Greve: Florianópolis completará 400 dias sem aulas presenciais

Debate sobre retorno envolve queda de braço entre parlamentares, sindicato de professores, prefeitura e pais de alunos; última audiência no TJSC não chegou a acordo

“Eu sou a favor do retorno das aulas!” – a afirmação é de José Carlos Dutra, presidente do conselho escolar do Neim Hassis, na Costeira do Pirajubaé. Pai de uma menina de seis anos, ele considera precipitada a greve dos professores da rede pública municipal contra a retomada das aulas presenciais que chegou hoje a 27 dias.

Desde o dia 17 de março do ano passado, ou seja, 398 dias, não têm aulas presenciais para os 31,1 mil alunos da rede municipal de Florianópolis.

aulas; presenciais; greve; professores; dias; retorno; florianópolis;Carreata feita por pais de alunos reivindicou o não fechamento das escolas – Foto: Leo Munhoz/ND

Dutra disse que acompanhou de perto o processo da retomada das aulas, e que a mesma retornasse com segurança para professores e alunos. “Estou frequentemente cobrando o cumprimento das medidas”, contou.

Ele sustentou que o retorno é essencial para os pais que necessitam realizar suas atividades. “Entendo o argumento dos professores, mas se não retornasse ia ser pior”, afirmou. A Neim onde a filha de Dutra estuda está com adesão parcial dos profissionais do magistério.

Segundo dados obtidos, do último dia 19 deste mês, pela reportagem do ND junto à secretaria de Educação, das 120 unidades de ensino da rede, a maioria encontra-se em adesão parcial, 12 não aderiram e seis paralisaram totalmente as atividades.

Vale lembrar que na assembleia que decidiu pela greve, dos 5.012 profissionais da rede, apenas 938 votaram, o que equivale a apenas 9,6% do quadro de professores.

A professora Francine da Costa Ricardo, que preside o conselho do Neim Maria Terezinha Sarda, em Jurerê Internacional, Norte da Ilha, não aderiu à paralisação.

“Não tinha necessidade de começar uma greve agora. Há condições de atendimento, pelo menos na Neim que trabalho tem como atender as crianças”, comentou.

Francine frisou que a Neim segue as exigências do plano de contingência, que todas as unidades de ensino precisam seguir para voltar ao trabalho presencial, os equipamentos essenciais para o início das aulas são máscaras, face shield, borrifador, termômetro, avental e álcool gel.

Ela destacou que tem adotado os cuidados tanto na ida à unidade quanto ao chegar em casa. A professora salientou que os próprios pais têm respeitado os protocolos e orientado os filhos.

“Os pequenos já chegam estendendo as mãos para passar o álcool gel”, contou.

Audiência de conciliação termina sem acordo

Na última segunda (19) ocorreu uma audiência de conciliação no Tribunal de Justiça sobre a greve, mas não chegaram a um acordo. Um novo encontro está marcado para a próxima terça-feira (27).

“O Sintrasem está bloqueando um direito constitucional: o direito à educação. Todos os municípios voltaram, a rede estadual voltou, a rede particular voltou. Por que Florianópolis não voltou? É um absurdo. Mostramos que temos toda segurança para as aulas presenciais e todos os EPIs foram entregues nas escolas. A prefeitura entende que a greve precisa ser paralisada imediatamente”, reforçou o secretário municipal de Educação, Maurício Pereira.

Das cidades da região da Grande Florianópolis, apenas a capital catarinense vive esse impasse devido à decisão do Sintrasem.

Na segunda-feira (19), o projeto de lei apresentado pela vereadora Manu Vieira (Novo) torna a educação e aulas presenciais como atividade essencial foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

“Não podemos deixar que escolas sejam fechadas novamente. Agora é hora de reforçarmos os cuidados e garantir que as crianças voltem a recuperar o prejuízo perdido com tanto tempo sem aulas presenciais, afinal, a escola é também uma instituição de segurança para muitas crianças”, disse a vereadora.

“Lugar de criança é na escola”, diz pediatra

O pediatra Cecim El Achkar, com quase 50 anos de carreira, defendeu o retorno às aulas presenciais. Segundo ele, as crianças não são responsáveis pela transmissão da Covid. “Praticamente 100% das crianças que adoeceram foram vítimas de seus pais, dos seus cuidadores em casa. Então não foi na escola que elas pegaram, porque elas não estavam na escola”, pontuou.

Para Cecim, os primeiros três meses de isolamento social na pandemia foram “maravilhosos”, mas com o passar do tempo se transformou em um problema.

“Elas precisam, ardentemente, voltar para escola. Lugar de criança é na escola. Não podemos continuar com as escolas fechadas, não tem motivo”, afirmou.

De acordo com o pediatra, as crianças sem as aulas presenciais sofreram alterações físicas, nutricional, psicológica e emocional. “Elas tiveram uma perda muito grande. Temos que proteger o lado mais frágil da sociedade”, frisou ele, ao lembrar que os alunos da rede pública são os mais afetados.

Contraponto

“Nossa pauta precisa ser respondida com propostas e não com ameaças ou intransigência, muito menos com desrespeito à vida ou opiniões de senso comum. Queremos retornar ao trabalho presencial, mas com segurança. Não podemos aceitar a retomada presencial de forma improvisada, que coloque em risco as vidas dos trabalhadores, dos estudantes e das famílias”, informou o Sintrasem pelas redes sociais.

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