nota.

O chefe de gabinete fala ainda em tom “agressivo” e “desrespeitoso” adotado para referir-se a universidade.

Segue a nota

Penso que, inicialmente, é preciso ajustar o título da nota: em vez de proclamar “A ausência da UFSC quando mais se precisa dela”, sugere-se alterar para “A presença da UFSC, quando mais de precisa dela”.

Ou se ignoram as ações de combate à pandemia, associadas ao trabalho dos milhares de profissionais de saúde no HU (UFSC); a produção, em escala, de exames diagnósticos feitos em laboratórios da UFSC em apoio ao LACEN; ou o esforço na produção e doação de álcool em gel, equipamentos e máscaras de proteção, feitas com impressão em 3D, equipamentos respiradores de baixíssimo custo desenvolvidos na UFSC; campanhas de solidariedade a famílias sem condições de adquirir insumos básicos; apoio psicológico; antecipação e realização de formaturas de médicos por meios remotos; monitoramento e acompanhamento da pandemia para subsidiar decisões de autoridades sanitárias, etc.

A fixação em atividades de ensino parece revelar antes o desconhecimento do que seja uma Universidade Pública, sua dimensão, sua essência e seu funcionamento. Ela é, sobretudo, um ente do Estado! Mantido, por óbvio, com recursos públicos, como, aliás, as demais estruturas públicas.

Reduzir todo o trabalho de docentes e técnicos à afirmação “os salários prosseguem rigorosamente em dia”, como se estar em sala de aula fosse a única atribuição de um servidor da UFSC, é, novamente, uma visão simplista.

Fora o tom agressivo e desrespeitoso com que se procura responsabilizar a UFSC por não implantar “ensino on-line”, propondo estabelecer comparações esdrúxulas, demonstra, mais uma vez, a ignorância quanto ao tamanho da UFSC e das demais instituições públicas.

A responsabilidade da UFSC já foi exaustivamente demonstrada: quando decidiu, antes de qualquer outro ente estatal em SC, suspender as aulas e preservar a vida de sua comunidade e, por extensão, das comunidades das quais faz parte. E o planejamento em torno das alternativas está sendo realizado com dedicação, esforço e trabalho de todos.
Com base e respeito à ciência, sem arroubos aventureiros e sem manifestações intempestivas.

E até nisso a UFSC é pedagógica: estará ensinando a muita gente, que uma pandemia não se combate com planilhas e tabelas, com medidas meramente retiradas dos livros de autoajuda, de lições pueris apresentadas em relatórios que só observam números. A UFSC não abre mão de respeitar e ouvir a ciência; de tratar de pessoas, de cidadãos como o centro de suas decisões. E vai sair desta crise com autoridade que sua excelência lhe confere há 60 anos.

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