Mudanças e desafios que estão por vir no ensino pós-pandemia

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Modelos pedagógicos modernos e potencial tecnológico colocam a Capital catarinense no caminho do futuro

Fernanda Scussel Ferreira Lima, de 37 anos, atua como professora do 4º e 5º ano do ensino fundamental em uma escola privada em Florianópolis.

Ela acredita que o ensino a distância, adotado durante a pandemia, tende a continuar de alguma forma, principalmente, nas escolas particulares.

Para ela, esse formato de ensino tende a se tornar mais presente e acessível no futuro. 

Fernanda Scussel Ferreira Lima, de 37 anos, atua como professora do 4º e 5º ano do ensino fundamental em uma escola privada em Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDFernanda Scussel Ferreira Lima, de 37 anos, atua como professora do 4º e 5º ano do ensino fundamental em uma escola privada em Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/ND

A professora diz que, além dos conteúdos tradicionais, há uma forte tendência de as escolas mais “antenadas” passarem a abordar assuntos como inteligência emocional. Lima explica que a inteligência emocional é oferecer meios para que os alunos consigam detectar e lidar com suas emoções.

“Muitas vezes a parte emocional é deixada de lado e o foco é o conteúdo. As escolas estão começando a voltar o olhar cada vez mais para as questões emocionais dos estudantes”, avalia.

A educadora acredita que a tecnologia e um novo formato de ensino serão adotados, sobretudo, por escolas particulares.

“Vejo o ensino de uma forma não tão tradicional, como conhecemos hoje. O professor não terá mais aquele papel de transmissor e detentor do conhecimento. Acredito que o aluno será o centro, construindo o conhecimento, colocando a mão na massa, solucionando problemas. As salas também deverão ficar mais lúdicas. Já vejo um movimento nesse sentido, principalmente, em instituições privadas”, diz.

Fernanda conta que o ano de 2020 foi desafiador para a filha Manuela, de quatro anos. Acostumada a ir para a escola desde os cinco meses, a pequena sentiu a falta de interação com os professores e outras crianças.

A mãe da Manu conta que aula remota para crianças dessa faixa etária e mesmo um pouco mais velhas é difícil de ser aplicada. “A Manu assistiu a poucas aulas e eu também não insisti. Deixei ela seguir o ritmo dela. Em forma de brincadeiras, no tempo livre, trabalhei alguns conceitos que sei são importantes para a idade dela”.

A estudante Helena David Pereira, de 15 anos, conta que teve dificuldades de assimilar os conteúdos no ano passado, quando cursou de forma remota as aulas do 9º ano de uma escola da rede estadual de São José. A adolescente diz que a quantidade de tarefas repassadas era grande e o prazo de entrega curto, o que a deixou sobrecarregada.

“Muitas coisas eu deixei de lado porque senti que estava ficando estressada e ansiosa com o que estava acontecendo. Além de lidar com a pandemia, tivemos que aprender a lidar com uma forma de ensino completamente diferente”, desabafa. 

Este ano, Helena frequenta as aulas de forma híbrida e ela não esconde a preferência pelo ensino presencial. “Quando estamos em presencial a comunicação fica bem mais fácil. Em casa, é muito diferente”.

Com iniciativas inovadoras na educação, Florianópolis ainda tem obstáculos a superar

Florianópolis vem, já há alguns anos, diversificando suas atividades econômicas e se tornando conhecida não somente pelas praias e potencial turístico, mas também pela vocação empreendedora.

A Capital catarinense chegou a receber o apelido de “Ilha do Silício” – em alusão ao Vale do Silício dos Estados Unidos, onde se concentram as maiores empresas de tecnologia do mundo. O cenário também promove iniciativas inovadoras na educação. 

Para o presidente do Conselho Municipal de Educação e integrante do Conselho Estadual de Educação, Flaviano Vetter Tauscheck, Florianópolis está no caminho certo. 

“Já há muitas iniciativas de inovação na educação comparando com outras cidades. Há uma preocupação constante, tanto da iniciativa privada quanto da administração pública de incluir os serviços educacionais na inovação”, avalia.

Em fevereiro de 2020, a prefeitura municipal inaugurou duas unidades da Escola do Futuro: a Escola Básica Municipal Mâncio Costa, em Ratones, no Norte da Ilha, e a Escola Básica Municipal da Tapera, no Sul da Ilha.

