Na sala de aula, professores com todo orgulho

Em meio à greve do Magistério, provas de verdadeira vocação e motivação para educar

Janine Turco/ND

Débora. Professora se orgulha da profissão e afirma: “A escola é o caminho. Uso a minha história para motivá-los”

Mesmo diante das reivindicações do magistério e o impasse que a greve dos professores estaduais provocou nas negociações com o governo, alguns educadores mantiveram as aulas, sem interrupção, desde que foi deflagrada a greve. Apesar das dificuldades, a motivação para não aderir à greve é, basicamente, o aluno. A profissão deixa de ser só o sustento financeiro e passa a ser um ideal, uma paixão, muitas vezes cansativa e difícil de sustentar.

A professora Débora Cristina Viali de Andrade, 37 anos, não pensava em dar aula. Fez o magistério sem muita pretensão e, aos poucos, se apaixonou pela profissão. Emocionada, ela tenta definir o que é ser professora, mas só uma palavra lhe vem à boca: “Tudo”. Sua dedicação é refletida na despedida carinhosa dos estudantes ao fim da aula da turma da 4ª série matutina da escola Simão José Hess, onde, até ontem, nove dos 50 professores estavam em greve.

Débora, que sempre estudou em escola e universidade públicas, acorda às 5h30, de segunda a sexta-feira, e precisa pegar dois ônibus para chegar à escola, no bairro Trindade, onde dá aula em período integral. São mais de 40 horas semanais dedicadas a 43 estudantes. O seu objetivo maior é ensinar aos alunos que é possível conquistar o que se deseja. “É possível transformar a realidade, por pior que seja. E a escola é o caminho. Sou filha de escola pública estadual. Uso minha história para motivá-los”, relatou.

“Vejo o crescimento deles e cresço junto”, afirma Débora 

A professora Débora Cristina Viali de Andrade cursou economia até a 5ª fase, mas o amor à pedagogia falou mais alto. Mesmo sabendo que o salário não era o dos sonhos, ela perseguiu o seu ideal.

Quando a professora estava concluindo o magistério, há 18 anos, houve uma greve e ela precisou mudar de escola para não perder o ano. No mesmo período, Débora percebeu que muitas crianças e adolescentes ficavam desocupadas, com tempo ocioso e suscetível a riscos de violência, por exemplo.

A partir daí, prometeu que faria o possível para não deixar aluno com tempo ocioso. Por isso, não faz greve. “Encaro a pedagogia como minha profissão e não como um emprego. Nossa recompensa como seres humanos é muito maior do que qualquer valor. Vejo o crescimento deles e cresço junto”, refletiu.

Em 2011, Débora foi a única professora da escola que não aderiu à greve no período matutino e precisou ser firme para resistir à pressão. Apesar de não paralisar as atividades, ela não é contra o movimento dos colegas, mas acredita que a greve também não é a solução. Para ela, a perda que o aluno tem neste período é mais significativa do que a própria greve.

“Concordo com as reivindicações e aproveito este momento para ensiná-los. Oriento-os para que os alunos analisem a situação, falem com os pais sobre o assunto, a importância do voto, etc. A cidadania começa aqui”, disse Débora.

Janine Turco/ND

Margarete. “O que me motiva é poder contribuir para o aprendizado deles”

Professoras dizem que falta valorização

Na Escola Muquem, no bairro Rio Vermelho, no Norte da Ilha, a adesão dos professores à greve foi baixa. Só uma professora de educação física aderiu. As professoras Margarete Teixeira Madalena Paris, 49 anos, e Mairê Frota, 47, trabalham há mais de 20 anos com educação e também conseguiram manter as salas de aula cheias neste período de greve.

Ambas cumprem 40 horas semanais, mas o trabalho e a preocupação vão além da escola. Apesar de terem escolhido a profissão por identificação, afirmam que hoje pensariam duas vezes antes de trabalhar com educação e sentem-se desmotivadas por causa da desvalorização do professor, “por parte do governo, dos pais e dos próprios alunos”.

Mairê não aderiu à greve por causa do desgaste e porque considera difícil recuperar o conteúdo depois. Mas apoia a atitude dos colegas e acha que não deveria ser necessário fazer greve para esperar uma ação do governo. Quando era jovem, decidiu pelo magistério porque “era uma profissão valorizada, respeitada.” “Professor é doação. Temos muita responsabilidade, estamos formando para a vida inteira. A educação precisa ser repensada”, disse Mairê.

Para Margarete, professora da 5ª série, “precisamos fazer o papel de mãe, enfermeira, psicóloga e, por último, o de professora”.

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