As escolas oferecem ensino quadrilíngue — português, inglês, Libras (Língua Brasileira de Sinais) e letramento digital (ler, escrever e interpretar informações, códigos e sinais com dispositivos digitais) —, além de projetos como o Clube de Esportes, Clube do Empreendedor e Clube de Ciências, Robótica e espaço “maker”.

O modelo pedagógico instituído pela rede pública se tornou referência nacional.

A Secretaria Municipal de Educação almeja a construção de uma terceira Escola do Futuro batizada de Anísio Teixeira, próxima da Creche Hassis, no bairro Carianos.

Polo de tecnologia 

Thiago Korb, gerente de educação básica e coordenador pedagógico e de qualidade educacional no Sesi Senai SC, aponta Florianópolis como um polo de tecnologia da informação. 

“Temos um ecossistema muito aflorado e isso faz com que o mercado esteja em alta e demanda de mão de obra qualificada. Encontrá-la é algo que vai além da titulação. As empresas procuram alguém que não tenha apenas diploma, mas também competências. Pensar em estratégias diferenciadas na educação faz todo o sentido neste cenário”, argumenta. 

Flaviano Tauscheck cita as parcerias firmadas entre Acate (Associação Catarinense de Tecnologia) e instituições que facilitam o acesso a cursos técnicos que preparam o profissional para o mercado de trabalho emergente. 

O gerente de educação básica no Sesi Senai SC aponta que a inovação na educação perpassa a transformação que a própria sociedade atravessa. Neste sentido, a educação precisa não só dar respostas para as demandas atuais, mas também deve preparar para as necessidades do futuro.

Formação e atualização de professores

Os especialistas apontam outro entrave determinante que ainda impede uma efetiva inovação na educação: a falta de formação dos professores. 

“Os professores devem ter competência digital em três áreas: pedagógica, ou seja, saber ensinar com tecnologia; cidadania digital, saber usar as redes sociais, a tecnologia de forma crítica e responsável; desenvolvimento profissional, isto é, uso para aprimorar a vida profissional e compartilhar as práticas”, explica Dellagnelo. 

Para o professor Helder Lima Gusso, do departamento de psicologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), a adoção de tecnologias em uma escola envolve mudanças no currículo, no planejamento de aulas e a preparação de professores, coordenação pedagógica e estudantes. 

“É um investimento que tem que ser feito. Inovar não é simplesmente alocar recursos e botar para funcionar. Precisamos dos recursos, sim, mas também de condições de trabalho e de professores preparados”, conclui. 

Falta de infraestrutura

Ainda que Florianópolis tenha dado passos em direção à inovação na educação, existem obstáculos a serem superados, que não são exclusividade da cidade.

Para a professora Martha Kaschny Borges, que integra o programa de pós-graduação em educação da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), um dos grandes entraves para o desenvolvimento de práticas inovadoras na educação é a falta de infraestrutura. 

“Parte da população ainda não tem nem acesso à internet. Vejo essas dificuldades nas diferentes redes de ensino. Ainda há muita desigualdade, não só em Florianópolis, mas no Brasil de modo geral. A pandemia da Covid-19 expôs essas desigualdades”, diz a professora universitária. 

Lúcia Gomes Vieira Dellagnelo, diretora presidente do Cieb (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) endossa o coro e afirma que as escolas brasileiras ainda estão em um nível baixo de adoção de tecnologias, sobretudo as redes municipais de ensino. Segundo ela, falta infraestrutura, acesso à internet banda larga e equipamentos para os alunos.

Lei da Política de Inovação Educação Conectada

  • No início de julho, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sancionou a lei que institui a Política de Inovação Educação Conectada. A norma visa difundir a universalização do acesso à internet em alta velocidade e fomentar o uso pedagógico de tecnologias digitais na educação básica.  
  • Entre outros pontos, segundo o texto, são princípios da Política de Inovação Educação Conectada a equidade das condições entre as escolas públicas da educação básica para uso pedagógico da tecnologia e a promoção do acesso à inovação e à tecnologia em escolas situadas em regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica e de baixo desempenho em indicadores educacionais. 
  • Também são preconizados o estímulo ao protagonismo do aluno e o incentivo à formação de professores e gestores em práticas pedagógicas com tecnologia e para uso de tecnologia. Entre os vetos ao texto está o que previa o apoio financeiro às escolas e redes de educação básica por meio de repasse de recursos federais.